domingo, 29 de março de 2020

Para Larisse

Eu conheci a Larisse em 1988 ou1989, não lembro. Não importa.
Ela era mais alta que eu. A única pessoa que conheci na vida que era mais alta que eu. Na primeira série ela me carregava de cavalinho.
Logo chegou 1991 e ela foi ficando cada vez mais pra frente na fila e eu, cada vez mais pra trás. É porque ela ficou menstruada com 11 anos (ou 10, ou 9. Cedo!) eu, só aos 14.
Só de sacanagem ela me obrigava a carregar ela de cavalinho, tipo dívida.
Ela adorava comprar uma briga. Eu era briguenta, mas a Larisse, meu Deus, como brigava. E eu lá, sempre dado retaguarda. Obviamente ela nunca precisou que eu defendesse ela, mas eu estava lá just in case. Ela descia o cacete na galera mesmo. Batia, de porrada. Eu ia depois e falava alguma coisa bem ofensiva, pra machucar a alma, tipo o cuspe final, sabe?
E se fosse o contrário, se eu começasse a briga, adivinha quem tava fazendo minha retaguarda?

Na época eu não sabia que era assim que nascia amor. Na época, eu não sabia o que era assim que se construía companheirismo para depois e além. Não fazia ideia de quão seguro é ter uma amiga de verdade. Na época eu não entendia que era óbvio que dali sairia uma advogada. Na época eu não estudava astrologia e, apesar de saber que ela era 9 dias mais velha (e vivia exigindo respeito por isso), eu não sabia que esse padrão de reconhecimento - quase selvagem - entre sagitarianos era tão claro.

Nós éramos ótimas alunas. As melhores, modéstia às favas. Mas a gente era muito ruim em  matemática. A gente fazia aula particular junto, a tarde, quando chegava a recuperação, e disputava quem resolvia os problemas primeiro e quem ia tirar a nota mais alta na prova. E brilhava, e passava de ano.

A Larisse é uma das minhas amigas mais inteligentes e nossa disputa sempre foi quem era mais inteligente. A gente nunca disputou homem, atenção de amiga e essas bobagens femininas, mas a gente estava o tempo todo se provocando intelectualmente. E nunca foi doloroso. Sempre foi extremamente prazeroso e sempre cheio de amor. E eu também nunca tinha pensado nisso.

Quando chegou a hora de entrar no colegial, nós decidimos que seria perda de tempo fazer o normal e muito mais legal estudar à tarde ou a noite. Eu optei por técnico em publicidade e ela, por técnico em processamento de dados.

Eu fiz intervalos de aula com a Larisse da primeira série ao terceiro colegial. Toda a minha vida escolar.

Ela foi estudar direito e eu, jornalismo, o que, anos depois, fez nossos debates intelectuais evoluírem e muito. Era pra gente perder o contato, mas eu fazia teatro na porta da loja do pai dela, onde ela trabalhava. De tempos em tempos, no intervalo, a gente se encontrava e sentava pra cerveja. E falava de festas e de homens. E dos perrengues financeiros. A Larisse sempre foi uma das mais ricas da turma na nossa infância. Morava numa casa enorme, os pais dela viviam dando festas e comidas gostosas pra gente. Mas depois que a gente ficou adulta, as coisas ficaram um pouco mais difíceis.

Aí chegou 2001 e eu fui embora. Fui pra Minas Gerais. Ela ficou aqui.

Quando a gente era pequena, tinha uma piada que a Larisse era protegida porque ela podia ir ao banheiro a hora que ela quisesse, já que ela tinha nascido com só um rim, portanto, fazer xixi na hora certa era fundamental. Uma vez, na oitava série, eu tava apertada pra fazer xixi e a professora MALA de português não queria deixar eu ir. Falei pra Larisse que não dava mais pra segurar. A Larisse olhou pra mim e disse: levanta e vai, não foda com seu rim.

Levantei e fui. Com a retaguarda de sempre. E obviamente não aconteceu nada. Foi nesse dia que aprendi a desrespeitar algumas regras. Graças a Deus. Isso fez toda diferença na minha vida e na liberdade de vivê-la.

Não sei se era 2012 ou 2013, um dia, não sei porque, vi uma foto da Larisse na internet. Ela não era afeita à redes sociais e a gente nem se falava. A gente se deixou mesmo, mas, repito, estar perto, definitivamente, não era uma das cobranças da nossa amizade. Mas aí vi essa foto em que Larisse estava muito gorda. Mas não me parecia que ela tinha simplesmente comido muito. tinha algo errado ali. Entrei e contato e já fui logo perguntando o que estava acontecendo.

