sábado, 8 de fevereiro de 2020

Um post para mim, não para você. Sobre amar BH radicalmente

Provavelmente, todo mundo que lê esse blog já sabe que eu quebrei o pé. Foram três fraturas nas três bases do tornozelo. Inclui 45 dias sem colocar o pé no chão e 3 meses e meio de fisioterapia, andando de muleta, antes de voltar a caminhar com minhas próprias pernas.
O que é um verdadeiro castigo maior para alguém que, como eu, só sabe andar por aí.

Tenho a impressão de que só posso ser feliz andando por aí.

Não sei se é mero acaso, se é lição, se é castigo, se a vida e o universo tem um plano maior pra mim. (Na verdade, depois que assisti One Strange Rock no Netflix ficou muito difícil acreditar em qualquer coisa que não seja o fato de sermos uma mera sucessão de coincidências biológicas). Mas, enfim, estou aberta a sugestões. Se você acha que isso tem um porquê, fique à vontade para me dar sua opinião. Foi a perna direita, caso você analise causas psicossomáticas.

Hoje foi o décimo quinto dia que eu acordei sem muitas opções do que fazer. Eu poderia assistir filmes, documentários que tanto amo, ler livros, BBB 24 horas no Globoplay, jogar Candy Crush, meu vício de anos, ou continuar simplesmente fazendo o que mais tenho feito, que é ficar rodando entre Facebook, Instagram e email, sem prestar muita atenção em nada. Não tá rolando de prestar muita atenção em nada porque, em prol de uma mais rápida recuperação, eu decidi não fumar até voltar a andar e 15 dias de abstinência é um negócio de deixar qualquer um louco. (Incluindo minha santa mãe que, coitada, - e ainda bem - está cuidando de mim de novo como se eu fosse um bebê).

Mas tem uma coisa que eu ando pensando MUITO. Que vem na minha cabeça todo dia, que é Minas Gerais.
Gente. Como eu amo Minas Gerais.
Cada cidadezinha que eu fui. Eu não tenho como contar cada município visitado. Em Minas Gerais as pessoas te levam pra conhecer a cidade que elas nasceram. Então, só em cidade de amigo, já dava pra perder as contas. Mas tem também as viagens para o nordeste e para o sudeste, em que se para, se come, se dorme numa ou outra cidade. E tem o trabalho de conscientização de Pare, Olhe, Escute que eu fiz no trem da Vale, que a gente parou em todas as cidades que o trem passa, de BH até Vitória. Meu Deus, que presente foi esse que a vida me deu. Além de viajar com pessoas maravilhosas, estar em lugares incríveis, conhecer culturas tão, tão, tão distantes, ainda conseguimos fazer um trabalho de impacto que diminuiu muito e por muito tempo os acidentes nas ferrovias.

Tem os festivais. De inverno, de jazz, da loucura, do café... Os carnavais. Os fins de semana em Pompéu. Aquele fim de semana divertidíssimo em Corinto. Os almoços em Macacos e Ouro Preto. Senhoras e senhores brasileiros, morar tão próximo de um dos pontos mais importantes da história do Brasil é um privilégio inenarrável.
As viagens para fazer os trampos malucos do Helinho, explorando Minas com direito à festa de Congado. Cachoeiras e mais cachoeiras, cada pedaço de serrado, de pedra, de ferro, na calçada e nas almas.... gente, uma vez fui fazer pesquisa de opinião de voto em Itabira com estudantes de sociologia da UFMG. E as calouradas da PUC, com show de Manitu, de Sideral e outras atrações que só a minha geração viveu em BH. Porque eu sou sim uma geração de BH e ai de quem disser o contrário. Eu posso não ser mineira de fato mas eu sou sim mineira, por direito adquirido.
E aquele show do Tianastácia no estacionamento do Minas Shopping? Ou o Paul McCartney no Mineirão? Ou o Galo ganhando no Mineirão? Ou o cruzeiro perdendo no Independência? (não me julguem mal pelos resultados. Eu sei cantar o hino do galo e do cruzeiro. O América não sei se tem hino. Tem?)

Eu não sei que tipo de mineiro você é, mas eu sou mineira do tipo que já trabalhou  de repórter no jornal Estado de Minas sentando ao lado de Carlos Herculano Lopes. Eu não sei que tipo de belo-horizontino você é, mas eu sou aquela que passou anos sugerindo rota alternativa no trânsito na hora do rush, na emissora de rádio mais ouvida porque eu conheço cada esquina daquela cidade e sei andar por lá sem GPS. Incluindo Betim e Contagem.

Eu conheço cada praça de BH. E já fui em um show em cada. Eu já mapeei todos os centros culturais da cidade e fui em cada um deles. E já entrevistei a Regina Spósito, o Mauricio Tizumba, o Sérgio Pererê - o Wagner Tiso nunca quis me dar entrevista. O Lô Borges, já trabalhei em projeto paralelo de integrante do Skank. Cada vez que uma obra nova chegava ao Inhotim eu ia lá conversar com um artista plástico mais louco que o outro. Mas loucos mesmo eram os músicos da 'nova geração' de BH, que são pessoas de uma luz, um amor e uma criatividade imensa, com quem eu tive o imenso prazer de conversar por anos. Tipo a Grace Passô e o Grupo Galpão, que acompanhei tantas vezes, em BH e em festivais pelo Brasil. No teatro ou na Praça do Papa lotaaaada. No pôr-do-sol.

