Essa noite eu tive um sonho horrível. Desses que a gente acorda incomodada e demora para passar.
Sonhei que estava sendo assediada.
Todo tipo de assédio!
Acho que foi por causa de uma conversa profunda que tive ontem com uma amiga. Ela é Tcheca e o namorado, criado em uma cultura mulçumana, apesar de ele estar tentando se adaptar as ideias ocidentais de relação homemXmulher. Mas é difícil pra ele.
E para ela, lidar com ele.
Ele pagou a passagem dela para que ela pudesse voltar para Brisbane e ficar um tempo com ele, nas férias. O pai dela é super contra. Morre de medo do modo como o sujeito vai tratar a filhota dele. Mas, enfim, ela é uma das maiores girl power que eu conheço e, aos 23 anos, já viajou meio mundo sozinha e está terminando o mestrado em relações internacionais, no qual a tese discutida é a condição das mulheres mulçumanas na Europa hoje.
Em suma: ela sabe se defender.
No meu sonho tinha um ex chefe, muito inconveniente, com o qual - assumo na reflexão que só fiz hoje - eu fui conivente. Tinha homens em baladas e a cena mais aterrorizante foi a última que me lembro do sonho, quando eu vinha andando pela rua tarde de noite e um bando de homens bêbados vinham na minha direção. Acordei. Graças a Deus.
E me lembrei que isso aconteceu comigo antes de ontem. Exatamente essa cena. Tarde da noite. Eu sozinha na rua, no sentido contrário, caminhando na minha direção, 6 ou 7 caras bêbados.
Sabe o que eles fizeram comigo?
Nada.
Eles sequer me olharam.
Pensar nisso é tão aliviante.
Aqui em Brisbane, Queenslad, Austrália, é o tempo inteiro assim.
Eu NUNCA fui assediada.
Para não dizer nunca, certa vez, passava de 3h da manhã, na balada do bairro de baladas e eu estava numa despedida de solteira, onde as meninas estavam LOUCAS e a balada inteira também (menos eu, porque alguém tinha que garantir a sobrevivência da galera). Havia tipo um corredor polonês de caras e elas passaram no meio fazendo graça. Um dos caras passou a mão na bunda da mina que tava na minha frente. Eu juro que nunca tinha visto uma cena dessas por aqui. Esperei a reação dela, ela nem ligou. Se pans, nem percebeu. Passou a segunda, e ele de novo, mão na bunda. Ela virou, olhou feio e nada. Quando foi minha vez de passar, eu parei na frente dele e disse: eu vou passar aqui, bem na sua frente, e você não vai se mexer, porque se você encostar em mim ou se eu ver você encostando em qualquer outra mulher, você sabe que sua balada vai acabar.
Sabe o que o cara fez?
Nada.
Ele não me xingou de gorda, feia ou mal amada. Não fez piada com os amigos, nada. Ele simplesmente caiu em si.
Porque aqui, se um cara te incomoda no bar ou balada, só o que você tem que fazer é apontar ele para o segurança que, imediatamente, expulsa o sujeito do recinto. Sem pedir provas ou fazer perguntas.
Porque aqui, assédio sexual é crime.
Temos um conhecido brasileiro que foi numa balada e fez com a australiana o que eles costumam fazer no Brasil: botou a mina contra a parede e saiu beijando e passando a mão.
Sabe onde ele está hoje? Na corte, respondendo a um processo, correndo o risco de perder a residência permanente.
Ontem eu estava sozinha, atendendo no bar, 30 homens. Eu não disse 3 homens. Eu não disse 4 homens e 2 mulheres.
Não havia outros funcionários, não havia outros clientes.
Era eu e 30 homens. E só.
Só de imaginar essa cena do Brasil já me dá enjôo. As coisas mais bárbaras iriam acontecer e/ou ser ditas.
Mas ontem, sabe o que aconteceu? Nada. Minha relação com eles foi estritamente trocar cerveja por dinheiro. Para não dizer que eles não fizeram nada demais, eles foram gentis quando eu evitei passar no meio da muvuca e pedi ajuda a eles para recolher os copos vazios. Eles recolheram todos para mim e levaram até o balcão.
Aqui na Austrália, quando um homem quer chamar sua atenção, ele oferece gentilezas. Mulher aqui só paga bebida no bar se quiser. Porque o jeito deles se aproxmarem de você é te oferecendo um drink. E se você disser "não, obrigada", tá tudo bem.