Ela estava com problemas no rim. O único rim dela resolveu parar de funcionar. Corticoide era o inimigo. Fui até a casa dela. O pai dela tava lá, velhinho, mas firme e forte. Os pais da Larisse amam muito ela. É um carinho e uma doação desses que a gente vê em poucas famílias.

Sentei com ela no quarto dela. Ela me mostrou como fazia diálise em casa, enquanto trabalhava com os casos dos clientes dela para sustentar o pessoal - porque a essa altura ela era a única força de trabalho da família -, e aí ela me contou tudo. Tudo que a gente não viveu juntas em uma década inteira de nossas vidas.

Ela me contou dos perrengues e das diversões da época da faculdade. Ela adora essa época. Apesar de ter tido que pular portão pra assistir aula, porque tava devendo a mensalidade, a parte que ela gosta mesmo é dos botecos com as cervejas que as boas amigas pagavam e os gatinhos que passavam por lá. Eu queria ser uma dessas pessoas atenciosas que guarda o nome das pessoas para poder falar agora o nome dessa amiga que ela tanto gosta, da faculdade, que ela sempre fala bem. Mas isso nunca foi importante pra mim - o nome da moça - importante pra mim é só mesmo o amor que sai da boca dela quando ela fala dessa pessoa que fez bem pra ela. Eu gosto tanto dessa menina! E nem sei o nome!

Aí eu fui visitá-la algumas vezes, quando vinha a São Paulo. Ela foi no meu aniversário, em 2013, mesmo com toda dificuldade para andar. Eu fiz um mapa astral pra ela lá no Personare, imprimi e levei pra ela. Pra ela entender melhor a energia dela, de sagitário com ascendente em áries - uma explosão de vida, justiça e sabedoria - o que prova que sendo advogada, Larisse cumpriu exatamente o caminho que lhe estava predestinado.

Depois a gente se afastou de novo. Não sei porque. Aí o pai dela morreu, não entendi muito bem a dor no momento. Fui pra Austrália e ficamos anos sem nos falar, novamente. Quando voltei, liguei pra ela. Era outra pessoa. Estava magra de novo, bonita de novo, de rim novo! Conseguiu o transplante.

Quando a gente era pequena, a Larisse era muito emburrada. Mas ela tinha aquele jeito bem espalhafotoso de rir que não mudou NADA."HÁ", bem alto. Só um HÁ. Mas depois de passar por tanto perrengue na vida, por algum motivo, o sorriso dela ficou mais solto e mais fácil. Ela estava sempre sorrindo. SEMPRE.

Engraçado que a Larisse votou no Bolsonaro e fala umas merda nada a ver, que me dá vontade de bater na cara dela, tipo tirar os livros de educação sexual das escolas porque isso é perversão. Nunca entendi a ligação entre esse tipo de ponto de vista e toda a inteligência dela. Mas, por algum motivo que eu JAMAIS vou entender, nunca senti um pingo de raiva dela por ser Bolsominion. E olha que ser Bolsominiom é um negócio que me irrita real, de desfazer amizade. E quantas horas a gente passou discutindo política? Que outra amiga eu tenho que vai discutir política comigo? Por horas?

Como se nos conhecêssemos desde sempre, ela me botou de volta na vida dela. A vida da Larisse é ir ao escritório e atender clientes de muitos tipos, inclusive alguns que dependem unicamente do conhecimento dela, que não sabem seus direitos e não tem outra opção a não ser confiar 100% nela e é óbvio que a Larisse nunca sacaneou nenhum deles.

Do escritório, passear com os sobrinhos, dar conta da vida do irmão e da cunhada, fazer tudo pelos sobrinhos, andar com a maravilhosa mãe, dona Dirce, a tira colo quase sempre, gastar tudo que tem com os sobrinhos, pegar um remédio aqui, fazer uma consulta ali, já mencionei os sobrinhos? Até no forum eu fui com ela.

E a louca, que faz tratamento em São Paulo e tem muitos clientes aqui e quer morar lá no Paraná. Ela nunca disse, mas eu tenho quase certeza que ela faz isso de propósito, pra poder viajar. Se movimentar. Cada vez que coincide de eu estar em São Paulo e ela chegar, ela me liga e eu vou lá buscar ela na rodoviária porque, apesar de as coisas estarem mais fáceis, a saúde ainda é frágil, ainda é difícil carregar mala pesada e subir a ladeira e a louca não para de fumar hahah.

