domingo, 22 de dezembro de 2019

Se a canoa não virar...

Estava eu, linda e plena (e estafada depois de hooooras em pé, vendendo, quando saí para o intervalo do almoço.

Fui toda feliz ver o mar e fumar meu cigarro e, como de costume, abrir o cruise map para ver em que altura estávamos navegando. Mais ou menos palhoça. Lugar de águas frias e mar agitado.

Peguei o elevador, desci e, quase chegando ao deck 0 - lugar de máquinas e de toda a estrutura do navio, reservado apenas aos tripulantes - comecei a ouvir um alarme.

Antes eu tinha medo de alarmes aqui dentro. Agora já sei que qualquer máquina desajustada soa alarme.

Quando saí do elevador, MUITA fumaça. Os sprinklers estavam acionados então, o chão estava úmido e escorregadio. A sensação física era de que eu estava numa sauna. Passou um oficial correndo e suando. Depois um segurança atordoado. O alarme vinha da area de lixo, de onde também vinha a fumaça.

Outra desavisada no caminho me perguntou o que estava acontecendo. Não sei. A porta anti-fogo na minha frente estava fechada. Pensei por alguns segundos se abria e passava por ela ou buscava uma rota alternativa. Um outro rapaz, carregando a comida dos tripulantes, agiu como se nada estivesse acontecendo e passou pela porta. Passei eu também.

Depois da porta, nem fumaça, nem sprinkler. Mas um monte de gente mega agitada e curiosa. E, talvez, assustada.

Quando temos um incêndio no navio, existe um aviso oficial, no alto falante do navio todo, com uma frase específica que só nós sabemos o que significa. Como esse aviso não foi dado, imaginei que estivesse tudo sob controle.

Mantive a calma, peguei meu prato, enchi de salada e comi. Quando a salada acabou, aí então veio o tal aviso.

Eu já estive em um princípio de incêndio no outro navio. Porém, estávamos aportados e o capitão avisou assim que a emergência acabou.

Dessa vez, em vez de avisar que acabou, ele lançou o aviso mais uma vez. Comecei a sentir um mini pânico. Decidi comer mais. Se eu tiver que evacuar o navio e ficar a deriva, prefiro que seja de barriga cheia.

Terminei de comer. Os curiosos ainda estavam lá. Ainda cheirava queimado. Ainda havia fumaça e nada de ouvir o aviso de is OVER.

Minha perna amoleceu, senti meu sangue frio. Fui pra minha cabine e separei o material necessario para uma emergencia: Colete salva vidas, boné de crew pros passageiros nos verem e uma roupa quente. Por via das dúvidas, enfiei dois maços extras de cigarro no bolso.

Meu break acabou. A area quente ainda estava bloqueada. O time de primeiros socorros ainda estava a postos. Uma hora. Foi uma hora tentando controlar o incêndio. Eu tinha certeza que era agora. Quase conectei na internet pra avisar meus pais que ia fugir de um navio em chamas em alto mar e pedir pra minha mãe rezar.

Mas a internet estava fora do ar.

Voltei pra loja e expliquei pra minha colega, que entrou há 3 dias, como evacuar a loja e chegar ao ponto de encontro em caso de ouvirmos o sinal seguinte de emergencia.

Tentei relaxar. Tava nervosa real. Mas gente nervosa em público causa pânico em massa. Vendia as coisas e pensava "acho que vc nao vai poder levar".

Depois de 1 hora de break e 40 minutos de trabalho, entendi que não haveria informacão sobre a emergência ter acabado. E concluí que já estava resolvido, ao contrário, já teríamos tomado outras atitudes.

Minha mão ainda estava gelada quando aquele primeiro segurança que vi, atordoado, passou por mim na maior calma.

Tudo resolvido lá embaixo?
Sim. Quanto custa essa carteira?

Paz.
Alívio.

UFA!

Aí que parei pra perceber que nada de errado poderia acontecer aqui. Esse cruzeiro que estamos fazendo agora tem mais de 2 mil passageiros argentinos entre 17 e 19 anos, recém-formados, prestes a entrar na faculdade. Não faria sentido queimar o futuro do mundo.

Como não pensei nisso antes?

Já encontrei o chefe dos bombeiros que me contou que o problema era uma máquina incineradora e como eles apagaram o fogo. Disse que esse foi fácil. Já passou por piores. Ainda bem, né?


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Esse cara...

Quando eu fui fazer um intercâmbio pela primeira vez, em 2007, em Toronto, no Canada, eu morei num asilo. A gente tinha café da manhã incluso e os velhinhos brigavam pra ver quem na Mesa de quem eu ia sentar. Eles me chamavam de "breath of fresh air".

Foi, talvez, a primeira expressão que aprendi em inglês. Significa, literalmente, um respiro de ar puro. Uma novidade, uma coisa boa, um bem estar.

Hoje eu conheci esse cara. Que foi um maravilhoso breath of fresh air.
Dentro de um navio, o ar não circula muito. Dentro desse que estou, especificamente, parece que ele é mais pesado ainda.

Mas esse cara! Ele sentou do meu lado e começou a me contar novidades, como uma criança que viu um brinquedo novo pela primeira vez.

Ele é do Paraná, de algum lugar nas imediações de Curitiba. Ele conhece Curitiba e Brasília, porque o irmão dele mora lá. Mais nada.

Ele sabe falar inglês, mas ninguém acredita nele. Nem levam a sério quando ele conta. E ele ficou pensando: de que aidanta eu falar inglês se não uso?

Durante muitos anos ele foi porteiro. Depois acabou perdendo o emprego e achou que um emprego público daria mais estabilidade. Mas ele trabalhava na secretaria de saúde, visitando casas. Ganhava R$ 1.500,00 por mês, que não dá pra nada.

O casamento dele, de mais de 15 anos, já acabou há muito tempo. Mas eles ainda moram juntos.

Ele até tentou sair. Voltou pra casa dos pais, mas os pais diziam "pense bem, melhor voltar"... ele voltou. Praquele lugar chato, com a mulher que nem deixa ele ir pro bar. Já que nem os pais o apoiam.

Ele disse: "meu casamento acabado, meus pais não me deram suporte, aí o agente me liga e diz: tem vaga pra você. eu vim na hoooooorrrraaaaa".

E veio. Com a coragem que lhe é muito peculiar e que a mim faz admirar. Gente que mal saiu de casa e encara um voo internacional numa terra que nem se conhece a língua.

Fez o voo Curitiba - Guarulhos - Roma - Marseille. Embarcou num navio. Foi mandado pra "saleta", como quase todo mundo em começo de primeiro contrato.
A saleta é onde os funcionários do navio comem. O público deles não são os passageiros, mas sim os colegas de trabalho. Atualmente, terceiro dia de trabalho, a função principal dele é limpar as bandeijas do pessoal que acabou de comer. Tem que separ o lixo: comida, embalagem e guardanapo. Tem que separa os talheres dos bowls, dos pratos, dos copos e da bandeija.

A rotina dele, ele me contou, é trabalhar das 10h às 23h. Tem um intervalo de 12h às 12h30, outro das 15h às 16h e outro das 20h as 20h30. É perfeito. Disse ele. Dá tempo pra tudo! Até pra vir no bar conversar.

Ele não fuma, mas foi comigo fumar. Thaís é do que ele me chama. Ele me perguntou meu nome uma unica vez e ficou repetindo durante a conversa. Deve ser alguma técnica que ele aprendeu nos anos de experiência em lidar com o público. Eu também aprendi o nome dele, claro. Até porque, é o mesmo do marido da minha prima então, não vou esquecer, mas melhor não expor.

Thaís, parece que eu não vivi nos últimos 42 anos o que eu vivi nos ultimos 3 dias. Disse ele como quem respira fundo, como quem pegou um breath of fresh air. Sabe o que é mais louco? Ele me perguntou.
O que?
Aqui tem gente do mundo inteiro. Só la na saleta, tem Filipino, colombiano, indiano, meu chefe que é de Honduras, e é todo mundo igual!

E esse horário de trabalho maravilhoso! Afirmou. E eu saio do trabalho e vou pro bar, e ninguem me liga pq nao tem celular - acabou esse negócio de dar satisfação- nem hora pra chegar. Se eu quiser acordar as 9h pra ir trabalhar eu posso. E sabe do que eles me chamam lá? De papi.

Pode ir se acostumando. Avisamos, eu e minha amiga, e começamos o glossário de um navio da Costa:
- se for colombiano, vai chamar homem de papi e mulher de mami. Mas é carinhoso.
- mamagayar é enrolar o trabalho. Se te chamam de mamagayo, tão te chamando de preguiçoso
- break the balls é te ferrar, te sacanear
- capo é chefe
- e brata é quando o trabalho tá pesado

"Aé?" Disse ele depois de ouvir atentamente pra aprender. "Achei que brata era prato. Ouço o pessoal falando isso o tempo todo".

Esse cara não deve satisfação a ninguém. Está livre pela primeira vez na vida. Está conhecendo - e trabalhando - com gente do mundo todo pela primeira vez. Está usando o inglês que ninguém acreditou que ele era capaz. E, em cinco dias, desde que saiu de casa, já esteve em 3 países. Ele está tão feliz! Ele está rindo a toa, o tempo todo. Ele está contando as novidades com tanta empolgação que nem percebeu que é novidade só pra ele. Mas, pra mim, o ponto de vista dele é novidade. Tão lindo! Que eu fiquei exatas duas horas ouvindo.

"Imagina se eu não tivesse vindo? Sete meses passam passam voando. Se eu tivesse repensado e desistido de vir, ia olhar e falar: olha, já foram sete meses. Eu deveria ter ido".

E tem mesmo só a filha dele, de onze anos. Mas ela tem tanto orgulho dele! Se ele fosse catador de lixo ela ia dizer "meu pai limpa o mundo". Precisa ver como ela descrevia ele quando ele era porteiro: meu pai cuida de um prédio inteiro.

Quando eles foram juntos fazer muai thai, ele perguntou pra ela no caminho: mas será que o pessoal é legal? E ela disse: "imagina, pai. Você se dá bem com todo mundo, em qualquer lugar".

Então ela vai ficar feliz de esperar ele voltar com tanta histórias.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Minhas louquinhas - e seus sábios conselhos

A Brigitte tá aqui no Pacifica comigo. Ela ja tinha estado duas vezes comigo no neo Riviera. Na temporada da India e na do Mediterraneo. Ela me chama pelo meu nome, me dá dois beijos todo dia na primeira vez que me vê e me tira do meu posto pra comprar comigo no ponto de venda dos outros. Ela é francesa, mas fala italiano e inglês muito bem. Deve ter uns 65, 70 anos. Não sei qual é a condição financeira dela, mas sei que ela sempre vem sozinha e não economiza. Gasta meeeesmo na loja. Se não pra ela, de presente pros outros. Outro dia ela me disse: "essa bolsa é Linda! Mas não sei se compro. Já tenho mais de 40 bolsas ". Meia hora depois ela comprou uma. O dobro do preço da que comentávamos antes.
Ela também gasta bem no spa e não tem nenhuma vergonha de andar por aí de roupão com um drink na mão. Hahaha. Adoro ela! E acho ela Linda!
Ontem perguntei como ela estava e ela disse "mal. Um primo morreu e nem sabem me dizer de que".
Hoje ela passou "Ei Brigitte, tá melhor? Conseguiu notícias do primo?"
Ela, com um sorriso gigante e uma cara de paz, com roupão do spa e batida de coco na mão: "ah sim! Ataque do coração. 50 anos. Homem de hábitos saudáveis. Uma pena. Deixa eu ir pra minha massagem porque a vida pode ser curta. Tenha um bom dia".
Acho que isso de ver os outros irem sem mais nem porque, nos faz mais carpem diem.

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A carrancuda passa todo dia por nós com aquele ar grosseiro. Só fala quando interessa e tem um tom de quem tá dando ordem. Mas com cliente italiano eu nunca levo as coisas pro lado pessoal. Eles não são grosseiros. Eles são italianos. Só isso. É um jeito de ser.
Hoje eu resolvi encostar na carrancuda em vez de falar com ela de trás do balcão. Dei a volta, fui até bem pertinho dela e abaixei pra ouvir o que ela tava perguntando. Ela, metade de mim, literalmente, disse "como você ficou tão grande, menina?"
Aí eu falei que meu pai e minha mãe fizeram com vontade.
Mas ela não riu dessa minha quase infalível piada. E disse: você deve ter comido bem. Não era como eu, que cresci na guerra.
- Oi? Cresceu na guerra?
- Minha filha, eu tenho 96 anos. Quando eu era jovem, a gente lá em casa pegava um pao grande, tipo uma baguete francesa e dividia em 7. Eu comia aquilo ás 7h da manhã e ia pra universidade. Só is comer de novo quando voltasse, as 8 da noite.
- Mas você, mulher, jovem, no meio da guerra, foi pra universidade?
- Claro! Química. Tem que estudar na vida! Aliás, as duas coisas se misturam. Comer de menos é melhor que comer demais. Nosso organismo não foi feito pra comer 1 quilo de comida, misturando carne, massa, pao, frango... olha esse tanto de criança obesa... Comer menos é vida mais longa e mais saudável.
Disse a velhota enxutassa.