Se você está com um homem australiano e sai com ele para a balada, ele não olha para ninguém. Não é gentil secar a bunda de outra mina quando você está acompanhado de uma, e eles sabem disso. E se uma mulher chega nele - porque aqui a mulherada tem o direito e o dever de fazer isso - ele gentilmente avisa a ela que está acompanhado.
Mulheres altas, baixas, lindas, feias, gordas, magras, de todas as cores e sabores estão acomapnhadas aqui. E eu nunca ouvi um comentário do tipo "o que esse homem lindo está fazendo com esse tipo estranho?", porque não é sobre aparência física. É sobre seres humanos.
Eu não vou garantir que não existem estupradores ou malucos à solta.
Mas os homens adequadamente inseridos na sociedade, agem de forma muito respeitosa e isso é maravilhoso. Andar na rua tarde da noite, ir pra balada, passar na frente da obra, caminhar na praia, tudo isso é maravilhoso aqui e a sensação é uma delícia. Eu tinha esquecido o que é assédio. Faz 20 meses que eu não ouço ninguém gritando "gostosa" na rua, ou como usam aqueles ogros mineiros, "bitela".
À exceção dos meus amigos brasileiros, também nunca ouvi ofensas do tipo "baranga".
Para não dizer que não há assédio, essa amiga do começo do post é MUITO bonita. E ela chama muita atenção. E toda vez que ando com ela na rua reparo os homens olhando muito pra ela. Olhando. Só. Sem comentários, sem virar pescoço, nada. Olhando.
A sensação é maravilhosa. É de segurança. Por isso meu sonho me incomodou tanto. Trouxe todos esse sentimentos ruins à tona, de andar na rua no Brasil.
Ainda assim, estou falando do âmbito público. Machismo ainda é uma coisa a se resolver no âmbito privado na Austrália.
- Eu mesma já tive três discussões sérias com australianos sobre isso. Caras com quem eu estava me envolvendo e que me disseram "não quero saber de feministas". (Se quiser me rotular de feminista, fique à vontade, eu prefiro me rotular de pessoa esclarecida que busca entender a raíz dos problemas sociais). -
Violência doméstica é coisa muito séria aqui. Porém, tratada publicamente à exaustão, com campanhas e mais campanhas. Inclusive violência psicológica.
E eu já estou CANSADA de tanto ouvir casos de mulheres apanhando e sofrendo com as loucuras de seus parceiros por aqui.
Mas a luta existe. Esses dias ouvi um caso de uma brasileira que já tinha dado entrada na documentação de residência permanente com o parceiro australiano, quando ele decidiu que o futuro dela pertencia à ele e, por isso, ele poderia fazer o que quisesse da relaçao. Ela deu um basta, acabou a relação (não sem muito sofrimento) e entrou na justiça. Vai conseguir o documento e ele vai ter de arcar com as consequências da violência psicológica que impôs a ela.
Porque a justiça por aqui funciona. E entende que direito de mulher não é blá blá blá feminista e mi mi mi. E sim um fato. Preocupante.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
sábado, 14 de janeiro de 2017
O pior dia da minha vida
Queensland, "the sunshine state", onde eu moro, está batendo recordes de calor. Estamos enfrentando a maior onda de calor da história do estado. Em algumas cidades, a sensação térmica é de 46 graus na sombra. Em Townsville, o pessoal tá fritando ovo só de colocar a panela no sol. E aqui na capital, Brisbane, não é diferente.
Desde que a sensação térmica começou a passar os 38, eu parei de andar de bike. Estou optando pelo ônibus com ar condicionado. Nem o ferry, que eu tanto amo, tá dando pra lidar, porque a brisa vem cheia de calor e aqui é muito úmido e você sai do ferry grudando.
Aí eu lembrei que no inverno, quando fazia 7 graus, eu também não andava de bike. E lembrei de uma conversa que tive com meu cunhado, lá em Toronto, quando vimos uma galera pedalando na neve e ele disse "esse pessoal anda de bike por razões políticas. É mais que um meio de transporte ou uma diversão, por isso eles vão em qualquer temperatura".
Somando tudo isso, cheguei à conclusão: eu sou uma preguiçosa. Uso tudo como desculpa pra não dar aquela pedaladinha.
Eu tinha três compromissos, todos aqui no east side (visitar casas pra achar uma pra morar) e, ao todo, a pedalada não passaria de 10 ou 12 km. A maior parte, no flat. Quase nada de morro. Passei protetor solar na cara, nos ombros e braços, e fui. No calor de 34 com sensação térmica de 40.
MEU AMIGOS
Erro 1: capacete.