Praça que a gente fumou maconha até a polícia pegar a gente, namorou dentro do carro até quase ser assaltado, começou e terminou relações de amor. Uma vez a gente viu até asteróide invadindo a Terra, embora a gente não tenha muita certeza porque, apesar de sermos mais de 4 vendo aquilo, a gente tava meio louco. Onde a gente deitava na grama pra filosofar sobre a vida ou ver os moleques soltando pipa - que em BH se chama papagaio.

Eu fui num sítio, perto de Guanhães, que não tinha energia elétrica, nem TV. Nem privada. O pessoal fazia cocô na fossa. E doce de leite no tacho! E queijo na própria cozinha.
E lá em BH tem a Pãodequeijaria que tem o melhor pão de queijo da história do homem na terra. Bem melhor que o pão de queijo que meu namorado fazia. Hahaha. Eu tive um namorado mineiro que fazia pão de queijo. hahaha E que falava trem. E sô.

E que, como todos os meus namorados mineiros, era um verdadeiro intelectual. Porque mineiro é inteligente pra caramba. Minhas rodas de amigos sempre tiveram professores, petistas, poetas, militantes, feministas, músicos, preto, branco, amarelo, roxo, pobre, rico, L, G, B, T, Q, todo mundo me fazendo decorar letras do clube da esquina (e ouvir o terço, que nem mineira é, mas tem o Flavio Venturini e depois 14 bis) tomando uma no Malleta, onde tem os sebos que eu ia buscar os livros que comprava na estante virtual, pra depois tomar um café no Kahlua e passar na extinta livraria do Sr Van Damme e, por isso, meu Deus, que tristeza. E ali a gente vivia nessa de subir Bahia e descer Floresta que, todo bom mineiro sabe, é o contrário, tem que subir da Floresta pra depois subir a Bahia.

E a Floresta! Quem mora numa cidade que tem um bairro como o Floresta não precisa de mais nada nessa vida. Tô aqui quebrando a cabeça para lembrar o que a gente fazia antes ali no espaço onde agora é a maravilhosa Funarte, que fica ali, bem na metade do caminho entre Palácio das Artes e Teatro Alterosa, onde a gente ia pelas últimas vezes antes do fim da Revista Ragga que, pelo menos pra gente que estava envolvido naquilo, foi uma mini revolução e, para mim, a maior e melhor escola de todas. Pelas pessoas com quem convivi - todas, sem exceção - naquela empresa e pelas chances que me deram, de abrir a cabeça como nunca antes.

Saudade das minhas eternas amigas para a vida inteira de BH, que enchem a cara, sentam no boteco copo sujo, saem pra se esbaldar no festival de comida di buteco - pra quem já fiz assessoria de imprensa - falam de qualquer assunto, estão lá por você a qualquer hora por qualquer motivo. Minhas amigas de viagem, de confissões, de rock´n roll, de samba, de café, de projetos profissionais...

Saudade da Praça da Liberdade quando era sede do governo, e de querer matar o Aécio quando mandou fazer a cidade administrativa e saudade de visitar, visitar, visitar e não cansar de ir ao Memorial Minas Gerais que a Vale, (Vale) que eu odeio, colocou lá (o memorial) e que eu amo, só pra ver aquele paletó bordado "Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo".

Eu sempre soube que eu precisava morar em Minas Gerais. Eu acho que brasileiro preciso morar em Minas Gerais. E no Pernambuco, pra entender o Brasil e as brasilidades. (Não me leve a mal, entendo, respeito e aprecio todos os outros estados, tenho até uma tatuagem dum Muiraquitã que fiz depois de visitar e me apaixonar pelo Amazonas).

Eu agradeço a vida ter me carregado pra Minas quanto eu tinha 19 anos. E me desculpo por ter saído aos 34.

Eu já fui lá no Pernambuco morar um cadin em Fernando de Noronha. Mas explorar a ilha, se aprofundar nas histórias e cultura de lá e conhecer todo mundo e todos os causos demanda pouco tempo. É um lugar muito único e específico. Noronha é mais Noronha do que Pernambuco.

Mas Pernambuco é só um nome na minha lista. O que eu quero é um novo amor. Um novo lugar para explorar. Atenta, longa, detalhada e profundamente.
Trabalhar num navio é legal. Acordar na Itália, dormir e acordar na França, dormir e acordar na Espanha é legal. Mas é raso.

Mas nem sei porque estou falando isso. Não sei qual é a lógica do começo ou do fim desse texto. O que importa é o meio.
Eu queria mesmo era falar de Minas Gerais.

Tá falado.
"Isso quer dizer amor. É estrada de fazer o sonho acontecer."

 P.S - Minha experiência em BH ficou meio centro-sul, né? Mas depois me chama no privado que eu falo dos babados no Barreiro, Santa Amélia, Boa Vista, Sabará, Vespasiano e Santa Luzia.












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