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A doida comprou mil euros em cigarro no primeiro dia de cruzeiro. Tivemos que pedir permissao pra realizar a venda. Na metade do cruzeiro ela devolve metade dos cigarros. Pede pra trocar em semi-jóias. O pessoal chama ela de doida. Eu chamo de traficante.
Velhinha barra pesada. Deve ter mais de 70. Anda de bengala e a mão treme.
Hoje ela me contou que foi casada por 14 anos. Separou. Seis anos solteira. Casou de novo, com outro, e está com ele há 16. Eles não se dão bem. Ele já bateu nela 4 vezes, mas ela não denunciou porque ele prometeu que não faria de novo. Hoje ele tá velho, não faz mais isso. Mas já puxou ela pelos cabelos na sala de fumantes desse mesmo navio. Ela não traz mais ele pro cruzeiro porque ele dá esses escandalos e fica reclamando como ela gasta o dinheiro. Dinheiro que, por sua vez, é dela. E sustenta ele. Talvez fosse melhor arrumar um gigolô. Jovem e bonito, diz, rindo. Mas ela não gosta de ficar sozinha. Antes mal acompanhada do que só.
Mas ela disse "casar é bobagem, viu? Homem sempre vira arrogante e egoísta depois do casamento".
Faço o que então, minha senhora?
- Arruma um bom companheiro. Companhia, não casamento. Que faça amor. Demorado. Não aquela falta de cuidado pra transar. Que te dê amor também e que tenha um pouco de dinheiro. Mas só um pouco. Dinheiro não é muito importante e muito dinheiro vira frieza. Esse é meu conselho. Agora vou jantar. Ciao.
E se foi, mancando, marcada, sabe-se lá de quais jeitos.





sábado, 19 de outubro de 2019

Café

Sou uma viajante.  Convicta.
Às vezes como turista, outras como estudante e muitas trabalhando.
Um viajante convicto sabe que uma das coisas mais legais dessa escolha é conhecer outras culturas. E saber respeitá-las, por mais diferentes que sejam, é questão de bom senso.

Quem acompanha esse blog já sabe que eu tenho um probleminha com franceses. E eu não quero, de jeito algum, que pensem que tô mais pra criadora de guerras do que pra embaixadora da paz, mas gente, pelo amor de Deus! Alguém ensina espanhol a fazer café?

Neste navio que embarquei agora, em meu segundo contrato,  que se chama Costa Pacífica,  nós estamos fazendo, nesse início,  praticamente a mesma rota que meu contrato passado, Costa NeoRiviera,  fez no final. Mediterraneo.  França,  Espanha e Itália.

Na Itália, qualquer lugar que você pise tem café bom por 50 centavos de euro. Outro dia, em Civitavecchia,  entrei numa bagacinha e disse pra mulher: preciso de café, cadeira e wifi. Ela disse "já fechei. Hoje é Domingo. Mas o café eu faço pra você". Isso é respeitar o café! E as pessoas que o apreciam.

Na Espanha, qualquer expresso curto que você peça,  não sai por menos de 2 euros. Agora, o sabor... vai fazer café ruim assim lá nos inferno.

Café é uma arte, ok. Mas a técnica básica,  qualquer um pode aprender. Eu aprendi. Num curso de 4 horas. Qualquer um pode.

Pedi aqui um cappuccino. 3,50 fucking euros. A moça enche tanto de pó que não consegue fechar a base pro café escoar na velocidade e quantidade certa. Comecei a pensar "me dá meu dinheiro de volta". Pediu ajuda. A segunda veio, jogou fora, botou outro pra fazer. A primeira esqueceu meu  café. Ele ficou lá esfriando. Aí ela lembrou. Pegou a caixa de leite, ia jogar o leite frio no meu café (a essa altura também já frio). Não consegui me conter: nao é cafe com leche. É cappuccino. Aí veio a segunda e mandou ela esquentar o leite.

Assim ela fez. Esquentou! Não criou espuma, não deu cremosidade.  Não virou nem um único grau a bendita leiteira.

Não sabe o que está fazendo! Nem essa aqui, nem ninguém nesse país.

Olha, como uma viajante experiente, posso afirmar: Coisas que não combinam: blusa de oncinha com bota branca, praia no inverno, um espanhol e uma maquina de café.


quarta-feira, 3 de julho de 2019

Fiiimmm


"Eu vou em caras de presidentes, em grandes beijos de amor, em dentes, pernas, bandeiras, bomba e brigitte bardot"
Foram 6 meses sem ler notícias. Uma ou outra inevitável, na TV do refeitório, na TV da cabine dos outros... Só coisa ruim que a gente faz. Tô de boas...
"O Sol nas bancas de revista me enchem de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?"

Eu prefiro ir, por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos. E te pergunto: por que não? Por que não?

Alegria, alegria me acompanhou o tempo todo. Pelo sentido da vida. E Anunciação também. Pra eu não esquecer que venho de um lugar específico. E também porque meu peito está cheio de brumas leves de paixões que vem de dentro.

Foram 15 países. Italia, França, Espanha, Portugal, India, Ilhas Maldivas, Sri Lanka, Omã, Israel, Jordânia, Grécia, Montenegro, Albania, Malta e Marrocos.

Foram inuuuuumeras cidadelas e ilhas. Já não consigo contar.

O Costa Neo Riviera, o menor da Costa, abriga até 1727 passageiros e 500 crew members (que chegam e partem o tempo todo) por vez. Cada cruzeiro tem uma media de 11 dias, mais um crossing de 28 dias. Foram mais de 30 mil novas caras só a bordo, sem mencionar as pessoas maravilhosas que eu conheci em terra firme. Uns mil novos amigos do peito para sempre. E uns 2 inimigos que esquecerei em breve.

No mínimo 35 nacionalidades e uns 20 tipos de comidas e bebidas inéditos. Um novo amor alcoólico chamado Mirto, um licor da Sardegna.

Eu fui na casa onde o Mahatma Gandhi morreu, no museu onde descobriram uma nau romana que parou em Marseille. Nadei em paraísos inimagináveis até pra quem viveu em Fernando de Noronha e tomei umas na orla de Ibiza. Eu fui à Petra!

Eu ganhei um creme de cabelo de uma Filipina que limpa o banheiro e tem o nome da minha mãe, passei alguns dos meus melhores momentos com uma amiga louca e linda das Ilhas Maurício, fui obrigada a viver como uma irmã (com todas as dores e delícias) sérvia - e quis sair da cabine dela pra ir viver com uma chinesa.

Eu vi o por do sol TODOS os dias. Sem falha. E não houve um único dia que ele se pareceu com outro. Todos os dias eu tomei vento na cara. Alguns frios, a maioria deles, muito quente. Eu também me alonguei todos os dias. Aleatoriamente, pedalei, joguei basquete, fiz yoga, transei. Não se choque com essa informação. Estou muito acostumada com todo esse top less na Espanha.

Eu gastei menos dinheiro do que previ e guardei mais do que achei que seria capaz.

Faltam 10 dias pra eu partir. Agora, cada porto que eu pisar, será a última vez. Pelo menos nesse contrato. Já não como direito. Já não durmo direito, já não trabalho direito. Estou cansada. Preciso ir pra casa ontem. Estou triste porque vai acabar. E já estou ansiosa pelo próximo - e tomara que ele venha. Se tiver de vir.

Um dos amigos queridos que desembarcou esses dias me disse antes de partir: "minha vida é uma bagunça. Esse monte de namorada, esse monte de problema, essa falta de agenda... mas eu gosto mesmo é assim! Não me venha com calmaria"

Haha. Ele definiu. Pegou o passaporte - que não fica com a gente e sim com a companhia - e se foi, com um sorriso no rosto.

Eu também quero assim. Sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos. Quero seguir vivendo... E eu vou. Por que não?


quarta-feira, 19 de junho de 2019

O clube das tia também em alto mar

Tem uma pessoa que está acompanhado o meu contrato diferente de vocês. É porque ele não tem Facebook, nem Instagram, então o que eu faço é mandar postais pra ele. Trata-se do meu sobrinho de seis anos.

Mandar cartões de cada porto foi, a propósito, ideia do meu tio. No começo não botei muita fé, até o dia que minha irmã me mandou um audio dizendo "eu disse que se ele estava gostando de receber, ele deveria te dizer, assim você mandaria mais, mas ele alegou que não precisava fazer isso porque ele sabia que você ia mandar".

Gente, depois desse áudio, a viagem deixou de ser "se eu passar por um correio, pode ser que eu compre um cartão" para "vamos andar 3 km a pé embaixo desse sol escaldante até achar uma merda duma caixa de correio".

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São 2h30 da manhã. Estamos navegando de Savona, na Itália para Toulon, na França. Eu e minha cabinmate começamos a falar sobre signos e ela começou a me contar como o sobrinho sagitariano dela é engraçado.
Ela disse que ele aprendeu a ler sozinho, aos 6 anos de idade. Um dia, nessa mesma idade, foi viajar com o bisavô, pra visitar as duas irmãs dele. Chegando lá, alguém ofereceu pra ele comprar o que quisesse. A escolha do moleque foi um livro de piadas. Assim, ele podia sentar no meio dos velhos e ficar lendo piadas pra eles se matarem de rir.
Só que ela começou essa história por volta de uma da manhã e depois contou várias facanhas dele, até as atuais. Ele já tem 16 anos. Por isso a conversa durou tanto hahaha.

Outro dia, uns cruzeiros atrás, numa mesa de brasileiras, sentadas em Funchal, começamos a falar sobre nossos sobrinhos. Foi uma choradeira linda. É tanto amor que transborda pelos olhos.

Existe uma comunidade maravilhosa, onde imperam a paz e o amor. Onde não existe ego ou disputa. Ela se chama o clube das tias.
Desde 3 de março de 2013 eu sou tia e desde então tenho me cercado de tias. (consequência de me cercar de amigas solteiras e sem filhos, como eu, assim as agenda batem).
Fato é que a gente não tem outro assunto pra tratar na vida que não sejam nossos sobrinhos.

E enquanto eu pensava nesses fatos pra escrever aqui, me ocorreu uma coisa: eu nunca vi uma tia falar nas costas da outra "mas o sobrinho dela nem é tão bonito assim", como algumas mães fazem.
Eu nunca vi uma tia dizer "meu sobrinho foi o melhor da sala" e outra rebater "ah, mas o meu foi duas vezes melhor", como já vi mãe fazer. Ou então, o clássico das mães: dar opinião nas escolhas alheias. Lembro de ter acompanhado, certa vez, no Facebook, um longo debate sobre colocar ou não fitinha na cabeça da bebê. Gente! Uma tia JAMAIS vai dizer pra outra: "pense duas vezes antes de fazer isso com seu sobrinho".

Tias tem coisas mais importantes pra se preocupar. Pergunta pra minha amiga Fê Dupin. As vezes a gente nem tem assunto, mas troca mensagens no WhatsApp sem dizer uma palavra. São apenas trocas de fotos fofas dos sobrinhos. Outro dia ela fez figurinhas com as fotos deles e eu morri de rir e me derreti também.

E é também um elo. Um jeito de fazer amigas. Quando a gente era criança, chegava perto da nova amiguinha e dizia: quer trocar papel de carta?
Agora, você senta do lado da recém conhecida e diz: olha essa foto no papel de parede do meu celular. É a nova do meu sobrinho. E ela fala "aaaaaahhhh que lindoooo" e depois diz: "olha essa do meu" e você responde "aaaaaahhhh que lindoooo". Aí, se tem uma outra tia por perto, ela logo sente o cheiro e se aproxima: "É foto nova do sobrinho? Deixa eu ver!"

Só tem uma coisa que as tias não sabem uma da outra: o nome do respectivo sobrinho. Porque, aí sim, entra um sentimento menos sublime, que é o egoísmo. Porque o que estamos dividindo não é exatamente o que aquele ser é, mas sim, o sentimento que nós temos por ele.