Comecei a suar no primeiro minuto. Literalmente, assim que saí de casa. O suor pingava de dentro do capacete e escorria pelo rosto e ia tirando o protetor. Pensei em me arrepender, mas aí veio uma descida bacana e o vento na cara.
Erro 2: nada flat.
Tudo que desce, sobe. E lá veio a ladeira que o google disse que era leve. Comecei a suar num lugar que eu só suo em situações extremas: no meio da canela. Brota suor do nada e escorre pro pé, que estava confortavelmente instalado nas havaianas.
Erro 3: chinelo.
Meu pé pegou muita poeira, estava sujo. O suor escorria, melecava. Eu não passei protetor nele. Tinha poeira, suor e sol. Mas enfim, cheguei ao meu destino. MEIA HORA ANTES.
Erro 4: subestimar minha capacidade de pedalar na velocidade da luz
Geralmente eu coloco 20 minutos a mais na conta do google. Se ele diz que vou chegar em 7 minutos, saio 27 minutos antes e chego num tempo razoável. Ontem, ele disse que chegaria em 20. Eu cheguei em 12. Efeito calor infernal: vc pedala igual louco pra chegar logo e sair dessa porra desse Sol.
Resolvido o primeiro compromisso, lá fui pro segundo. Brisbane é uma cidade muito arborizada. E cheia de sombras nas calçadas. Tenho visto muitos ciclistas pedalando na calçada sendo que a ciclofaixa está do lado deles, na rua. Ontem eu entendi porque. Porque a calçada tem sombra. E foi aí que o bicho pegou com força ontem.
Erro 5: Wellington Road
Sim. Brisbane tem muitas árvores nas ruas e sombras artificiais na calçada. Exceto a Wellington road. Quando eu já tinha entendido que não foi uma boa ir de bike, a voz macia da muié do google diz no meu ouvido "continue 1 quilometro e 300 metros na wellington". Eu olhei pra frente e vi aquela rua gigante sem NENHUMA ÁRVORE no caminho. Sem NENHUMA sombra, sequer de telhado de restaurante, na calçada. E aquela ladeira imperceptível aos olhos, mas muito bem notada pelo joelho. Pra você pode ser 1,3km. Pra mim foram 57.
Mais uma vez cheguei adiantada e, ao esperar, vi uma cena maravilhosa. Parecia uma miragem. Era UMA TORNEIRA. Enchi minha garrafa de água e num gole só tomei 700ml daquela maravilhosa água com gosto de ferrugem e cloro mas, que pelo menos, não estava quente. (eu não disse que estava gelada).
Saí de lá empurrando a bike porque era num buraco e pra sair de lá, só de ladeira muito íngreme. Quase no topo do morro, uma senhorinha olhou pra mim com uma cara de preoucupada.
Erro 6: confiar na gentileza dos australianos
Ela me olhou e disse: "Nossa, não deve estar sendo fácil".
Eu disse: "Está bem mais quente do que eu imaginava"
E ela: "Por isso que vou entrar no meu carro e ficar no ar condicionado HUA HUA HUA"
Velha filha da puta.
Subi na bike e fui pro terceiro ponto. Meu pneu está furado faz um tempo. Eu encho, ele fica um pouco cheio e depois vai esvaziando. Mas sempre dá tempo de encher antes dele abaixar de vez. Quando eu subi a ladeira mais massacrante do caminho - essa era ladeira mesmo! - pensei em desistir e empurrar, mas, no fundo, devo confessar, eu gosto quando tá difícil e o anjinho fica de um lado falando "pedala, vc consegue" e o diabinho do outro falando "desce, empurrra e aproveita pra fumar um cigarrinho". Eu pedalei e, quando cheguei no topo, veio a recompensa: a descida. Até que o google fala: vira à esquerda. E tchan: ladeira acima! No topo, lá vem a mulheriznha: turn right. E tchan: ladeira acima! Mais uma ladeira abaixo e chego no destino. Uma hora e vinte antes.
Erro 7: deixar o calor te fazer perder a concentração
Por algum motivo eu achava que os compromissos eram cada um, vinte minutos depois do outro. Deve ter sido muito sol na cabeça. Nessa condição, só me restava caçar um sorvete. Mais duas ladeiras acima e lá estava ela.
Desde que a sensação térmica começou a passar os 38, eu parei de andar de bike. Estou optando pelo ônibus com ar condicionado. Nem o ferry, que eu tanto amo, tá dando pra lidar, porque a brisa vem cheia de calor e aqui é muito úmido e você sai do ferry grudando.
