domingo, 24 de fevereiro de 2019

Lord Ganesha - um sari

O Cruzeiro que estamos fazendo no momento (são 3 meses dele) passa pelo Sri Lanka, Male,  a capital das Maldivas e India (4 portos diferentes). Em todos os cruzeiros, basicamente,  metade dos passageiros é indiano,  bem como o lugar que mais passamos tempo é na Índia.  Por isso, numa das noites, o tema é Festa de Bollywood. Nessa noite,  todos são convidados a se vestir como uma estrela do cinema da índia. O diretor do cruzeiro pediu pra gente na loja entrar na onda e me descolou um sari. Ou,  como se escreve por aqui, saree.

Achei a ideia divertidíssima e o sari que ele me descolou, maravilhoso. Estava contando os minutos pra vestir a poderosa roupa.

E aí,  começou a saga.
Um sari é um pedaço de pano com aproximadamente 6 metros de comprimento.

Impossível vestir sozinha pela primeira vez.

Temos um gentil rapaz italiano que trabalha aqui que sabe  vestir as pessoas e foi ele que colocou o sari em mim.  Com uma agilidade tão impressionante,  que não deu tempo de eu entender pra aprender. Ele explicou que existem uns três tipos de dobras, um pra casamento, outro se vc for uma princesa e um terceiro,  comum,  que ele fez pra mim.

Sari pronto e começa o drama...

Na volta pra minha cabine, percebi que andar não seria tarefa fácil. Pra que ele fique bem preso, a gente veste uma legging por baixo e o elástico dela faz as vezes de cinto.
Comecei a dar passos mais curtos pra não desfazer o belo emaranhado que é a parte da frente da saia.
Três lances de escada. Já fui logo pisando na porra do sari e desfazendo o tal belo emaranhado. Enfiei de novo pra dentro do elástico e comecei a rezar.
Na minha cabine, fui fazer uma maquiagem indiana. Li na internet que o forte delas são os olhos. Peguei uns cílios postiços com uma amiga. Mas eu nunca tinha usado eles então,  coloquei do jeito que achei que devia. Foi lindo. Parecia que eu tinha,  literalmente,  duas camadas de cílio.  Tipo uma vesga mesmo colocando a traquitana.
 Quando o olho estava quase pronto,  achei que faltava uma sombra preta na lateral e pedi pra minha cabinmate fazer pra mim. Pra que ela pudesse enxergar bem meus olhos, sentei. Só que a gente mora numa cabine de navio 1x1. O único lugar com luz suficiente e que dá pra sentar, é na privada,  colada no chuveiro. Aí, metade do meu sari esfregou na água do chão do banho que eu havia tomado a pouco. Sari molhado, sombra perfeita - prum filme de terror - parecendo que eu tinha tomado uma porrada em cada olho.

Desci pra comer algo rápido antes de começar o trabalho e derrubei suco de maçã na parte de cima do sari.
Agora sim. Simetria perfeita. Sujo em cima e em baixo.

Fui fumar um cigarro digestivo quando encontrei Anju,  minha amiga hindu das mauritius islands. Ela disse: "quem fez essa merda? Não é assim que veste um sari" e revirou meu sari e me obrigou a colocar a barriga de fora. Minha barriga de 5 meses de gravidez  (não tô grávida,  gente. É banha mesmo. Super anti estético). Mas aí lembrei de todas as indianas que vejo por aqui e, aparentemente  barriga grande é tendência por lá (dizem até que é pra segurar o sari) então,  desencanei e botei a minha pro povo ver também.

Precisávamos correr pra tirar a foto do time e lá fui eu, pisando no sari mais um lance de escada acima. Chegando lá, ele já estava escorregando todo. Tive que AGACHAR pra foto. Quando fui levantar, caí.  Porque ou eu caía com o sari, ou ele caía sozinho e eu ficava semi-nua. Ele tava preso embaixo dos meus pés e enrolado nas minhas pernas. Depois de levantar com 4 metros de pano em mim e 2 na minha mão, pra solucionar o problema, resolvi enfiar tudo pra dentro da calça. Aí meu sari virou a calça do Nerso da Capitinga. Todo arreganhado e a legging aparecendo por baixo.

Chegando na loja, um indiano veio me dizer "você está muito linda com esse pano, mas esse estilo está mais pra sri lanka. Se me permite,  vou fazer ele virar um sari indiano" e lá vou eu denovo deixar outra pessoa mexer nele.
Eu nunca fui tão bulinada na vida igual naquele momento. Mas ele me jurou que ajeita o sari da esposa todos os dias e por isso ele sabe fazer. E pra dizer a verdade pra vocês,  ele estava com um olhar mais preocupado com o valor cultural da coisa do que com olhar de quem queria passar a mão em mim. Mas também,  se quisesse, qual o problema, né?  Deixa o homem aproveita as férias hahaha.

Aí ficou lindo. Só que cada vez que alguém vem comprar algo eu tenho que fazer um alongamento, por trás da mesa,  pra alcançar o produto.  E depois, um agachamento,  pra pegar a sacola.
Agora imagina um sari alongando e agachando.

E essa merda ia caindo. E ia ficando desconfortável.
E eu rezando pro relógio dar 23h pra acabar o trampo e eu tirar e esse caralho de pano.
E dava meia noite mas não dava 23h.
E as pessoas passando e falando que eu tava linda. E eu olhado o catso do relógio, sorrindo e dizendo "estou adorando estar indiana" e nada de 23h.
O cliente queria entrar no provador pra experimentar e comprar a roupa e eu lá dentro.  Tentando ajeitar o sari.
Acho que entrei 27 vezes no provador aquela noite.