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Eu falei pra minha irmã que não vou mandar cartão da França: não gosto da França, não gosto de francês, esses fdp se recusam a falar ingles em loja de souvenir em ponto turístico, como é que eu vou comprar uma merda dum selo? E aí vou dizer o que pro menino no cartão? "Tia Thaís tem só um conselho: nunca na vida perca tempo e dinheiro nesse lugar".
Não dá, né?

Aí ele cisma que quer cartão da França. Ela me manda um vídeo em que diz docemente pra ele que eu não falo francês e por isso talvez não consiga mandar. Ao que ele responde: "mas, né? vamos ver..."

Moral da história: eu andando em Toulon caçando os correios e usando um dicionário francês lá dentro.

Mas eu já sei o que vai ser. Vou escolher um cartão sem graça, pra não ficar entre os preferidos dele e escrever assim:

Tem um escritor brasileiro, que tem casa na França e é muito lido por aqui, que se chama Paulo Coelho. Ele escreveu que quando a gente deseja uma coisa com toda nossa força, o universo inteiro conspira a nosso favor. Aqui está um cartão francês, como você desejou.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Arrecife, gente!

Desde a Grécia, já estivemos em Catania, Salerno, Portoferraio, Livorno (de onde se vai à Pisa) e Brindisi, na Italia. Passamos mais duas vezes pela chatíssima Marseille, voltamos à Malta, estivemos na Albania e na FOFÍSSIMA Kotor, em Montenegro, onde eu passaria facilmente muito mais tempo. Kotor é legal o suficiente pra morar no meu coração. Passamos também por Portugal, em Funchal, na Ilha da Madeira, onde metade do crew disse que ficaria pra morar, Mahon, na ilha de Menorca e Santa Cruz de Tenerife ambas na Espanha.

E por fim, ainda na Espanha, Arrecife.

E, meus amigos, é sobre isso que precisamos falar.

Mas como falar, né? Dessas coisas que vem do coração.

Eu não tive tempo, nem de longe, de conhecer direito o lugar. E esse é um daqueles portos que, infelizmente, passamos uma única vez durante todo o contrato.
É uma ilha. E você sabe, né? Difícil resistir a uma ilha...

Dos quatro fortes de Lanzarote, dois estão em Arrecife. Um é um museu. Aí você pensa comigo: um museu, de frente pro mar, nas ilhas canarias, com um gentil recepcionista na porta, num dia quente. É alegria pura.
Eles se orgulham de ser uma ilha vulcanica, de seus 25 milhoes de anos de formação geográfica, de seus fortes datados do século 6 e tudo com razão.

No meio da cidade tem um canalzinho fofíssimo, com barquinhos pequeninos, parece que foi montado pra ser cenário. Nos arredores, o mar muda de cor o tempo todo, vários tons de azul e verde que devem ser pra combinar com os olhos de todos os garçons lindos que trabalham nas lanchonetes baratíssimas comparadas a qualquer outra coisa na Europa.

Tem loja de tudo, tem ruas e ruas fechadas pra pedestres e é tudo azul e branco, tipo a Grécia mesmo. É limpo e as pessoas são muito queridas.

Curioso também que eu estava escrevendo isso e, do nada, apareceu uma passageira francesa aqui na loja e começou a falar inglês comigo. Ela disse: "acabamos de visitar meu porto preferido nesse cruzeiro".
O meu também, madame! O que você fez lá fora?
E ela me disse que foi a essa espécie de parque com restos vulcânicos diferente de tudo que ela já viu na vida, lindo e que a sensação era de que ela estava pisando na Lua.

Meu chefe também me contou que foi passear com um amigo que o levou pra um lado da ilha de praias lindissimas que ele ainda nao tinha visitado.


Aqui também se anda de camelos, coisa que eu também nao vi pessoalmente.

Só por essas informações você já pode ir imaginando o quanto de lindo não há para ver e o quanto eu preciso voltar aqui um dia, de férias, com tempo.

Eu queria postar fotos, mas não consigo porque não trouxe laptop e do celular não dá pra postar. Mas você pode ver meu instagram ou jogar no Google imagens mesmo. E já começar a planejar as próximas férias. E me chamar.

sábado, 18 de maio de 2019

Achei um francês legal

Tem esse sujeito que está andando pelo navio com essa menininha mais gracinha do mundo.
Ela passa, todo mundo se derrete.
Hoje ele entrou na loja sozinho e eu nem percebi que era ele. Ele veio olhar a mesa de Swarovski e eu perguntei se ele estava procurando presente pra alguém:

- Pra minha filhinha,  mas ela é muito pequena pra usar isso

- Hum, se bem que eu tenho um brinco pra criança. Ela tem orelha furada?

- Não. Ela é muito ativa. Pode se machucar.

Aí eu já me derreti toda, porque Freud explica,  né? Meu pai tomou a mesma decisão pra minha vida.
(Só não contei pro cliente que, só de raiva, quando fiz 13 anos, fui lá e fiz 6 furos e 2 piercings)

- Quantos anos ela tem?

- 4

- Ah! Ela está aqui com você! Claro! Me lembrei! Ela é Linda demais

- É. Vou comprar algo bem simples,  só mesmo pra ela lembrar que é especial.

Nesse momento, meio derretida que estava, inteira fiquei e quase me desfiz.

- Essa bolsinha aqui é uma mochila também.  As meninas costumam gostar. Só não sei se é muito grande

- Pode ser. Ou essa outra brilhante. Ela adora coisa que brilha. Deixa eu te mostrar esse vestido que ela escolheu

E me mostrou uma foto do vestido mais elegante que uma mocinha de 4 anos pode querer

- Mas então é ela que escolhe as proprias roupas?

- Mais ou menos. É que eu sou pai solteiro

Meu olhar de condolência ao viúvo,  que ele já deve estar tão acostumado que logo se explicou: Mas ela é adotada.

- Desculpa. Não sei se entendi direito. Você é solteiro e adotou uma criança?

- A minha casa é um abrigo pra crianças vítimas de violência doméstica. O governo pega elas e manda pra minha casa por duas ou três noites até resolver a situação

Nesse momento, caiu um cisco no meu olho.

- Ela foi pra uma casa, não deu certo, voltou pra minha. Foi pra um abrigo,  não deu certo, voltou e assim sucessivamente. Até que ficou 3 dias, 3 semanas, 3 meses e eu disse: "ok, me deem os documentos"

- Que coisa mais linda! (Meu olho encheu de água) Desculpa, mas eu vou chorar

Ele se emocionou junto, fez um sinal com a mão de "para com isso" e disse: - deixa eu te mostrar como ela é chique comendo. No vídeo ela comendo igual uma perua. Muito fofa e engraçada. Depois mostrou uma foto dela na área de crianças lá em cima. Comentei:

- Não vi muitas crianças nesse cruzeiro

- Nenhuma. Só ela.

- Ah, com quem ela vai brincar?

- Na verdade eu também sou uma criança. Só sou um pouco mais alto. Haha deixa eu ir checar se ela acordou.

- Haha. Vai lá! Que sorte a dela.

- Que sorte a minha!

Ele saiu e eu borrei toda minha maquiagem de tanto chorar.




terça-feira, 7 de maio de 2019

Fatos curiosos a bordo

Curiosidades 
Em tópicos 
Sobre um navio de cruzeiro:

- Às vezes, na maioria delas, em vez de cruzeiro, a gente devia chamar asilo
- Velhos são iguais crianças. Eles apertam o botão do brinquedo de M&Ms, e o M&M amarelo começa a tocar bateria e todo mundo para pra olhar. Os velhinhos que apertaram o botão morrem de vergonha e riem como se tivessem aprontado uma grande travessura
- TODOS os velhos peidam a vontade pelos corredores
- A maioria deles nem percebe que peidou. E quase todos usam aparelho de surdez
- Cheiro de peido de velho é uma puta sacanagem
- Em navio italiano sacanagem ou sacanear alguém é "break the balls", assim, em inglês. Eu nunca tinha ouvido essa expressão e depois descobri que é um traducão de uma gíria italiana: "rompere le palle"
- Onde já se viu traduzir gíria?
- Quem mais pede desconto e negocia até encher o saco é turco
- Quem compra sem olhar o preço é alemão 
- Quem reclama do preço é indiano
- Quem não compra é francês 
- Quem entra na loja e nunca mais sai pq não para de falar é brasileiro
- Uma heineken no bar de passageiros custa 6 euros. No crew bar custa 50 centavos de euro
- Um maço de Marlboro custa 1,80euro no crew bar
- Não pode beber na cabine, mas todo mundo bebe
- Não pode fumar na cabine mas todo mundo fuma
- Gilette raspa calo no pé 
- Se você colocar o salva vidas embaixo da ponta do colchão, vai estar sempre com o pé pra cima quando deitar
- Pé pra cima é mandatório em navio porque quase ninguém trabalha sentado
- Tem dias que eu fico 14 horas em pé
- Tem dias que não trabalho
- As únicas chances de você ter um dia off sendo trabalhador de navio são se você for artista ou vendedor da loja
- Eu não sou artista, mas queria ser
- Se fosse eu ia ser cantora de bossa nova no bar dançante
- A gente fica vendo as pessoas dançando e zoando que eles são surdos, porque se tem uma pessoa que dança fora do ritmo, é passageiro de navio
- Se o navio fizer dry dock, que é parar pra manutenção, algumas outras pessoas não trabalham, mas também provavelmente não vai ter luz ou banho quente
- Se você colocar o salva vidas embaixo do colchão e tiver que acordar pra uma emergência, pode ser que esqueça de pegar ele
- Tudo bem esquecer. Tem o suficiente de reserva em locais estratégicos 
- No caso de ter que abandonar o navio, você precisa de um salva-vidas, mesmo que seja um exímio nadador. A agua pode estar fria o suficiente pra você não conseguir nadar
- A agua vai estar fria a menos que você estiver aportado. Ao meio dia. No verão. No lado de baixo do equador
- Tem espaço pra todo mundo nos botes salva-vidas. Talvez você não tenha que encostar na água 
- Metade das pessoas que está lá pra te ajudar não sabe nadar
- Mas todos eles tiveram que pular na água, de 3 metros de altura, com um salva-vidas, pra poder ter o certificado que os permite trabalhar a bordo
- Tem duas coisas que nunca vão contar pro passageiro que está acontecendo a bordo, mas será anunciado em código no alto falante pra geral: ameaça de bomba e ataque de pirata
- Existe um remédio pra enjoo de mar que não dá sono
- Se o barco estiver balançando muito, você tem que comer mais e ingerir menos líquido
- Se você não beber 2 litros de agua por dia enquanto estiver vivendo numa lata no meio do mar com ar condicionado, sua boca e sua pele vão ressecar
- Dois litros de água no crew bar custa 35 centavos de euro
- Se você quiser agua sem pagar, dê esperanças a um oficial ou alguém da engenharia. Eles tem água de graça e vão deixar uma caixa dela na sua porta pra te agradar
- Nunca vai te faltar nada. Sempre vai ter alguém pra te dar o que você está precisando. De creme de cabelo à chocolate as 3 da manhã, passando por pijama e sabão em pó
- Dar. Não emprestar ou cobrar mais tarde
- É dando que se recebe
- No navio que eu trabalho não tem coca-cola. Só Pepsi
- Eu compro coca na rua
- Já tomei coca-cola de 8 países em 4 meses
- Só tomei metade da coca-cola que comprei. A outra metade eu dei pros outros
- Na França, uma caixa de queijo Camembert President custa 1,48 euros
- Não pode guardar comida na cabine
- Se você deixar  uma caixa de queijo Camembert President na cabine por dois dias, ela vai cheirar chulé
- Muito
- Na India, um pack de 6 latas de coca custa o equivalente a 9 reais
- O passageiro que reclama que está ouvindo as máquinas do navio está mentindo. Eu durmo literalmente em cima delas e bem abaixo deles e não ouço nada
- Quase nada
- Cada vez que ouço tenho um mini ataque cardíaco
- Navios são super seguros
- Ouvir Anunciação é ótimo pra saudade de casa
- O Oswaldo Montenegro tem uma versão pra O que será, do Chico, (à flor da pele), que todo mundo devia ouvir antes de morrer
- Aliás, o Oswaldo Montenegro tem um disco que ele só toca música do Chico. Acho que chama Seu Francisco
- Se eu encontrasse o gênio da lâmpada e tivesse apenas um pedido, eu ia pedir pra existir um disco do Oswaldo Montenegro cantando músicas do Chico Buarque
- Como esse disco já existe, tudo bem saber que gênio da lâmpada não existe
- Esse post não foi patrocinado pelo Oswaldo, mas eu ia adorar se ele lesse
- Eu acho que o Oswaldo Montenegro não pesquisa no Google sobre vida a bordo
- Quando a pessoa que divide cabine com você volta pra cabine porque o crewbar fechou, você tem que desligar a música.

domingo, 5 de maio de 2019

Grécia

Iraklion, Katakolon, Argostolion, Kalamata, Nafplion, Mykonos e Monemvasia. Esses foram os sete portos que paramos na Grécia.
Cada vez que eu paro num Porto eu jogo no Google: o que fazer em _______ em um dia. Em português mesmo. Porque quando mais de 200 milhoes de pessoas falam portugues, em pleno 2019, acredite, alguem ja foi pra lá e postou sobre. Seja lá onde for "lá".
Algumas vezes eu tô inspirada pra ir longe, outras tô mais cultural, outras, só quero mesmo sentar num café e usar o wifi. Especialmente nos portos que se repetem. Ao todo, foram 9 dias na Grécia.
Sim. Eu passei 9 dias na Grécia hahaha. Dá pra acreditar? E cada vez que eles falavam entre eles eu pensava: que é isso mano? Tá falando grego?