Aí eu lembrei que no inverno, quando fazia 7 graus, eu também não andava de bike. E lembrei de uma conversa que tive com meu cunhado, lá em Toronto, quando vimos uma galera pedalando na neve e ele disse "esse pessoal anda de bike por razões políticas. É mais que um meio de transporte ou uma diversão, por isso eles vão em qualquer temperatura".
Somando tudo isso, cheguei à conclusão: eu sou uma preguiçosa. Uso tudo como desculpa pra não dar aquela pedaladinha.
Eu tinha três compromissos, todos aqui no east side (visitar casas pra achar uma pra morar) e, ao todo, a pedalada não passaria de 10 ou 12 km. A maior parte, no flat. Quase nada de morro. Passei protetor solar na cara, nos ombros e braços, e fui. No calor de 34 com sensação térmica de 40.
MEU AMIGOS
Erro 1: capacete.
Comecei a suar no primeiro minuto. Literalmente, assim que saí de casa. O suor pingava de dentro do capacete e escorria pelo rosto e ia tirando o protetor. Pensei em me arrepender, mas aí veio uma descida bacana e o vento na cara.
Erro 2: nada flat.
Tudo que desce, sobe. E lá veio a ladeira que o google disse que era leve. Comecei a suar num lugar que eu só suo em situações extremas: no meio da canela. Brota suor do nada e escorre pro pé, que estava confortavelmente instalado nas havaianas.
Erro 3: chinelo.
Meu pé pegou muita poeira, estava sujo. O suor escorria, melecava. Eu não passei protetor nele. Tinha poeira, suor e sol. Mas enfim, cheguei ao meu destino. MEIA HORA ANTES.
Erro 4: subestimar minha capacidade de pedalar na velocidade da luz
Geralmente eu coloco 20 minutos a mais na conta do google. Se ele diz que vou chegar em 7 minutos, saio 27 minutos antes e chego num tempo razoável. Ontem, ele disse que chegaria em 20. Eu cheguei em 12. Efeito calor infernal: vc pedala igual louco pra chegar logo e sair dessa porra desse Sol.
Resolvido o primeiro compromisso, lá fui pro segundo. Brisbane é uma cidade muito arborizada. E cheia de sombras nas calçadas. Tenho visto muitos ciclistas pedalando na calçada sendo que a ciclofaixa está do lado deles, na rua. Ontem eu entendi porque. Porque a calçada tem sombra. E foi aí que o bicho pegou com força ontem.
Erro 5: Wellington Road
Sim. Brisbane tem muitas árvores nas ruas e sombras artificiais na calçada. Exceto a Wellington road. Quando eu já tinha entendido que não foi uma boa ir de bike, a voz macia da muié do google diz no meu ouvido "continue 1 quilometro e 300 metros na wellington". Eu olhei pra frente e vi aquela rua gigante sem NENHUMA ÁRVORE no caminho. Sem NENHUMA sombra, sequer de telhado de restaurante, na calçada. E aquela ladeira imperceptível aos olhos, mas muito bem notada pelo joelho. Pra você pode ser 1,3km. Pra mim foram 57.
Mais uma vez cheguei adiantada e, ao esperar, vi uma cena maravilhosa. Parecia uma miragem. Era UMA TORNEIRA. Enchi minha garrafa de água e num gole só tomei 700ml daquela maravilhosa água com gosto de ferrugem e cloro mas, que pelo menos, não estava quente. (eu não disse que estava gelada).
Saí de lá empurrando a bike porque era num buraco e pra sair de lá, só de ladeira muito íngreme. Quase no topo do morro, uma senhorinha olhou pra mim com uma cara de preoucupada.
Erro 6: confiar na gentileza dos australianos
Ela me olhou e disse: "Nossa, não deve estar sendo fácil".
Eu disse: "Está bem mais quente do que eu imaginava"
E ela: "Por isso que vou entrar no meu carro e ficar no ar condicionado HUA HUA HUA"
Velha filha da puta.
Subi na bike e fui pro terceiro ponto. Meu pneu está furado faz um tempo. Eu encho, ele fica um pouco cheio e depois vai esvaziando. Mas sempre dá tempo de encher antes dele abaixar de vez. Quando eu subi a ladeira mais massacrante do caminho - essa era ladeira mesmo! - pensei em desistir e empurrar, mas, no fundo, devo confessar, eu gosto quando tá difícil e o anjinho fica de um lado falando "pedala, vc consegue" e o diabinho do outro falando "desce, empurrra e aproveita pra fumar um cigarrinho". Eu pedalei e, quando cheguei no topo, veio a recompensa: a descida. Até que o google fala: vira à esquerda. E tchan: ladeira acima! No topo, lá vem a mulheriznha: turn right. E tchan: ladeira acima! Mais uma ladeira abaixo e chego no destino. Uma hora e vinte antes.
