domingo, 21 de abril de 2019

Cagar pra França faz parte

Eu tinha esse professor tão legal no colegial. Ele tinha essa sensibilidade pra lidar com adolescentes e talvez - tomara - ele tenha mudado ou salvado a vida de muita gente. Ele dava aula de nem lembro o nome da matéria, mas era técnico em publicidade e ele ensinava photoshop, ciente de que não faz muito sentido ensinar um software que muda o tempo todo então, ele ensinava outras coisas mais úteis e conceituais, como storyteller e eu lembro de uma aula que a gente tinha que desenhar uma musica. Olha que viagem do cara Haha. Amo. Era uma aula em que ele ensinava a pensar, criar e ainda julgava a galera pelo gosto musical. Alguém usou Angra dos Reis do Legião Urbana e ele fez todo mundo analisar a letra pra perceber o quão precária era ela hahaha. Lembro tambem de uma vez que ele separou a sala entre meninos e meninas e teve uma conversa com cada gênero. Não sei o que ele disse pros meninos. Mas pra gente, ele ensinou a importância de cagar pra opinião alheia - tão importante quando se é adolescente - lembro dele dizendo "não se preocupe em ser alta, baixa, magra ou gorda, ter cabelo escuro ou claro, ser gay ou hetero. O padrão de beleza do sapo é a sapa e não a elefanta. Sempre vai ter alguém pra gostar de você do jeitinho que você é".

Depois ele me deu um emprego, virou meu chefe, me ensinou a trabalhar e, depois, virou meu amigo querido. Mas será pra sempre meu mestre. Eu lembro também que ele disse que alguém disse que não adianta viajar porque, não importa quão longe você vá, você vai junto.

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"Minha mãe tem problemas renais e agora está piorando, estou preocupado" me disse o sujeito do combate ao incêndio, que nunca antes tinha falado comigo. - Eu sei que vai dar tudo certo. Vou rezar por ela, disse eu.

"Eu odeio meu trabalho", me disse, passando apressado pelo corredor, o sujeito engraçado do bar, que sempre faz piada no fumódromo. - Amanhã vai ser outro dia, gritei, antes que ele virasse à esquerda e não pudesse mais me ouvir.

"Não consigo levantar. Eu preciso dormir mais", me disse minha cabinmate enquanto eu tentava acordá-la - O navio do seu namorado está aportado aqui do lado e ele disse que te esperava às 10h. Você disse que ama ele então, levanta Catso! Disse eu, rezando pra ela sair logo e eu poder dormir em paz.

"Ele disse que me ama e quer casar comigo. Não sei o que fazer" contou a moça casada, sobre o amante. Nesse caso eu não soube o que falar. - E aí? Foi só o que pude pensar na hora.

E teme aquele homem da Bulgária, de cara fechada. Sei lá qual é o trabalho dele, mas ele nunca sorri ou diz oi. Mas tem os outros 300 crew members que estão sempre sorrindo.

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Imagine um ciclo de vida de 7 dias. Você conhece gente, faz amigos, aprende algo, faz algo de útil, algo de divertido, come, dorme, respira, se reproduz e... tudo isso morre.
Outra semana, outras pessoas, outra comida, outro país. Começa tudo de novo.
A cada semana, trocam os passageiros. Gracas a Deus, pq ninguém é obrigado a aguentar um chato por mais de sete dias.
E infelizmente, porque eu poderia passar o resto da vida conversando com Pietro e Liliana, meus amigos italianos do norte, ricos, finos, elegantes e sinceros - e velhos bem velhinhos - que passavam todo dia só per salutare e jogar conversa fora, ainda que a gente não falasse nenhuma língua em comum.

Pietro e Liliana foram embora. Minha amiga chinesa maluca de jogar pedra e carinhosa de dizer chega, foi embora. Meus amigos romenos foram embora. Eu adoro os romenos, todos eles. O fotógrafo que era meu guia particular porque já fez 9 contratos e uma das poucas mentes brilhantes around. O chefe dele, que me dava chocolate, deixava eu dormir na cama dele que é enorme, de chefe, e me dava cerveja escondido na cabine. Foi embora meu amigo italiano baterista com quem eu conversava horas e horas sobre música e candomblé. Foi embora meu namorado que namorou comigo com data pra acabar porque acaba o contrato, tem que acabar o amor.