E é início de primavera. Então eu não conheci a Grécia paraíso do verão. Mas eu vou te falar o que conheci.
Imagina um sonho. Em cores. Ou filme de fotografia bonita. Onde a sensação é paz.
É isso. Temperatura amena. Nem muito quente, nem muito frio. Quando venta, venta de verdade. Tipo, segura pra não voar. Uma laranjeira em cada esquina. Muita flor. Não sei dizer se é porque são pontos turísticos ou se é porque essa é a relação dos gregos com a natureza, mas haja flor bonita no caminho. E o verde da grama é um verde real. Daqueles que te faz feliz só de olhar. E olha que nem sou tão fã de verde. (Convenhamos, azul é mais bonito).
As pessoas, nem sei te dizer. Não são super bonitas, mas também não são feias. Não são tão legais, mas também não são franceses.

- Francês é o adjetivo que uso agora para definir uma pessoa chata, grossa, egoísta, rude, esnobe, totalmente sem graça, cagadora de regra. Estamos fazendo 42 dias de viagens EXCLUSIVAMENTE com franceses então, accredite que sei o que estou falando -

Mas enfim, gente não é o forte da Grécia. Natureza é! Até o mar é mais bonito lá. E é limpo e organizado. Eu estava esperando visitar um tipo de império falido, mas eles estão super bem, obrigada.

Em Iraklion (Heraklion em português), na Ilha de Creta, carecemos de bons sapatos. É super agradavel pra andar o dia todo. Até a ponta do forte ou subindo as ruas exclusivas de pedestres. La tem correios de facil acesso. O que é raro. E vitrines de doces e queijos maaaaravilhosas. Tem um monte de museus, mas eu não entrei em nenhum. E tem um monte de ruela pra se perder e de repente dar de cara com uma loja de discos de vinyl especializada em música grega, com uns tio véio sentado lá dentro, trocando ideia. Fui andando aleatoriamente, apenas seguindo meu querido guia, o fotógrafo Ovidiu, que é romeno, não fala portugues, mas lê meu blog. A vida era muito mais fácil quando ele estava por perto e sabia a temperatura, a historia do lugar e que ônibus pegar. Agora tenho que me virar sozinha. Isso é tão chato e deprê que, da segunda vez que fomos lá, nem desci do navio.


Katakolon, que é o nome da cidade e da ilha, é onde o pessoal vai pra cidade de olimpia, ver as ruínas da primeira sede das olímpiadas. Eu não fui pq é longe. Custa caro, gasta muito tempo e, cá entre nós, chega uma hora que ruína cansa e você pensa "ah, to de boas de ficar olhando pra resto de pedra velha". Mas lá, alem de tooooodos os restaurantes e bares na beira do mar e das fofíssimas quadras de lojinhas, tem um trenzinho que é demais! Te leva pros fundos da ilha, pro topo do morro, você vê as casinhas e fazendinhas dos locais, visita uma vinícula em que a dona te recebe alcoolizada e uma praia do outro lado da ilha que eu nao lembro o nome, talvez St Andres. O maquinista do trenzinho se apaixonou pela minha amiga chinesa que trabalhava na loja comigo (e com quem eu ia começar a dividir a cabine se ela nao tivesse sido transferida pra outro navio) e parou aleatoriamente a viagem duas vezes. Uma pra pegar flores pra ela e outra pra pegar a planta com a qual eles fazem aquela coroa das deusas gregas - pra fazer uma pra ela. No fim, eles se abraçaram, conversaram com a ajuda de um terceiro elemento que falava Ingles e grego e ele Prometheus (haha q trocadilho maravilhoso) esperar até que um dia, um navio que ela trabalhe, passe lá de novo.

Argostolion, que fica na Kefalonia, é bem calminho e vazio nessa época do ano e, tirando uma visita a um rio dentro de uma caverna, (que, de novo, é longe e caro) não tem muitas atrações. Cafés e lojinhas, como o habitual. Mas tem essa pontezinha apenas para pedestres, que deve ter mais ou menos 1,5km de extensão que é a coisa mais simplesmente sensacional que eu adorei tanto. Estávamos andando eu e Anju, minha amiga do spa, das Ilhas Mauricio. A paisagem é qualquer coisa de sensacional. A montanha na medida de altura e cor perfeita, o rio calmíssimo (trazendo alívio pros dias de mar MUITO agitado que mais parecia que a gente tava numa maquina de lavar do que num cruzeiro) e vários bichinhos. Passou uma tartaruga gigante bem do nosso lado e eu falei pra Anju "joga um morango pra ela voltar". O morango ficou lá a deriva e a tartaruga continuou o caminho dela, toda plena, ignorando nossa tentativa de alimentá-la. "Você me fez desperdiçar um morango pra nada", reclamou Anju que é a pessoa mais engraçada a bordo. E seguimos nosso caminho, ida e volta pela ponte, comendo morangos frescos, observando a perfeição e a calma da natureza e seguindo nosso papo profundo sobre amor e a estranha forma que homens e mulheres se relacionam amorosamente. É mais fácil e prazeroso ter um coração partido com esse visual ao fundo.

Kalamata, também em Katakolon, é uma cidade muuuuito legal. Tem uma praça gigante, cheia de lojas e ruas saindo dela, todas fechadas pra carros, cheio de gente - mesmo sendo um dia frio. Tem algo de diferente em Kalamata. Todas as outras cidades da Grécia que paramos pareciam um pequeno Porto, numa pequena Ilha, de onde se vê o mar de qualquer lugar. Kalamata parece cidade grande, o mar se perde da vista e, diferente dos outros portos, muita gente jovem. Nesse eu saí sozinha então, não tenho nenhuma história boa pra contar sobre um dos malucos que trabalham comigo. (Mentira, eu falei um tempão com a Layze, que Mora la na Nova Zelandia e um tempão com o Bruno, lá no Brasil)

Depois aportamos em Náfplion, do outro lado da ilha, que eu li em muitos blogs que era um dos lugares imperdíveis da Grécia. Bom, talvez seja mesmo. É uma mistura de todos. Desde as ruas estreitas até as praças fechadas pra carros, muitas lojinhas, um castelo/forte, flores, comida grega e italiana, gente feliz, vista pro mar. Comi moussaka, fui obrigada a sentar com a colega de trabalho que nao gosto - mas que ja foi desembarcada - mas, por outro lado, sentei também com Marco, que os leitores desse blog já conhecem, o pizzaiolo, que sempre paga minha conta Haha.

Mykonos, nao tem nem o que falar né, minha gente? A ilhota isolada é maravilhosa. Diferente de tudo que já vi. O chão e as casas são branquinhos, as ruas estreitinhas, as janelas e portas azuis ou verdes e as flores todas coloridas. Sentamos num restaurante com atendentes que falavam todas as línguas da nossa mesa, exceto sérvio, claro, pobre Vesna, minha cabinmate que raríssimas vezes encontra alguém que fala. O barman era português. Perguntei como faz pra morar na Grécia e ele disse "casa com um grego" hahaha. A dona do restaurante me falava dos apuros de morar numa ilha e eu disse "eu sei, eu sei", com meu estômago dando pontadas só de lembrar dos apertos de Noronha. Depois nos perdemos propositadamente e procurando o caminho de volta pro mar chegamos ao fim de uma rua que tinha um restaurante de frente pro mar - literalmente. Se vc sentar na ultima almofada e se desequilibrar, cai na água. Na belíssima água do mar grego.

 Infelizmente, nenhum dia na Grécia foi quente o suficiente pra entrar no mar :,-(
Não que eu esteja reclamando, mas a gente aqui no navio fica meio esnobe mesmo. Hoje, por exemplo, escrevo de Livorno, na Toscana, que tem um trem que chega em Pisa em 20 minutos, mas tá 9 graus e chovendo sem parar então os meninos da fotografia diziam "Pobre Kelvish, vai ter que sair pra fotografar a excursão de Pisa". Você pode imaginar? Reclamar que seu trabalho é ir pra Pisa? Tipo eu achando ruim que fui paga pra ir a grecia mas não pude nadar hahaha.

Por último e não menos importante (muito pelo contrário) fomos a Monemvasia, uma cidade murada, fortaleza do século 6. Eu já estive em algumas cidades muradas na vida, na Italia, na Espanha e em Malta, mas nada se compara a Monemvasia. Pra mim, esse sim é o lugar mais imperdível da Grécia - ao menos do que vi - com as ruelinhas e escadinhas que levam pro alto, muito alto. O ponto mais alto está 1.590 metros acima do nível do mar. Quando cheguei na metade, tirei umas fotos e pensei "tá bom, desço daqui", mas tive a infelicidade de esbarrar em Vincenzo no caminho da volta. Nosso querido enfermeiro é um desses viciados em caminhadas. As férias dele sempre incluem trackings de 7 dias ou mais. Ele já fez, por exemplo, o caminho de compostela. Ele disse pra eu confiar nele, que ele sabe subir pedra, eu sei que ele não é de falar muito - e aquele lugar pede silêncio - então aceitei e fui. Ainda bem! Que caminhada! Que vista! Que mar! Que natureza! Descemos e sentamos pra comer algo. Comemos um monte de porções de comidas locais. Eu bebi meio litro de cerveja e ele bebeu um litro de vinho. Toda aquela natureza, todo aquele álcool nos deixou muito emotivos. Esses italianos maravilhosos que choram e abrem o coração. (Depois da minha temporada de quase 3 anos com aqueles congelantes australianos, essa overdose de italianos dramáticos é tipo uma benção). Conversamos sobre o céu, o mar, as férias, os projetos futuros e, aos prantos, ele me contou da culpa que sente pela morte do pai, porque ele é enfermeiro e devia ter feito escolhas melhores. Imagina se ele tem culpa! E o dia que fazia 2 anos da morte do pai foi o dia que tiraram ele da cama mais cedo aqui pra ajudar um hóspede que morreu à bordo (nada demais. Ele tinha 94 anos).

Enfim. A Grécia é maravilhosa. Nas companhias certas, melhor ainda. Vai lá! E vai no meu insta também, pra ver as fotos. @tpacheco1912




domingo, 21 de abril de 2019

Cagar pra França faz parte

Eu tinha esse professor tão legal no colegial. Ele tinha essa sensibilidade pra lidar com adolescentes e talvez - tomara - ele tenha mudado ou salvado a vida de muita gente. Ele dava aula de nem lembro o nome da matéria, mas era técnico em publicidade e ele ensinava photoshop, ciente de que não faz muito sentido ensinar um software que muda o tempo todo então, ele ensinava outras coisas mais úteis e conceituais, como storyteller e eu lembro de uma aula que a gente tinha que desenhar uma musica. Olha que viagem do cara Haha. Amo. Era uma aula em que ele ensinava a pensar, criar e ainda julgava a galera pelo gosto musical. Alguém usou Angra dos Reis do Legião Urbana e ele fez todo mundo analisar a letra pra perceber o quão precária era ela hahaha. Lembro tambem de uma vez que ele separou a sala entre meninos e meninas e teve uma conversa com cada gênero. Não sei o que ele disse pros meninos. Mas pra gente, ele ensinou a importância de cagar pra opinião alheia - tão importante quando se é adolescente - lembro dele dizendo "não se preocupe em ser alta, baixa, magra ou gorda, ter cabelo escuro ou claro, ser gay ou hetero. O padrão de beleza do sapo é a sapa e não a elefanta. Sempre vai ter alguém pra gostar de você do jeitinho que você é".