Erro 7: deixar o calor te fazer perder a concentração
Por algum motivo eu achava que os compromissos eram cada um, vinte minutos depois do outro. Deve ter sido muito sol na cabeça. Nessa condição, só me restava caçar um sorvete. Mais duas ladeiras acima e lá estava ela.
A SORVETERIA
COM AR CONDICIONADO!
Gastei 6 dólares e 80 centavos nas duas bolas de sorvete mais caras da minha vida que nem era lá essas coisas. Mas pra mim, naquele momento, foi o paraíso.
Com os 40 minutos que me restavam, decidi fazer o que eu nunca achei que um dia seria meu programa favorito na vida mas, desde que cheguei em Brisbane, se tornou: deitar na grama no parque de frente pro rio, à sombra de uma árvore. Fiquei lá filososando sobre como o criador é perfeito porque, apesar desse Sol infernal, tem a sombra e tem a brisa do rio e a gente é que fode tudo colocando esse monte de concreto no caminho. Aí, uma das piores criações humanas - o despertador - tocou e era de hora de levantar e pedalar de novo. Voltei a odiar o criador por esse erro chamado Sol e fui ao compromisso final.
Na saída, meu pneu estava tão murcho que as ladeiras estavam muito mais pesadas. Parei num inferno chamado posto de gasolina. Enchi o pneu e comecei a sentir ainda mais meu pé. E minha testa. E a batata da minha perna. Tudo ardia. Eu podia sentir bolhas na minha testa. Quando cheguei na área que já conheço, entendi que o Google me manda pela caminho mais conveniente e seguro pra bike, que não necessariamente é o mais agradável. Mudei a rota e finalmente, 2 quilometros no flat, na calçada, na sombra. Comecei a pensar naquela maravilhosa invenção do homem - bem melhor que o Sol do criador - a lata de Gordon´s gin and tonic.
O que é um peido pra quem tá cagado?
Voltei, mais 2 km no sol, sem sombra, até a loja que vende essa bagaça num preço acessível.
Quando cheguei em casa, não existia um único centímetro do meu corpo seco. Minha cara tinha a marca do óculos. Do enrome tempo que fiquei no banho gelado, 7 minutos foram destinados só a deixar a água cair na testa.
Entendi que eu não sou preguiçosa e que contra fatos não há argumentos. Minha bike está aposentada. Até que a sensação térmica seja menor que 29 graus, não pedalo.
É OFICIAL. Tá resolvido.
Dormi como um anjo, acordei morrendo de dor de cabeça. Mas essa sensação eu já conhecia das trilhas em BH. Não importa quanta água você tome, pedalar pesado no sol desidrata e dá dor de cabeça.
Mandei uma neosaldina e fui trabalhar. Decidi pegar o ferry. Esperei sete minutos, tinha 20 minutos pra chegar no trabalho e eu era a oitava da fila. O marinheiro avisou: sorry, só tem espaço pra sete. E lá fiquei, literalmente, a ver navios, enquanto o ferry partia lotado.
Pensando como eu ia chegar no trabalho.
Do outro lado do rio.
Pensei em atravessar a nado, mas ia molhar meu uniforme.
Olhei prum lado, vi a ponte. Olhei pra trás e lá estava ela: a estação de bikes do sistema público de bike compartilhada.
Pedalei.
EU FUCKING PEDALEI ATÉ A PORRA DO TRABALHO.
Eu estava uniformizada, penteada, maquiada.
Cheguei suada, com meia maquiagem e sem poder lavar a cara.
Passei uns papel molhado na testa, enchi o peito e fui, cheia de convicção. Quando eu entrei, as pessoas derretiam, estavam com cara de cansadas, suando à cântaros. Todos parecendo zumbis. E entendi que estamos todos no mesmo barco.
Quando cheguei em casa, à noite, enquanto tomava minha merecida latinha de gordons, minha flatmate me explicava o que significa o índice UV no app da previsão do tempo. E que na Colômbia, só vai de 0 a 10. E ela andava chocada que aqui na Austrália chega a 12, 13, o que é muito extremo e indica que você não deve ficar mais de 20 minutos no Sol.
E que ontem, excepcionalmente, o índice estava 17.
E foi assim que eu morri de câncer de pele.
Adeus.
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