22h58.  Fechamos as portas. Arranquei o sari.  Fiquei de legging e camiseta. Agradeci aos deuses,  pedi perdão e jurei que NUNCA MAIS NA MINHA VIDA eu uso um saree.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Minhas meninas

Eu divido cabine no navio. Eu vim decidida a gostar da pessoa que morasse comigo e me adaptar às loucuras dessa pessoa, afinal,  vamos dividir um cubículo por Deus sabe quantos meses. É uma pessoa que caga, ronca e se troca na sua frente como se fosse sua melhor amiga desde sempre. No meu caso, é ainda a pessoa que te faz ficar acordada quando você quer dormir, porque tem muita história pra contar. Quando cheguei,  tinha a italiana. Agora, a serva. Eu gosto muito das duas e as considero pessoas deveras interessantes. Vamos aos fatos:

A italiana, que morou comigo por 15 dias, saiu do navio após um ataque de nervos (literalmente). Mas nos 15 dias que vivemos juntas, nós nos divertimos muito e até choramos.  Quando ela tinha 6 anos, os pais dela decidiram mudar para os estados unidos e por lá ela viveu mais de 15 anos, ilegalmente, nos guetos da Califórnia. Ela brinca que é por isso que fala inglês com sotaque de mano. Também fala espanhol fluente e, obviamente, italiano. Ela é linda! Toda gostosona,  cabelo pintado de ruivo, adora ficar torrando no sol nas horas vagas e usa cílios postiços e salto alto pra ficar ainda mais poderosa.
Tem um dom. Cantar. Diz que a galera vai a loucura quando ela canta Amy Winehouse - eu não tive a chance de ver, só ouvi falar mesmo.
Ela é de peixes. E sem querer seguir estereótipos astrais, devo contar que ela adora beber. E bebe mesmo.  Uns bons vinho. E gosta de dançar e estava sofrendo por amor, porque teve um envolvimento com um homem safado dentro da navio que, por sua vez, era casado. Mas ela já carrega uma outra dor, de um cara com quem ela namorou sete anos,  mas acabou porque, definitivamente, eles não tinham os mesmos objetivos de vida. Uma pena, segundo ela. Ela também já foi aeromoça e, se voltar pro navio, talvez seja cantando.
Ela guarda umas mágoas, desconfia da bondade de todo mundo, tem umas invejas e uma boa dose de maldade no coração, mas ela também já fez Yoga e leu Osho e anda pra cima e pra baixo com a oração de São Francisco.
Na parede dela tinha um email que a mãe dela mandou, dizendo pra ela ser forte. E o pai dela joga cartas de tarot. Eu não lembro se ela tem irmãos. Foi o primeiro contrato dela. Acabou antes do combinado e ela se foi, aos 25 anos, com essa experiência maravilhosa. Eu dei um abraço bem forte nela e mesmo sabendo que ela não ia acreditar, falei a verdade pra ela - que ela vai estar pra sempre na minha memória,  porque me ajudou, me ensinou e foi a primeira impressão dessa nova e querida experiência da minha vida.

Cinco minutos depois da italiana sair, chegou a serva. Ela é quase da minha altura, a voz dela é mais grossa que a minha, ela é loira, magra, tem um cabelo muito louco, curto, raspado atrás,  despenteado de forma organizada na frente e dos lados, ela usa um óculos preto e fala rápido.  Muito rápido.  E muito. Às vezes, enquanto ela fala, eu fecho os olhos e respiro fundo, pra ver se a minha respiração alivia ela também,  porque a sensação que eu tenho é que qualquer hora ela vai ela explodir.
Ela tem 31 anos, está no quinto contrato, mas não tem idéia de quantos países ela já foi trabalhando embarcada. Na verdade,  ela veio trabalhar em navio porque quando está em casa, só faz pensar no ex-namorado.
Eles namoraram 4 anos. Ele é o cara mais perfeito que ela já conheceu.  Ser humano evoluído,  sabe? Nunca falou mal de ninguém em 4 anos! Ela traiu ele. Duas vezes.  E ela lembra de ter tido essa vontade de machucar ele de propósito, embora não saiba bem porque. Ele ficou sabendo e disse "tudo bem. Se vc me ama e quer ficar comigo, tá perdoada". Mas o problema é que ele teve câncer.  E morreu. Jovem. E agora ela não tem como resolver essa culpa.  Ela cuidou dele até o fim e embora quase quatro anos já tenham se passado, é difícil se relacionar com outros homens. E se eles morrerem? E se ela fizer algo errado de novo?
Antes de vir pra esse navio, a mãe dela disse "filha, por favor, transe". A mãe dela é viúva. O pai dela morreu dois anos antes do namorado.  Mas são dores diferentes.  Segundo ela, o pai é de se esperar. É da natureza. Mas o namorado não podia.
Ela nasceu na Iugoslavia. Agora a mãe dela é croata e ela é os dois irmãos mais velhos,  sérvios. Os sobrinhos também.  Ela tem dois. São uma família unida e querida.
Ela é especialista na nossa empresa. Sabe tudo de produtos de beleza e ganha muito bem por isso.
Ela tem uma curiosidade real pelas pessoas. Ela encosta nos clientes e nos colegas,  faz perguntas olhando no olho e está sempre rindo. É uma presença agradável. Eu durmo,  acordo e trabalho com ela. Mas na nossa hora de break, a gente vai junto comer pra poder conversar mais. Eu gosto das piadas dela e sugo a experiência dela, que ela não tem problema nenhum em compartilhar.
Ela é inteligente,  lê muito, discute política e o objetivo de vida dela é salvar o mundo. Em breve ela vai estudar psicologia e atender as pessoas de graça.  Ainda não sabe como,  mas vai. Amém.