Depois ele me deu um emprego, virou meu chefe, me ensinou a trabalhar e, depois, virou meu amigo querido. Mas será pra sempre meu mestre. Eu lembro também que ele disse que alguém disse que não adianta viajar porque, não importa quão longe você vá, você vai junto.

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"Minha mãe tem problemas renais e agora está piorando, estou preocupado" me disse o sujeito do combate ao incêndio, que nunca antes tinha falado comigo. - Eu sei que vai dar tudo certo. Vou rezar por ela, disse eu.

"Eu odeio meu trabalho", me disse, passando apressado pelo corredor, o sujeito engraçado do bar, que sempre faz piada no fumódromo. - Amanhã vai ser outro dia, gritei, antes que ele virasse à esquerda e não pudesse mais me ouvir.

"Não consigo levantar. Eu preciso dormir mais", me disse minha cabinmate enquanto eu tentava acordá-la - O navio do seu namorado está aportado aqui do lado e ele disse que te esperava às 10h. Você disse que ama ele então, levanta Catso! Disse eu, rezando pra ela sair logo e eu poder dormir em paz.

"Ele disse que me ama e quer casar comigo. Não sei o que fazer" contou a moça casada, sobre o amante. Nesse caso eu não soube o que falar. - E aí? Foi só o que pude pensar na hora.

E teme aquele homem da Bulgária, de cara fechada. Sei lá qual é o trabalho dele, mas ele nunca sorri ou diz oi. Mas tem os outros 300 crew members que estão sempre sorrindo.

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Imagine um ciclo de vida de 7 dias. Você conhece gente, faz amigos, aprende algo, faz algo de útil, algo de divertido, come, dorme, respira, se reproduz e... tudo isso morre.
Outra semana, outras pessoas, outra comida, outro país. Começa tudo de novo.
A cada semana, trocam os passageiros. Gracas a Deus, pq ninguém é obrigado a aguentar um chato por mais de sete dias.
E infelizmente, porque eu poderia passar o resto da vida conversando com Pietro e Liliana, meus amigos italianos do norte, ricos, finos, elegantes e sinceros - e velhos bem velhinhos - que passavam todo dia só per salutare e jogar conversa fora, ainda que a gente não falasse nenhuma língua em comum.

Pietro e Liliana foram embora. Minha amiga chinesa maluca de jogar pedra e carinhosa de dizer chega, foi embora. Meus amigos romenos foram embora. Eu adoro os romenos, todos eles. O fotógrafo que era meu guia particular porque já fez 9 contratos e uma das poucas mentes brilhantes around. O chefe dele, que me dava chocolate, deixava eu dormir na cama dele que é enorme, de chefe, e me dava cerveja escondido na cabine. Foi embora meu amigo italiano baterista com quem eu conversava horas e horas sobre música e candomblé. Foi embora meu namorado que namorou comigo com data pra acabar porque acaba o contrato, tem que acabar o amor.

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Meu pé dói. Muito. Só o esquerdo. Não sei porque. Tem 3 calos que formam um triângulo. As vezes eu manco pra ver se aliviando o peso, alivia a dor. Eu queria andar de chinelo pro pé respirar, mas não pode comer de chinelo tem que ser sapato fechado. E não pode trazer comida pra cabine e tem hora pra comer. Não é exatamente uma vida livre não poder escolher o que calçar para ir comer ou a que hora de tem fome.

O cara que chegou pra trabalhar com a gente veio pq precisava de gente q falasse frances. Ele não fala frances, nem ingles. Na verdade, ele nao fala. Sei lá quem entrevistou ele e mandou ele pra cá. Só sei que eu falo "por favor, coloca as bolsas nessa mesa" e ele desmonta a mesa e guarda.
E a mina então. Ela pelo menos sabe falar um monte de línguas muito bem. Mas você fala "2 e 2 são 4" e ela responde: entendi, mas tenho deficit de atenção então, desenha pra mim e repete por 4 dias, 7 vezes por dia até eu aprender de vez.

Eu engordei, né? Pão e sobremesa em toda refeição é foda. E aquele bendito croissant de nutella no cafe da manhã...

Rola uma deprê juntado tudo isso.

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Hoje eu tô esnobando num nível "caguei pra França". Estamos em Marseille, está frio, é tudo muito longe do navio. Vou ficar deitada de perna pro ar que ganho mais. (E gasto menos).

Perna pro ar também é quase uma mentira. Não existe um único dia de 24 horas de folga. Sempre tem algo pra fazer, nem que sena treinamento quando é mandatório usar uniforme.

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No fim, a vida é ela mesmo. Não importa onde você esteja.
E você é você mesmo. E é melhor se bastar.
E os outros também são eles mesmos. Chatos e legais. Pessimistas e otimistas.

E vai doer o pé ou o coração e afligir a mente.
Vai ser tudo igual.

Só resta mesmo decidir o plano de fundo. Quantos layers você vai colocar. Pode ser sua casinha com seus filhinhos ou num navio roletando o mundo. Eu, de minha parte, por enquanto, prefiro ficar nessa confusão de não lembrar se aquele café maravilhoso foi em Savona ou Salerno e não saber se eu estava na India mês passado ou retrasado. Ha ha. No fim, é mais cômico do que trágico. É só a vida. E é só como a gente decidiu olhar pra ela.

sábado, 6 de abril de 2019

O lado árabe

São 8h44da manhã em Aqba, Jordânia. Vamos fazer uma viagem de onibus de quase duas horas até Petra.
O visual, pra mim, é muito, muito impressionante. São montanhas consideravelmente altas. Secas. É região de deserto. Se não me engano, o guia mencionou que 70% da área do país é deserto. (Me deu sede só de escrever isso).
Elas são muito marrons. No mínimo uns 7 tons de marrom.
E atrás delas um céu incrivelmente azul e limpo, apesar da previsão de que estava nublado. Se eu tirar uma foto, vocês vão dizer que é montagem. Aliás, foi por isso que abri esse bloco de notas no celular enquanto estou no ônibus. Porque eu pensei "isso é tão bonito e imponente, precise tirar uma foto pra mostrar pros meus amigos. Mas olhando daqui, com meus olhos, parece uma colagem mal feita de photoshop, imagina com essa camerinha meia boca do meu celular".
Eu sei que uma imagem vale mais que mil palavras, portanto, eu descrevo aqui e você joga no Google Imagens pra ver se bate com o que imaginou.

Enquanto isso, o guia vai mostrando a nossa esquerda um site eleito patrimonio da humanidade pela Unesco, com rastros arqueológicos que mostram que já tinha gente vivendo aqui 12 mil anos atrás. Eu nem sei quanto tempo é isso.

Aliás, peço desculpas publicamente pela minha ignorância. Ontem, quando a gente estava do outro lado do canal, em Eliat, Israel, dava pra ver a Jordania, na estrada a caminho do Mar Morto e Forte de Massada. De um lado, Israel, montinhos, mais baixinhos, com verdadeiros tesouros geológicos, com formações que estão aqui desde que o planeta começou até mais recentes, de 200 e poucos anos, segundo o guia.
Do outro lado, a Jordânia com esse visual que te contei no começo. A explicação é o movimento das placas tectônicas. A que está do lado de Israel está se movendo pra baixo. A do lado da Jordânia, pra cima. E não é pouco. São 2,5cm por ano.

Tem essa incrível história natural da terra. Tem o fato geográfico/político/cultural de Israel e Jordânia estarem no meio do caminho entre Africa, Asia e Europa - o que faz com que todos os fatos importantes dos primórdios da civilização da nossa era tenham acontecido aqui. Tem o fato de ser terra sagrada. Moisés e Jesus Cristo passaram por aqui e os romanos também vieram invadir... E eu, meus amigos, não sei NADA sobre isso.

Não entendo de geologia, não conheço as tretas que por aqui rolaram e nunca li a Bíblia.

Mas tudo bem. Andar por aqui já abre uma janela e ouvir essas primeiras histórias já vai esclarecendo as coisas. Depois fica mais fácil de entender quando eu volta pro Brasil e comprar aquele livro chamado Breve história do mundo hahaha.

O que posso dizer por agora, do ponto de vista do turista aleatório é que é muito legal. Programe uma visita por aqui. Jordânia é mais pobre e feinha. Mas Israel é rica, limpa, organizada, moderna e tem uma estrutura muito legal para turistas. Sem falar no wifi onde quer que você esteja. O clima, no sentido de energia do lugar, é maravilhoso. É leve - apesar dos moleques novinhos circulando em todos os lugares portando fuzis. E, repito, os visuais são incríveis.

Ainda em Israel, a área de turismo na região do mar morto é, como diria meu tio Marcelo, "de cair o cu da bunda". Sem falar no fato de ser o lugar mais baixo da terra - acho que 450 metros abaixo do nível do mar - e uma experiência maravilhosa que é boiar até sem querer, por causa da alta concentração de sal, tem ainda a infra e beleza do lugar. Olha, quem avisa amigo é: visite Israel.

Eu estava conversando com um passageiro australiano e ele me disse que é a quarta vez que visita o país e que passou 14 dias viajando de ponta a ponta - e que é assim em todos os lugares. Seguro, organizado, com gente bacana que fala inglês. Uma bela experiência.

Mas se você está considerando a Jordânia, eu te digo que Petra é magnífica! É uma surpresa atrás da outra enquanto se caminha por lá. E pra quem gosta de história, é mais que um prato cheio. É um caldeirão, que começa 200 anos antes de Cristo e vai até pouco tempo atrás, quando o governo local tirou os beduínos de lá pra investir no turismo e patrimônio.

E tem também Omã! Na subida das Maldivas pro Mediterraneo, via Canal de Suez, paramos em Omã. Foi meu primeiro contato com o deserto daqui. Tinha camelo andando por todo lado e o céu era embassado por causa da areia. E, andando nesse visual, de repente, do nada, aparece um mar maravilhoso. Um azul único, com as montanhas ao fundo. Impressionante!
Salalah, a capital, também é super limpa, organizada e com cara de rica. Mas, aparentemente, tem muito mais espaço que gente. A distância entre as casas, os bairros e as cidades (estivemos em 3 num único dia) é muito grande. Não consegui decidir se achei legal ou estranho. Mas também acho que vale uma visita. É tão diferente de tudo que estamos acostumados no ocidente, que vira belíssimo.

Eu achava que estava preparada pra ver as novidades, mas essa passagem pelo mundo árabe maxeu demais comigo. Atiçou minha curiosidade, me deu vontade de ficar mais, entender melhor e me lembrou que existem muito mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.

Em breve chegaremos na Grécia. De lá, contarei mais. No mais, é o que já disseram e todo mundo já sabe:

Navegar é preciso.
Viver não é preciso.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Quero morar em Mumbai

Você sabe como é... Você já viajou pra uma cidade que gostou tanto, que quis morar lá.


Você sabe como é. Você já se apaixonou e lembra dos mistos sentimentos de amor e ódio, paz e medo, tudo junto misturado.


É tudo que eu sinto agora por Mumbai. Eu não quero ir embora.
Eu amo Mumbai! Eu estou perdidamente apaixonada por esse caos.


Eu lembro da primeira vez que eu desci do navio aqui, 1 de março de 2019, 16 dias atrás. Fui com meu chefe, que trabalha em navio desde 1987, logo, é o melhor guia que eu posso ter em qualquer porto. Era uma sexta-feira, pouco antes do meio-dia. Eles me disseram pra preparar o espírito porque ia ser loucura. Eu ri por dentro. Eu sou de São Paulo, oras! E acho Nova York quase uma roça...


Mas assim que o taxi saiu do Porto e chegou numa rua mais central,  eu perdi o ar. Acho que fiquei umas 3 horas sem falar.  Só tentando enteder.

É MUITA gente. Muita! Se você acha que a praça da Sé às 7h da matina é demais,  é porque você nunca esteve em Mumbai.  Toda hora, qualquer dia, todo lugar,  é mar de gente. Ja mencionei que é MUITA gente?


E muito carro. E eles buzinam muito. Sabe aquelas cenas que a gente vê nos filmes,  daquele trânsito maluco? É tudo verdade. Buzina a todo segundo, incessante, vaca no meio da rua, gente atravessando em qualquer lugar, sinais e faixas completamente ignorados... sabe quando você vai andar de buggy em Natal e o motorista pergunta "com emoção ou sem emoção?" Aqui é 100% com emoção,  sem o benefício da escolha.