A Larisse é a única pessoa no mundo que me faz acordar cedo sem razão. Porque eu sei que a hora que eu encontrar ela, as 7 da manhã, a gente vai dar tanta risada e se divertir trocando causos. É tão legal!  A conversa é tão fluída e interessante e divertida e curiosa.
Gente! Eu nunca tinha pensado como era legal. Era apenas natural! Que loucura, né? Essas pessoas que estão na nossa vida desde sempre com tanta sintonia.

Falamos também de um pouco de busca do retorno da auto estima, o que não é difícil pra Larisse que é muito segura de si e que sabe o que tem ou não importância na vida, já que a sua tá sempre por um triz e ela está sempre vivendo com toda força e esperança... Gratidão também faz parte do dia a dia. A Larisse nunca prega nada. Ela devia esfregar na cara da sociedade coisas como:
- Você tá reclamando por quê?
- Gratidão
- Nada é tão difícil
- Bota o sorriso na cara e vai

Mas não. Ela nunca se gabou disso. Nunca me disse que se acha mais especial por ser assim. E nunca reclamou. NUNCA me disse: ai que saco, cansei. E toma 10 remédios sem água hahaha. E faz piada disso hahaha. A única coisa que incomoda um pouco é a falta do pai. Disso ela reclama, que levaram o pai dela.

Tô pensando aqui também, agora, qual era a reação dela cada vez que eu falava uma loucura do tipo: vou mudar de profissão, vou mudar de país, vou mudar de cidade, vou me enfiar num navio pra trabalhar. Ela nunca me deu um conselho. Só assim, naquela paz de espírito: "haha, vai amiga".



A gente combinou de ir pra Disney depois que o rim chegasse. Mas como tinha que fazer umas manutenções e esperar um pouco mais de estabilidade, a gente foi deixando pra depois. Temos a vida toda, né? O pior já passou.

Mas pessoas assim, não são obrigadas a aguentar essa vida e essa Terra. Elas vem, ensinam o que tem pra ensinar, fazem o que tem pra fazer e vão embora. E, agora, na hora que estou acabando esse texto, 13h55, está pra começar o velório dela, que será às 14h. Ela morreu ontem, no dia do aniversário do pai dela.

Eu não tenho como ir. Eu tô com o pé quebrado, nós estamos no meio do Corona e alguns outros empecilhos.

Eu tô com muito medo que ela vai ficar puta comigo.

Você não tem noção da Larisse puta. Dá muito medo.

Eu não sei se Deus existe, se o pai dela tá com saudade dela e chamou ela, se no fundo ela tava de saco cheio, se tem motivo pras coisas acontecerem, se tem outra vida, se ela tá lá no alto me olhando e falando: ô fi da puta, levanta e vai lá no meu velório se não eu dou na tua cara HÁ.

Mas minha outra amiga amada me disse que tudo bem. Que no outro plano não importa quem foi no velório e sim que a amou. E que no horário do veório começar, é pra eu fazer uma oração pra ela, conversar com ela e desejar o melhor pra ela.

Larisse, está começando agora a sua despedida. E aqui está minha oração.

Obrigada por ter vindo.




P.s - um dia, ela falou assim pra mim: eu nao me importo de estar sem transar, beber ou curtir loucamente. Gracas a deus eu fiz absolutamente tudo que eu queria antes de ficar doente. ❤

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Um post para mim, não para você. Sobre amar BH radicalmente

Provavelmente, todo mundo que lê esse blog já sabe que eu quebrei o pé. Foram três fraturas nas três bases do tornozelo. Inclui 45 dias sem colocar o pé no chão e 3 meses e meio de fisioterapia, andando de muleta, antes de voltar a caminhar com minhas próprias pernas.
O que é um verdadeiro castigo maior para alguém que, como eu, só sabe andar por aí.

Tenho a impressão de que só posso ser feliz andando por aí.

Não sei se é mero acaso, se é lição, se é castigo, se a vida e o universo tem um plano maior pra mim. (Na verdade, depois que assisti One Strange Rock no Netflix ficou muito difícil acreditar em qualquer coisa que não seja o fato de sermos uma mera sucessão de coincidências biológicas). Mas, enfim, estou aberta a sugestões. Se você acha que isso tem um porquê, fique à vontade para me dar sua opinião. Foi a perna direita, caso você analise causas psicossomáticas.