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Meu pé dói. Muito. Só o esquerdo. Não sei porque. Tem 3 calos que formam um triângulo. As vezes eu manco pra ver se aliviando o peso, alivia a dor. Eu queria andar de chinelo pro pé respirar, mas não pode comer de chinelo tem que ser sapato fechado. E não pode trazer comida pra cabine e tem hora pra comer. Não é exatamente uma vida livre não poder escolher o que calçar para ir comer ou a que hora de tem fome.

O cara que chegou pra trabalhar com a gente veio pq precisava de gente q falasse frances. Ele não fala frances, nem ingles. Na verdade, ele nao fala. Sei lá quem entrevistou ele e mandou ele pra cá. Só sei que eu falo "por favor, coloca as bolsas nessa mesa" e ele desmonta a mesa e guarda.
E a mina então. Ela pelo menos sabe falar um monte de línguas muito bem. Mas você fala "2 e 2 são 4" e ela responde: entendi, mas tenho deficit de atenção então, desenha pra mim e repete por 4 dias, 7 vezes por dia até eu aprender de vez.

Eu engordei, né? Pão e sobremesa em toda refeição é foda. E aquele bendito croissant de nutella no cafe da manhã...

Rola uma deprê juntado tudo isso.

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Hoje eu tô esnobando num nível "caguei pra França". Estamos em Marseille, está frio, é tudo muito longe do navio. Vou ficar deitada de perna pro ar que ganho mais. (E gasto menos).

Perna pro ar também é quase uma mentira. Não existe um único dia de 24 horas de folga. Sempre tem algo pra fazer, nem que sena treinamento quando é mandatório usar uniforme.

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No fim, a vida é ela mesmo. Não importa onde você esteja.
E você é você mesmo. E é melhor se bastar.
E os outros também são eles mesmos. Chatos e legais. Pessimistas e otimistas.

E vai doer o pé ou o coração e afligir a mente.
Vai ser tudo igual.

Só resta mesmo decidir o plano de fundo. Quantos layers você vai colocar. Pode ser sua casinha com seus filhinhos ou num navio roletando o mundo. Eu, de minha parte, por enquanto, prefiro ficar nessa confusão de não lembrar se aquele café maravilhoso foi em Savona ou Salerno e não saber se eu estava na India mês passado ou retrasado. Ha ha. No fim, é mais cômico do que trágico. É só a vida. E é só como a gente decidiu olhar pra ela.

sábado, 6 de abril de 2019

O lado árabe

São 8h44da manhã em Aqba, Jordânia. Vamos fazer uma viagem de onibus de quase duas horas até Petra.
O visual, pra mim, é muito, muito impressionante. São montanhas consideravelmente altas. Secas. É região de deserto. Se não me engano, o guia mencionou que 70% da área do país é deserto. (Me deu sede só de escrever isso).
Elas são muito marrons. No mínimo uns 7 tons de marrom.
E atrás delas um céu incrivelmente azul e limpo, apesar da previsão de que estava nublado. Se eu tirar uma foto, vocês vão dizer que é montagem. Aliás, foi por isso que abri esse bloco de notas no celular enquanto estou no ônibus. Porque eu pensei "isso é tão bonito e imponente, precise tirar uma foto pra mostrar pros meus amigos. Mas olhando daqui, com meus olhos, parece uma colagem mal feita de photoshop, imagina com essa camerinha meia boca do meu celular".
Eu sei que uma imagem vale mais que mil palavras, portanto, eu descrevo aqui e você joga no Google Imagens pra ver se bate com o que imaginou.

Enquanto isso, o guia vai mostrando a nossa esquerda um site eleito patrimonio da humanidade pela Unesco, com rastros arqueológicos que mostram que já tinha gente vivendo aqui 12 mil anos atrás. Eu nem sei quanto tempo é isso.