Nessa área central, perto do Porto, não fosse a desorganização, eu diria que estava em Sydney, na Australia. Os mesmos prédios,  a mesma arquitetura,  a mesmíssima estação de trem. Igualzinho. Sério. Pretty british.


Vira ali na frente,  e chegou na 25 de março. Ruas e mais ruas de comércio.  Tudo super barato. E uma zona. Mar de gente outra vez. Buzina, calor, cabras dormindo na calçada, ratos passeando no meio fio. Sujo, sujo, sujo. É tudo muito sujo!

E muito quente!

Mas as pessoas,  entenda,  as pessoas na Índia! Que gente maravilhosa.

Teve ainda o almoço e outra caminhada. Um café no Starbucks e uma parada no pub pra uma Kingfisher,  a cerveja Indiana que é delícia.


Dali pra frente, não lembro a cronologia das coisas. Ficamos 3 dias em Mumbai, navegamos mais pela Índia,  Sri Lanka e Maldivas e voltamos pra Mumbai dia 14 e no dia 17, me despedi de Bombai. Infelizmente.


Lembro que foi na madrugada do segundo pro terceiro dia em Mumbai que andei pelo andar 7 e meio. (Lembra? Quem quer ser John Malkovich?) Desde os ataques terroristas do Paquistão, baladas e alcool tem que acabar 1h30am.

Mas eu não queria parar. Estamos em Mumbai! Duvido que não tenha opção. Meio a contra gosto, os amigos do navio que são daqui me levaram pra esse lugar maluquíssimo. Uma rua super movimentada, cheia de jovens sob efeito de alcool, algumas opções de comida, iluminação pública que funciona de forma intermitente, verdadeiras crateras no aslfato e uns mosquito pentelho picando nosso calcanhar. E no meio disso tudo, esse portão que dá para o que parece os fundos de um restaurante zuado. Mas é, na verdade, a entrada principal desse bar que paga taxas diárias altíssimas pelo direito de vender cerveja depois de 1h30am. Quando entrei não entendi nada. Passa pela cozinha, por um monte de saletas com mesas e cadeiras vazias e luzes apagadas. Negocia uma cerveja com o dono e pronto. Vai beber lá fora disfarçado. Pedi pra usar o banheiro. "Lá em cima. Sobe a escada". Quando subi e abri a porta, entrei num universo paralelo.
Dezenas de mesas e cadeiras lotadas de gente comendo e bebendo e rindo. Iluminação vermelha, tipo puteiro e um teto muito baixo. O lugar tinha no máximo 1,60m de distancia entre o chão e o teto. Tipo o andar 7 e meio meeeeesmo.
Foi nessa hora que eu pensei: essa cidade é das minhas.

Durante o dia, passando a rua do andar 7/2, um pouco a frente, depois de cruzar o gigante oval,  onde eles jogam cricket, parece que você tá andando em Copacabana. Os prédios, as árvores... Aí vem a marina,  que é como qualquer avenida a beira-mar do mundo, com a diferença que você está em Mumbai, logo, o céu é sempre cinza de poluição. Mas os ricos tem casa lá.  E os hoteis babado também são ali.

Vai seguindo e você chega na famosa lavanderia. Uma grande favelona em frente a prédios riquíssimos,  tipo Morumbi. No meio da favelona, centenas e centenas de pessoas lavando e secando roupas e lençóis daqueles hoteis da marina. 2 rupees por peça. Pra comprar um pacote com 6 meias no camelô,  você precisa de 150 rupees.

Tem Mumbai pra todo gosto. Tem área só de escritórios, só de uma religião ou de outra ou de outra - tem um monte de religião, um monte de museu, tem jardim, tem lago, tem um monte de shopping e tem o cinema mais bonito que eu já fui na vida! Todo de mármore. Nem parece Mumbai, de tão limpo e organizado. Até num escritório eu entrei, num 4 andar de um prédio, e dentro do escritório também é uma zona. Eu precisaria de mais tempo por aqui pra entender porque é tudo tão bagunçado e sujo. Talvez pra eles não seja...

Mas, saindo de Mumbai e falando do país que eu conheci, que inclui ainda New Mangalore, Goa e Cochin, fato é que a Índia não é lugar pra ver calçada limpa. A Índia é lugar pra quem quer evoluir, aprender a viver, entender o que é amor e cortesia.

Eu achava que cortesia era dar passagem, pedir por favor e dizer obrigada. Mas na Índia, cortesia é dividir absolutamente tudo o que se tem. E se o que tiver for pouco, ficar sem pra dar pro outro. Você anda por aí e ouve o tempo todo a frase "se você está feliz, eu também estou feliz". E vê as pessoas cedendo em prol do próximo.

Amor é um indiano sendo apresentado a você e, quando você diz seu nome, ele olha pra você com a mão no coração enquanto te ouve. E se tem um cachorro ou uma vaca ou uma cabra na rua, ele te lembra: - Olha onde anda, não vai pisar no bicho.

Eu queria poder compartilhar todas as fotos, montar um guia "visitando Mumbai em 6 dias", explicar porque em Goa tem uma cidade chamada Vasco da Gama e já ninguém mais fala português por lá, contar do templo hindu em New Mangalore e da moça que a gente conheceu no shopping e que passou a tarde ciceroneando a gente pela cidade ou da minha divertida experiência no post office de Cochin, onde me mandaram postar o cartão sem selo e sem pagar (e que eu não sei se um dia vai chegar pro meu sobrinho no Canadá), mas não dá. Ser tripulante de navio é muito intenso, muito rápido, a internet é um desafio, as informações e novidades e nomes e línguas... talvez o fato de eu já não ter 20 anos... tudo isso dificulta armazenar e organizar informação.

Mas as sensações, essas sim, ficam. E pra mim, o que ficou da Índia, de onde parto hoje, rumo ao mediterraneo, foi um vontade louca de morar em Mumbai por algum tempo e um coração cheio de amor e de fé no ser humano.

Se algum dia você achar que somos uma raça estragada, por favor, dê uma passada na Índia pra aliviar sua alma.








domingo, 24 de fevereiro de 2019

Lord Ganesha - um sari

O Cruzeiro que estamos fazendo no momento (são 3 meses dele) passa pelo Sri Lanka, Male,  a capital das Maldivas e India (4 portos diferentes). Em todos os cruzeiros, basicamente,  metade dos passageiros é indiano,  bem como o lugar que mais passamos tempo é na Índia.  Por isso, numa das noites, o tema é Festa de Bollywood. Nessa noite,  todos são convidados a se vestir como uma estrela do cinema da índia. O diretor do cruzeiro pediu pra gente na loja entrar na onda e me descolou um sari. Ou,  como se escreve por aqui, saree.

Achei a ideia divertidíssima e o sari que ele me descolou, maravilhoso. Estava contando os minutos pra vestir a poderosa roupa.

E aí,  começou a saga.
Um sari é um pedaço de pano com aproximadamente 6 metros de comprimento.

Impossível vestir sozinha pela primeira vez.

Temos um gentil rapaz italiano que trabalha aqui que sabe  vestir as pessoas e foi ele que colocou o sari em mim.  Com uma agilidade tão impressionante,  que não deu tempo de eu entender pra aprender. Ele explicou que existem uns três tipos de dobras, um pra casamento, outro se vc for uma princesa e um terceiro,  comum,  que ele fez pra mim.

Sari pronto e começa o drama...

Na volta pra minha cabine, percebi que andar não seria tarefa fácil. Pra que ele fique bem preso, a gente veste uma legging por baixo e o elástico dela faz as vezes de cinto.
Comecei a dar passos mais curtos pra não desfazer o belo emaranhado que é a parte da frente da saia.
Três lances de escada. Já fui logo pisando na porra do sari e desfazendo o tal belo emaranhado. Enfiei de novo pra dentro do elástico e comecei a rezar.
Na minha cabine, fui fazer uma maquiagem indiana. Li na internet que o forte delas são os olhos. Peguei uns cílios postiços com uma amiga. Mas eu nunca tinha usado eles então,  coloquei do jeito que achei que devia. Foi lindo. Parecia que eu tinha,  literalmente,  duas camadas de cílio.  Tipo uma vesga mesmo colocando a traquitana.
 Quando o olho estava quase pronto,  achei que faltava uma sombra preta na lateral e pedi pra minha cabinmate fazer pra mim. Pra que ela pudesse enxergar bem meus olhos, sentei. Só que a gente mora numa cabine de navio 1x1. O único lugar com luz suficiente e que dá pra sentar, é na privada,  colada no chuveiro. Aí, metade do meu sari esfregou na água do chão do banho que eu havia tomado a pouco. Sari molhado, sombra perfeita - prum filme de terror - parecendo que eu tinha tomado uma porrada em cada olho.

Desci pra comer algo rápido antes de começar o trabalho e derrubei suco de maçã na parte de cima do sari.
Agora sim. Simetria perfeita. Sujo em cima e em baixo.

Fui fumar um cigarro digestivo quando encontrei Anju,  minha amiga hindu das mauritius islands. Ela disse: "quem fez essa merda? Não é assim que veste um sari" e revirou meu sari e me obrigou a colocar a barriga de fora. Minha barriga de 5 meses de gravidez  (não tô grávida,  gente. É banha mesmo. Super anti estético). Mas aí lembrei de todas as indianas que vejo por aqui e, aparentemente  barriga grande é tendência por lá (dizem até que é pra segurar o sari) então,  desencanei e botei a minha pro povo ver também.

Precisávamos correr pra tirar a foto do time e lá fui eu, pisando no sari mais um lance de escada acima. Chegando lá, ele já estava escorregando todo. Tive que AGACHAR pra foto. Quando fui levantar, caí.  Porque ou eu caía com o sari, ou ele caía sozinho e eu ficava semi-nua. Ele tava preso embaixo dos meus pés e enrolado nas minhas pernas. Depois de levantar com 4 metros de pano em mim e 2 na minha mão, pra solucionar o problema, resolvi enfiar tudo pra dentro da calça. Aí meu sari virou a calça do Nerso da Capitinga. Todo arreganhado e a legging aparecendo por baixo.

Chegando na loja, um indiano veio me dizer "você está muito linda com esse pano, mas esse estilo está mais pra sri lanka. Se me permite,  vou fazer ele virar um sari indiano" e lá vou eu denovo deixar outra pessoa mexer nele.
Eu nunca fui tão bulinada na vida igual naquele momento. Mas ele me jurou que ajeita o sari da esposa todos os dias e por isso ele sabe fazer. E pra dizer a verdade pra vocês,  ele estava com um olhar mais preocupado com o valor cultural da coisa do que com olhar de quem queria passar a mão em mim. Mas também,  se quisesse, qual o problema, né?  Deixa o homem aproveita as férias hahaha.

Aí ficou lindo. Só que cada vez que alguém vem comprar algo eu tenho que fazer um alongamento, por trás da mesa,  pra alcançar o produto.  E depois, um agachamento,  pra pegar a sacola.
Agora imagina um sari alongando e agachando.

E essa merda ia caindo. E ia ficando desconfortável.
E eu rezando pro relógio dar 23h pra acabar o trampo e eu tirar e esse caralho de pano.
E dava meia noite mas não dava 23h.
E as pessoas passando e falando que eu tava linda. E eu olhado o catso do relógio, sorrindo e dizendo "estou adorando estar indiana" e nada de 23h.
O cliente queria entrar no provador pra experimentar e comprar a roupa e eu lá dentro.  Tentando ajeitar o sari.
Acho que entrei 27 vezes no provador aquela noite.