Hoje foi o décimo quinto dia que eu acordei sem muitas opções do que fazer. Eu poderia assistir filmes, documentários que tanto amo, ler livros, BBB 24 horas no Globoplay, jogar Candy Crush, meu vício de anos, ou continuar simplesmente fazendo o que mais tenho feito, que é ficar rodando entre Facebook, Instagram e email, sem prestar muita atenção em nada. Não tá rolando de prestar muita atenção em nada porque, em prol de uma mais rápida recuperação, eu decidi não fumar até voltar a andar e 15 dias de abstinência é um negócio de deixar qualquer um louco. (Incluindo minha santa mãe que, coitada, - e ainda bem - está cuidando de mim de novo como se eu fosse um bebê).

Mas tem uma coisa que eu ando pensando MUITO. Que vem na minha cabeça todo dia, que é Minas Gerais.
Gente. Como eu amo Minas Gerais.
Cada cidadezinha que eu fui. Eu não tenho como contar cada município visitado. Em Minas Gerais as pessoas te levam pra conhecer a cidade que elas nasceram. Então, só em cidade de amigo, já dava pra perder as contas. Mas tem também as viagens para o nordeste e para o sudeste, em que se para, se come, se dorme numa ou outra cidade. E tem o trabalho de conscientização de Pare, Olhe, Escute que eu fiz no trem da Vale, que a gente parou em todas as cidades que o trem passa, de BH até Vitória. Meu Deus, que presente foi esse que a vida me deu. Além de viajar com pessoas maravilhosas, estar em lugares incríveis, conhecer culturas tão, tão, tão distantes, ainda conseguimos fazer um trabalho de impacto que diminuiu muito e por muito tempo os acidentes nas ferrovias.

Tem os festivais. De inverno, de jazz, da loucura, do café... Os carnavais. Os fins de semana em Pompéu. Aquele fim de semana divertidíssimo em Corinto. Os almoços em Macacos e Ouro Preto. Senhoras e senhores brasileiros, morar tão próximo de um dos pontos mais importantes da história do Brasil é um privilégio inenarrável.
As viagens para fazer os trampos malucos do Helinho, explorando Minas com direito à festa de Congado. Cachoeiras e mais cachoeiras, cada pedaço de serrado, de pedra, de ferro, na calçada e nas almas.... gente, uma vez fui fazer pesquisa de opinião de voto em Itabira com estudantes de sociologia da UFMG. E as calouradas da PUC, com show de Manitu, de Sideral e outras atrações que só a minha geração viveu em BH. Porque eu sou sim uma geração de BH e ai de quem disser o contrário. Eu posso não ser mineira de fato mas eu sou sim mineira, por direito adquirido.
E aquele show do Tianastácia no estacionamento do Minas Shopping? Ou o Paul McCartney no Mineirão? Ou o Galo ganhando no Mineirão? Ou o cruzeiro perdendo no Independência? (não me julguem mal pelos resultados. Eu sei cantar o hino do galo e do cruzeiro. O América não sei se tem hino. Tem?)

Eu não sei que tipo de mineiro você é, mas eu sou mineira do tipo que já trabalhou  de repórter no jornal Estado de Minas sentando ao lado de Carlos Herculano Lopes. Eu não sei que tipo de belo-horizontino você é, mas eu sou aquela que passou anos sugerindo rota alternativa no trânsito na hora do rush, na emissora de rádio mais ouvida porque eu conheço cada esquina daquela cidade e sei andar por lá sem GPS. Incluindo Betim e Contagem.

Eu conheço cada praça de BH. E já fui em um show em cada. Eu já mapeei todos os centros culturais da cidade e fui em cada um deles. E já entrevistei a Regina Spósito, o Mauricio Tizumba, o Sérgio Pererê - o Wagner Tiso nunca quis me dar entrevista. O Lô Borges, já trabalhei em projeto paralelo de integrante do Skank. Cada vez que uma obra nova chegava ao Inhotim eu ia lá conversar com um artista plástico mais louco que o outro. Mas loucos mesmo eram os músicos da 'nova geração' de BH, que são pessoas de uma luz, um amor e uma criatividade imensa, com quem eu tive o imenso prazer de conversar por anos. Tipo a Grace Passô e o Grupo Galpão, que acompanhei tantas vezes, em BH e em festivais pelo Brasil. No teatro ou na Praça do Papa lotaaaada. No pôr-do-sol.

Praça que a gente fumou maconha até a polícia pegar a gente, namorou dentro do carro até quase ser assaltado, começou e terminou relações de amor. Uma vez a gente viu até asteróide invadindo a Terra, embora a gente não tenha muita certeza porque, apesar de sermos mais de 4 vendo aquilo, a gente tava meio louco. Onde a gente deitava na grama pra filosofar sobre a vida ou ver os moleques soltando pipa - que em BH se chama papagaio.