Aliás, peço desculpas publicamente pela minha ignorância. Ontem, quando a gente estava do outro lado do canal, em Eliat, Israel, dava pra ver a Jordania, na estrada a caminho do Mar Morto e Forte de Massada. De um lado, Israel, montinhos, mais baixinhos, com verdadeiros tesouros geológicos, com formações que estão aqui desde que o planeta começou até mais recentes, de 200 e poucos anos, segundo o guia.
Do outro lado, a Jordânia com esse visual que te contei no começo. A explicação é o movimento das placas tectônicas. A que está do lado de Israel está se movendo pra baixo. A do lado da Jordânia, pra cima. E não é pouco. São 2,5cm por ano.

Tem essa incrível história natural da terra. Tem o fato geográfico/político/cultural de Israel e Jordânia estarem no meio do caminho entre Africa, Asia e Europa - o que faz com que todos os fatos importantes dos primórdios da civilização da nossa era tenham acontecido aqui. Tem o fato de ser terra sagrada. Moisés e Jesus Cristo passaram por aqui e os romanos também vieram invadir... E eu, meus amigos, não sei NADA sobre isso.

Não entendo de geologia, não conheço as tretas que por aqui rolaram e nunca li a Bíblia.

Mas tudo bem. Andar por aqui já abre uma janela e ouvir essas primeiras histórias já vai esclarecendo as coisas. Depois fica mais fácil de entender quando eu volta pro Brasil e comprar aquele livro chamado Breve história do mundo hahaha.

O que posso dizer por agora, do ponto de vista do turista aleatório é que é muito legal. Programe uma visita por aqui. Jordânia é mais pobre e feinha. Mas Israel é rica, limpa, organizada, moderna e tem uma estrutura muito legal para turistas. Sem falar no wifi onde quer que você esteja. O clima, no sentido de energia do lugar, é maravilhoso. É leve - apesar dos moleques novinhos circulando em todos os lugares portando fuzis. E, repito, os visuais são incríveis.

Ainda em Israel, a área de turismo na região do mar morto é, como diria meu tio Marcelo, "de cair o cu da bunda". Sem falar no fato de ser o lugar mais baixo da terra - acho que 450 metros abaixo do nível do mar - e uma experiência maravilhosa que é boiar até sem querer, por causa da alta concentração de sal, tem ainda a infra e beleza do lugar. Olha, quem avisa amigo é: visite Israel.

Eu estava conversando com um passageiro australiano e ele me disse que é a quarta vez que visita o país e que passou 14 dias viajando de ponta a ponta - e que é assim em todos os lugares. Seguro, organizado, com gente bacana que fala inglês. Uma bela experiência.

Mas se você está considerando a Jordânia, eu te digo que Petra é magnífica! É uma surpresa atrás da outra enquanto se caminha por lá. E pra quem gosta de história, é mais que um prato cheio. É um caldeirão, que começa 200 anos antes de Cristo e vai até pouco tempo atrás, quando o governo local tirou os beduínos de lá pra investir no turismo e patrimônio.

E tem também Omã! Na subida das Maldivas pro Mediterraneo, via Canal de Suez, paramos em Omã. Foi meu primeiro contato com o deserto daqui. Tinha camelo andando por todo lado e o céu era embassado por causa da areia. E, andando nesse visual, de repente, do nada, aparece um mar maravilhoso. Um azul único, com as montanhas ao fundo. Impressionante!
Salalah, a capital, também é super limpa, organizada e com cara de rica. Mas, aparentemente, tem muito mais espaço que gente. A distância entre as casas, os bairros e as cidades (estivemos em 3 num único dia) é muito grande. Não consegui decidir se achei legal ou estranho. Mas também acho que vale uma visita. É tão diferente de tudo que estamos acostumados no ocidente, que vira belíssimo.

Eu achava que estava preparada pra ver as novidades, mas essa passagem pelo mundo árabe maxeu demais comigo. Atiçou minha curiosidade, me deu vontade de ficar mais, entender melhor e me lembrou que existem muito mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.

Em breve chegaremos na Grécia. De lá, contarei mais. No mais, é o que já disseram e todo mundo já sabe:

Navegar é preciso.
Viver não é preciso.