22h58.  Fechamos as portas. Arranquei o sari.  Fiquei de legging e camiseta. Agradeci aos deuses,  pedi perdão e jurei que NUNCA MAIS NA MINHA VIDA eu uso um saree.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Minhas meninas

Eu divido cabine no navio. Eu vim decidida a gostar da pessoa que morasse comigo e me adaptar às loucuras dessa pessoa, afinal,  vamos dividir um cubículo por Deus sabe quantos meses. É uma pessoa que caga, ronca e se troca na sua frente como se fosse sua melhor amiga desde sempre. No meu caso, é ainda a pessoa que te faz ficar acordada quando você quer dormir, porque tem muita história pra contar. Quando cheguei,  tinha a italiana. Agora, a serva. Eu gosto muito das duas e as considero pessoas deveras interessantes. Vamos aos fatos:

A italiana, que morou comigo por 15 dias, saiu do navio após um ataque de nervos (literalmente). Mas nos 15 dias que vivemos juntas, nós nos divertimos muito e até choramos.  Quando ela tinha 6 anos, os pais dela decidiram mudar para os estados unidos e por lá ela viveu mais de 15 anos, ilegalmente, nos guetos da Califórnia. Ela brinca que é por isso que fala inglês com sotaque de mano. Também fala espanhol fluente e, obviamente, italiano. Ela é linda! Toda gostosona,  cabelo pintado de ruivo, adora ficar torrando no sol nas horas vagas e usa cílios postiços e salto alto pra ficar ainda mais poderosa.
Tem um dom. Cantar. Diz que a galera vai a loucura quando ela canta Amy Winehouse - eu não tive a chance de ver, só ouvi falar mesmo.
Ela é de peixes. E sem querer seguir estereótipos astrais, devo contar que ela adora beber. E bebe mesmo.  Uns bons vinho. E gosta de dançar e estava sofrendo por amor, porque teve um envolvimento com um homem safado dentro da navio que, por sua vez, era casado. Mas ela já carrega uma outra dor, de um cara com quem ela namorou sete anos,  mas acabou porque, definitivamente, eles não tinham os mesmos objetivos de vida. Uma pena, segundo ela. Ela também já foi aeromoça e, se voltar pro navio, talvez seja cantando.
Ela guarda umas mágoas, desconfia da bondade de todo mundo, tem umas invejas e uma boa dose de maldade no coração, mas ela também já fez Yoga e leu Osho e anda pra cima e pra baixo com a oração de São Francisco.
Na parede dela tinha um email que a mãe dela mandou, dizendo pra ela ser forte. E o pai dela joga cartas de tarot. Eu não lembro se ela tem irmãos. Foi o primeiro contrato dela. Acabou antes do combinado e ela se foi, aos 25 anos, com essa experiência maravilhosa. Eu dei um abraço bem forte nela e mesmo sabendo que ela não ia acreditar, falei a verdade pra ela - que ela vai estar pra sempre na minha memória,  porque me ajudou, me ensinou e foi a primeira impressão dessa nova e querida experiência da minha vida.

Cinco minutos depois da italiana sair, chegou a serva. Ela é quase da minha altura, a voz dela é mais grossa que a minha, ela é loira, magra, tem um cabelo muito louco, curto, raspado atrás,  despenteado de forma organizada na frente e dos lados, ela usa um óculos preto e fala rápido.  Muito rápido.  E muito. Às vezes, enquanto ela fala, eu fecho os olhos e respiro fundo, pra ver se a minha respiração alivia ela também,  porque a sensação que eu tenho é que qualquer hora ela vai ela explodir.
Ela tem 31 anos, está no quinto contrato, mas não tem idéia de quantos países ela já foi trabalhando embarcada. Na verdade,  ela veio trabalhar em navio porque quando está em casa, só faz pensar no ex-namorado.
Eles namoraram 4 anos. Ele é o cara mais perfeito que ela já conheceu.  Ser humano evoluído,  sabe? Nunca falou mal de ninguém em 4 anos! Ela traiu ele. Duas vezes.  E ela lembra de ter tido essa vontade de machucar ele de propósito, embora não saiba bem porque. Ele ficou sabendo e disse "tudo bem. Se vc me ama e quer ficar comigo, tá perdoada". Mas o problema é que ele teve câncer.  E morreu. Jovem. E agora ela não tem como resolver essa culpa.  Ela cuidou dele até o fim e embora quase quatro anos já tenham se passado, é difícil se relacionar com outros homens. E se eles morrerem? E se ela fizer algo errado de novo?
Antes de vir pra esse navio, a mãe dela disse "filha, por favor, transe". A mãe dela é viúva. O pai dela morreu dois anos antes do namorado.  Mas são dores diferentes.  Segundo ela, o pai é de se esperar. É da natureza. Mas o namorado não podia.
Ela nasceu na Iugoslavia. Agora a mãe dela é croata e ela é os dois irmãos mais velhos,  sérvios. Os sobrinhos também.  Ela tem dois. São uma família unida e querida.
Ela é especialista na nossa empresa. Sabe tudo de produtos de beleza e ganha muito bem por isso.
Ela tem uma curiosidade real pelas pessoas. Ela encosta nos clientes e nos colegas,  faz perguntas olhando no olho e está sempre rindo. É uma presença agradável. Eu durmo,  acordo e trabalho com ela. Mas na nossa hora de break, a gente vai junto comer pra poder conversar mais. Eu gosto das piadas dela e sugo a experiência dela, que ela não tem problema nenhum em compartilhar.
Ela é inteligente,  lê muito, discute política e o objetivo de vida dela é salvar o mundo. Em breve ela vai estudar psicologia e atender as pessoas de graça.  Ainda não sabe como,  mas vai. Amém.



domingo, 27 de janeiro de 2019

Que carino!

Eu conversei com 3 pessoas que trabalharam em navio. Uma, camareira, desistiu no décimo primeiro dia. Outra, da recepção, no quarto mês e outra, do entretenimento, que está nessa há anos e fez disso sua vida profissional.
Os conselhos que recebi (2x1) foi pra não ir, porque não era pra mim. Mas, sou dessas, não me conformo com conselhos, apenas com experiência própria e por isso embarquei.
Hoje faz 13 dias que estou no navio e já entendi pq elas não gostaram.  Porque qualquer posto - exceto o de vendedor - é muito cruel. As pessoas não descansam, não param, não respiram, estão sob constante pressão!
O de vendedor da loja,  que é meu caso, não.  Trata-se de duty free. Aportou, tem que fechar. E só resta dormir ou passear. Ou, no meu caso, estudar italiano e ler.

A minha pressão é pessoal porque, apesar de ser uma vendedora que vem desempenhando boas vendas, tenho certeza que se falasse italiano,  ia vender ainda mais. Estou na Costa, cia italiana,  cheia de clientes de lá. E gente... É uma delícia!

Depois da imersão na fria, quieta e saxã Austrália, viver no meio dessa latinada, esse bando de italiano que grita e faz piada e beija e senta na sua mesa, é maravilhoso.  É caloroso. É divertido.

E a maioria dos passageiros são velhos. Dizer "não falo sua língua" e não dizer nada é a mesma coisa. Eles vão continuar falando. Gente da Itália,  da França, da Polônia, da Alemanha ... Não importa.  Eles falam e você que se vire pra entender. O que eu acho ótimo pra treinar haha.
Além de ser engraçado.  Às vezes eu respondo em português mesmo.

Mas eu decidi que a primeira língua que vou aprender é o italiano  (e a segunda o francês,  porque eles curtem gastar). E, piano piano, vou tentando. A moça que divide quarto comigo é italiana, os brasileiros queridos que me acolhem falam muito bem e os meus amiguinhos do crew também são italianos.  E todos me ensinam pacientemente. Aos poucos  (embora eu quisesse que fosse mais rápido), vou aprendendo.

E eu já tenho uma palavra preferida: carino.
Significa fofo. Olha que fofo!
Repete comigo, com sotaque italiano, mexendo a mão: aaahhh  ma che carino!

Eu também estou feliz porque desci do navio. Foram 11 dias só a bordo porque não tenho o tal documento pra descer na Índia, mas agora estou bem plena passeando pelas ilhas Maldivas. Me sentindo a própria Pedro Andrade.

Sendo assim, vou parar de escrever e dar uma mergulhada pra ver os peixes carinos.

Ciao!

sábado, 19 de janeiro de 2019

Mesquitas, pizzaiolos e drills

Dia 3

15 de janeiro. Início do meu contrato de 6 meses. Acordei às 5h, comi umas frutas, fiz Check out, pedi o uber. Às 6h30 eu estava no local combinado pra encontrar meu agente de porto na hora que ele marcou: 6h45. Mas ele só chegou mesmo às 7h15.
A viagem de Uber foi divertidissima.  O motorista me explicou que o sri lanka tem 4 principais religiões diferentes e hoje era dia de feriado para uma delas. Pessoas daquela religião não precisam sair pra trabalhar nesse feriado e as fábricas,  por exemplo, respeitam isso. Não era o caso dele, que é muçulmano e, no caminho,  me mostrou a casa dele, a foto do filho, os locais que fazem doces típicos, perguntou se eu queria parar na padaria e, por fim, fez uma pausa pra que eu pudesse tirar uma foto em frente à segunda maior Mesquita da cidade. Não consigo postar aqui então,  vai lá no meu instagram pra ver.

Ao chegar ao hotel que era o ponto de encontro, de repente desceu um monte de gente junto. Comecei a perguntar se eram crew, pra checar que eu estava no lugar certo (afinal eu estava lá sozinha a meia hora) e eram. O mais simpático veio me dar mais moral pra que eu já pudesse sair fazendo um milhão de perguntas. Marco, o pizzaiolo italiano está no trabalho há SEIS anos. Ele me falou: relaxa que esse processo vai demorar muuuuito.

Entramos no ônibus só às 8h30. Cerca de 40 pessoas com suas malas. Todos para embarcar a trabalho. Portaria vai, portaria vem, pega passaporte, autoriza passaporte, só chegamos na porta do navio às 11h30, quando conheci Viscenzo, o enfermeiro. E aí,  Viscenzo,  que horas vão dar comida pra gente? Porque eu comi pela última vez às 5 da manhã.
- Pode começar a desmaiar porque ainda vai demorar muito pra liberarem a gente.

Cheguei na Itália.  Estou no Costa NeoRiviera.  Já chegam gritando teu nome pra te dar um crachá provisório.  Leva tua mala pra lá,  espera aqui, chega outro italiano gritando: vai todo mundo pro crew bar. Documentos lá.  Depois treinamento, às 3, no bar do deck 6.

Às 3???? Eu preciso comer, catso! (Pensei,  não falei).

Todos sentados no crew bar, esperando.  O enfermeiro, docinho de pessoa, me ensinando tudo que pode, pra me acalmar. Chega um anjo e diz: Thaís?  Sou seu gerente.  Aqui está um litro de água pra você. Assim que acabar aqui, me encontra na loja.
Água!  Um oásis! Mas sei lá que horas vai acabar aqui. Tem treinamento às 3 no bar do deck 6.  (Como se eu soubesse onde é o bar do deck 6). - Ok, volto mais tarde pra gente combinar. E lá se foi meu gerente da Costa Rica, tão atencioso, o único que veio dar boas vindas ao staff . Dia de sorte!

Então vem o pessoal buscar os documentos e eu descubro que, aqui dentro, sou Silvestrini. Cagaram pro meu Pacheco.  "Lady Silvestrini vene qui" gritavam. Assina documento daqui, entrega documento de lá,  confere papelada, pega chave da cabine "sua cabine é provisória. Vou te mudar no dia 29 então,  nem tira tudo da mala". Vá benne... tutti posto, eis que chega ele de novo: meu gerente. Dizem que o céu ou inferno do seu contrato depende do seu gerente.  Pois o meu fala português e me levou pra um rolê no navio: aqui você come, aqui você dorme, aqui você lava sua roupa, aqui você pega seu uniforme
- Fulano! Viemos pegar o uniforme dela!
- Imagina,  olha o tamanho dessa mulher. Não tenho. Volte daqui 2 dias.
Me levou no tal bar do deck 6 e me avisou pra estar lá 10 minutos antes.

Meu gerente, por tudo que é mais sagrado, me deixe comer! E lá fomos nós. Terminado o almoço de 20 minutos, era hora do treinamento.  Segurança. Estrutura do navio, o que fazer em caso de emergência,  pra onde ir, quem sou, onde estou, quem aqui está no primeiro contrato? Tá bom, vamos pegar leve com você. Curso de segurança,  dessa vez não de acidente, mas de caso de polícia mesmo. Fim do curso,  corre pra se trocar, corre pra loja. 17h15, hora de começar o trabalho. Puxa essa mesa pra fora, ajeita essa vitrine, é assim que usa a registradora e... Se vira nos 30.
Aí chega o povo falando italiano.  Excusa, io no parlo italiano e a galera continua falando horrores em italiano,  em francês,  ninguém fala ingles, mas levar o produto no caixa e pagar, todo mundo sabe. Então beleeeza.

45 minutos de break. Comida oleosa pra porra, encontrar a área de fumantes, finalmente um cigarro! Escovar os dentes, correr pra loja. Esse barco tá balançando mais que brinquedo de parque de diversões. Tá calor. Que horas são?  Quero vomitar. 23h45.  Fim do expediente.  Meu chefe me dá um remedinho pra enjoo. Minhas costas doem.  MUITO. Entro na cabine,  conheço minha colega de quarto, uma italiana mais doce que doce de batata doce. Subo na beliche difícil de subir.  Puta merda,  esqueci o carregador. Tenho q colocar o despertador no celular . Não consigo me mexer. Tudo dói.  Que horas são?  Quem eu sou? Efeito Jet leg legal. A docinho levanta da cama abre minha mochila e pega meu carregador pra mim.