Eu fui num sítio, perto de Guanhães, que não tinha energia elétrica, nem TV. Nem privada. O pessoal fazia cocô na fossa. E doce de leite no tacho! E queijo na própria cozinha.
E lá em BH tem a Pãodequeijaria que tem o melhor pão de queijo da história do homem na terra. Bem melhor que o pão de queijo que meu namorado fazia. Hahaha. Eu tive um namorado mineiro que fazia pão de queijo. hahaha E que falava trem. E sô.

E que, como todos os meus namorados mineiros, era um verdadeiro intelectual. Porque mineiro é inteligente pra caramba. Minhas rodas de amigos sempre tiveram professores, petistas, poetas, militantes, feministas, músicos, preto, branco, amarelo, roxo, pobre, rico, L, G, B, T, Q, todo mundo me fazendo decorar letras do clube da esquina (e ouvir o terço, que nem mineira é, mas tem o Flavio Venturini e depois 14 bis) tomando uma no Malleta, onde tem os sebos que eu ia buscar os livros que comprava na estante virtual, pra depois tomar um café no Kahlua e passar na extinta livraria do Sr Van Damme e, por isso, meu Deus, que tristeza. E ali a gente vivia nessa de subir Bahia e descer Floresta que, todo bom mineiro sabe, é o contrário, tem que subir da Floresta pra depois subir a Bahia.

E a Floresta! Quem mora numa cidade que tem um bairro como o Floresta não precisa de mais nada nessa vida. Tô aqui quebrando a cabeça para lembrar o que a gente fazia antes ali no espaço onde agora é a maravilhosa Funarte, que fica ali, bem na metade do caminho entre Palácio das Artes e Teatro Alterosa, onde a gente ia pelas últimas vezes antes do fim da Revista Ragga que, pelo menos pra gente que estava envolvido naquilo, foi uma mini revolução e, para mim, a maior e melhor escola de todas. Pelas pessoas com quem convivi - todas, sem exceção - naquela empresa e pelas chances que me deram, de abrir a cabeça como nunca antes.

Saudade das minhas eternas amigas para a vida inteira de BH, que enchem a cara, sentam no boteco copo sujo, saem pra se esbaldar no festival de comida di buteco - pra quem já fiz assessoria de imprensa - falam de qualquer assunto, estão lá por você a qualquer hora por qualquer motivo. Minhas amigas de viagem, de confissões, de rock´n roll, de samba, de café, de projetos profissionais...

Saudade da Praça da Liberdade quando era sede do governo, e de querer matar o Aécio quando mandou fazer a cidade administrativa e saudade de visitar, visitar, visitar e não cansar de ir ao Memorial Minas Gerais que a Vale, (Vale) que eu odeio, colocou lá (o memorial) e que eu amo, só pra ver aquele paletó bordado "Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo".

Eu sempre soube que eu precisava morar em Minas Gerais. Eu acho que brasileiro preciso morar em Minas Gerais. E no Pernambuco, pra entender o Brasil e as brasilidades. (Não me leve a mal, entendo, respeito e aprecio todos os outros estados, tenho até uma tatuagem dum Muiraquitã que fiz depois de visitar e me apaixonar pelo Amazonas).

Eu agradeço a vida ter me carregado pra Minas quanto eu tinha 19 anos. E me desculpo por ter saído aos 34.

Eu já fui lá no Pernambuco morar um cadin em Fernando de Noronha. Mas explorar a ilha, se aprofundar nas histórias e cultura de lá e conhecer todo mundo e todos os causos demanda pouco tempo. É um lugar muito único e específico. Noronha é mais Noronha do que Pernambuco.

Mas Pernambuco é só um nome na minha lista. O que eu quero é um novo amor. Um novo lugar para explorar. Atenta, longa, detalhada e profundamente.
Trabalhar num navio é legal. Acordar na Itália, dormir e acordar na França, dormir e acordar na Espanha é legal. Mas é raso.

Mas nem sei porque estou falando isso. Não sei qual é a lógica do começo ou do fim desse texto. O que importa é o meio.
Eu queria mesmo era falar de Minas Gerais.

Tá falado.
"Isso quer dizer amor. É estrada de fazer o sonho acontecer."

 P.S - Minha experiência em BH ficou meio centro-sul, né? Mas depois me chama no privado que eu falo dos babados no Barreiro, Santa Amélia, Boa Vista, Sabará, Vespasiano e Santa Luzia.