Dia 4
Sea day.  A loja fica aberta o dia todo. Hoje eu vou de salto pq não sou obrigada a essa dor nas costas. Abrimos às 9,  mas eu tenho treinamento.  Como entrar no salva vidas, qual minha função em caso de emergência, curso de combate à incêndio,  curso de meio ambiente. Corre pra loja. Vende, vende, DUAS horas de break.  Dormir. Acordar. Volta pra loja.  Vai até meia noite.  Dormir.  Começo a conversar com a docinho, não consigo. Durmo no meio da conversa.

Dia 5
Aportamos em Goa, na Índia.  Vamos embora só às 17h15. Até lá,  só organizar o estoque de manhã.  Mas eu tenho treinamento.  Como fazer o drill de passageiros, vamos ter auditores no navio. Decore isso, aprenda aquilo,  prova no crew  bar, outro curso, desce pra loja, ajuda a terminar de arrumar. 13h. Almoço. Posso dormir? Não.  Preenche esse formulário, leia essas instruções,  esteja de volta às 17h. Trabalha até meia noite com 45 minutos de break.  Já decorei os nomes dos meus colegas de loja, da Rússia e das ilhas Mauritânia. Não consigo comer. Preciso dormir.

Dia 6
Acordei aportada em Mumbai, na Índia.  2 dias e meio de folga. Vai ter overnight aqui e não embarca mercadoria.  Posso dormir? Não.  Treinamento às 9h.  Palestra sobre a companhia, curso online obrigatório. Fim. Vou dormir. E dormi. Das 11h30 às 17h. Meu gerente me chama. Mais papeis pra assinar, algumas instruções de segurança que ele mesmo precisa me passar . Vamos ao teatro ver o show da noite?  Oh yes.
Assistir ao show,  voltar pra cabine as 21h. Dormir.

Dia 7
Agora sim. Dormi um dia e uma noite. Sem trabalhar,  sem curso,  sem pressa, sem pressão.  Acordei às 7h30 e fiquei 3 horas na mesa do café da manhã conversando com os colegas da loja que se revezaram perfeitamente nos horários de chegada e saída do café. A área de fumantes também é um ótimo lugar pra fazer amigos. Todo mundo que trabalha aqui é legal e tem uma palavra de apoio, de boas vindas ou um conselho. Não posso descer na Índia.  Precisa ter visto ou o seaman's book que custa 205 euros e demora de 40 a 80 dias pra chegar.  E eu crente que ia conhecer a Índia de graça...
Mas, ao menos, meu gerente anjo entende as necessidades básicas de uma pessoa e, além de água,  me deu um chip,  que só funciona na Índia. Daqui do deck 6 eu só consigo ver fumaça.  Dia e noite. Poluição mesmo. É ruim de respirar. O mar é sujo. Tem até caixa boiando. Igual a gente vê na TV.
Daqui a pouco tem drill com os novos passageiros embarcados, pra ensinar a eles as regras de segurança.  Mesmo não abrindo a loja, tem que mandar uniforme e maquiagem. Mas é só.

Amanhã,  descanso mais um pouco.  Grande chance de recuperar corpo e mente.  Trabalho a noite e no dia seguinte o dia todo. Depois chegamos às ilhas maldivas onde posso descer :-)
E onde não terei internet.  Alguns dias lá,  mais navegação,  Sri Lanka de novo, mais navegação e aí , Índia de novo, onde terei internet de novo pra contar alguma coisa pra vocês.

Ciao bella!




sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Diário de bordo


Dia 1


Primeira hora do dia 13 de janeiro de 2019 e eu chego ao aeroporto de Guarulhos acompanhada de meus pais para fazer o checkin rumo ao Sri Lanka.  Tenho uma carta da companhia dizendo que sou uma trabalhadora do mar e meu visto está garantido na chegada. O moço da Qatar airways não me deixa finalizar o checkin: "Ou você tem uma passagem de volta pra entrar como turista ou você tem um seaman's book. Como não tem nenhum dos dois, não posso te embarcar".
Comecei bem!
Liguei pra agência que cuida da minha contratação no Brasil e a resposta foi "não é problema meu,  ligue pra quem comprou sua passagem"
- Mas meu celular não faz ligação internacional!
- Compra um cartão
- Muito obrigada pela ajuda.

Papaizinho querido me emprestou o celular pra eu ligar pra moça lá em Miami,  que me descolou uma passagem fake de volta. Aí o moço da Qatar airways me sugeriu mentir e dizer, ao chegar em Colombo, no Sri Lanka,  que eu estava lá a turismo.

Gente!  Pensa comigo! A gente mente pra pai e mãe,  pra namorado,  às vezes até pro terapeuta, mas pro oficial da imigração de outro país??? Acho que não...
Reunião rápida em família e concluímos que era melhor ignorar a sugestão do rapaz. Depois, durante o voo,  acessei a internet e tive a chance de conversar com um amigo que já esteve pros lados de cá,  no Líbano, e ele reforçou que não era boa ideia mentir.

Fiz o meu bom e velho drama no checkin: "moço,  você está vendo alguém mais alto que eu nessa fila de 300 pessoas? Eu também não então,  em nome de nosso senhor, me descola um assento numa saída de emergência." Ele ligou pra alguém e pediu pra desbloquear um assento na primeira fileira que depois eu entedi porque estava bloqueado. Um casal de chineses, um bebê e um menininho de uns 3 anos. Viajamos os 5 juntos, em 3 assentos, durante 15 horas. Eles sem falar inglês. A aeromoça mandava ele falar em espanhol e eu tentava traduzir em inglês e foi assim que eles conseguiram escolher a comida e lavar a mamadeira.
Eu juro que fiquei com dó e quase mudei de assento. Mas gente, 15 horas! Tem dó de mim também!

Dia 2

Ja era 14 de janeiro quando descemos em Doha, no Qatar, para fazer conexão.  Tudo escrito em árabe, eu não tava entendendo bolhufas. Já não sabia que dia era, que horas eram, já tinha visto o sol nascer e se por de dentro de um avião  (liiiindo!) e quando vi 3 filas pra conexão,  me fiz de louca e entrei na menor. Depois do raio X o guarda me parou e disse "espera aqui". Veio outro guarda e disse "me acompanhe por favor" e começou a andar comigo pro outro lado do aeroporto.  Pronto. Estou sendo presa no Qatar e nem sei porque. "Desculpa a curiosidade, seu guarda, mas pra onde o senhor está me levando?"
- Quem vem do Brasil tem que passar por outro tipo de fila e revista,  mas como seu voo já está pra sair, vou tentar facilitar as coisas pra você.
Ufa! Não estou sendo presa. Estou sendo bem tratada no Qatar.
Furamos a fila da revista de brasileiros e ele me ensinou a chegar no meu portão. Tinha umas 4 ou 5 pessoas com roupas e aparência de srilanquês no meu embarque.  O resto era um bando de italiano aos berros, rindo e gesticulando.

Cheguei em Colombo, fui pagar o visto na entrada. Parecia uma feira no Brasil. Não tem vidro, não tem segurança,  não tem fila. Centenas de pessoas se amontoam num calor dos inferno e os mais grosseiros, com coragem pra empurrar, conseguem chegar no balcão.  Hehe. Cheguei!

Depois do visto, a temida imigração.  Falar a verdade e torcer pra dar certo depois de dias dentro de aviões. Sabe quantas perguntas ela me fez?
NENHUMA.
E eu quase tendo uma úlcera de ansiedade por esse momento!

Não tem wifi na rodoviária de 3 ônibus no Sri Lanka (mentira. Só parece uma rodoviária de 3 ônibus.  É um aeroporto internacional na capital) então não consegui pegar o uber que já tinha visto que ia custar 2 dólares. Perguntei quanto era o táxi: 30 dólares. Vai-te à merda teu safado, tá falando com brasileiro aqui, malandro!

Achei um quiosque do hotel que ia ficar e eles me ofereceram um transfer por 8 dólares.  Resolvido. Cheguei no hotel chiquérrimo que a companhia descolou e pagou pra mim. A maior cama que verei nos próximos 6 meses. Deitei pra dormir e o telefone tocou "alô,  Thaís,  aqui é seu agente de porto. Estou te esperando no aeroporto com seu visto e transfer".

Mais uma da minha querida agência no Brasil que me documentou,  por email,  que não teria ninguém me esperando no aeroporto...

Mas tudo bem. Marcamos um ponto de encontro no dia seguinte. Quando começa a real jornada...

A história é grande. Fica pro próximo post ;-)

domingo, 13 de janeiro de 2019

Porque mudei meu cabelo - e o título do meu blog

CAPÍTULO 1
Dizem (a Coco Chanel disse) que quando uma mulher muda seu cabelo, ela está prestes a mudar toda sua vida.
De fato, o cabelo tem tudo a ver com nossas emoções. Radicalizar o corte sempre está relacionado a radicalizar alguma coisa na vida. E, mais ainda, costuma estar ligado ao fim de um relacionamento.
Mas, como eu não tenho um relacionamento sério desde 2015, como já mudei de país, de emprego, de profissão e de cidade nos últimos 2 anos mais do que no resto da minha vida, confesso que não tem nada que me faça querer cortar o cabelo.
Mas dessa vez eu cortei (com o apoio de 130 amigos no instagram @tpacheco1912) por uma questão bem prática: eu vou entrar em um navio para trabalhar. Não quero pentear, esperar horas pra secar pra ficar com ele bonito e arrumado. Dois palmos de cabelo é bem mais fácil de organizar.

Voltando ao começo: criei esse blog quando fui pra Brisbane, para mandar notícias de lá. No fim, meus amigos que já estavam lá liam mais do que os que estavam no Brasil (há, há). Quando decidi morar em Fernando de Noronha, quis mandar novidades de lá e acabei usando o mesmo blog. Mas Noronha foi uma experiência relâmpago, (leia mais sobre isso no capítulo 2 desse post) não deu nem tempo de mudar. Agora, mudei. O que eu espero da nova experiência é poder dar notícias de lugares que verei. E, como sempre - e principalmente - de pessoas que conhecerei.
O problema é que não tem internet em alto mar. Tem, mas custa o olho do cara. E como eu vou ganhar pouco, não pretendo gastar em wifi. Até porque, minha numerologia pra 2019 sugere reclusão e aprendizado. Ler e ouvir me vai ser mais importante do que navegar no face por horas.
Aliás, convido todos a me mandarem e-mails! Saudade do tempo em que trocava e-mails gigantescos com amigos.
Me mandem e-mails! Quando você escreve bastante, se ouve, se percebe e ainda compartilha, tudo fica mais claro e mais leve: tpacheco@gmail.com
Deixar um post pronto para quando o free wifi chegar e responder um email com calma vai ser bem melhor que o frenesí do whatsapp.
Então é isso. Fui. Te vejo pelo mundo.

CAPÍTULO 2

Noronha foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, apesar de rápida. Dia sim dia não, alguém me manda uma mensagem perguntando o que tinha na água de lá que me fazia tão linda com um sorrisão tão sincero.
Eu te digo: céu e mar.
Morar em Noronha é estar a um passo de virar um hippie. Ou um índio. Pessoas de vida simples que entendem que a vida se basta. Carros, poluição, pressa, compras, coisas, trabalhar como um escravo, nada disso traz felicidade. Céu estrelado e mergulho no mar, sim. Meditação e yoga na beira da praia, gente linda e feliz que se ajuda e troca sem mais nem porquê, sim. Em Noronha, crianças batiam na porta da minha casa para pedir ingredientes pra fazer massinha e me chamavam de tia. Batiam porque queriam - não havia necessidade de trancar a porta. Amigos me chamavam pela minha janela logo cedo, me acordando, colegas de trabalho dividiam a pouca e cara cerveja que tinham sem regular. Eu nunca tinha vivido em comunidade como lá. Foi a primeira vez que eu entendi o que é viver em comunidade. E na natureza.
Não tem outra opção. O lugar é pequeno, é pouca gente, os recursos são escassos. E a natureza, meus amigos, ela inspira! Inspira, literalmente, paz e amor.

Mas não foi assim que eu vi e vivi Noronha quando cheguei. Parti para um contrato inicial de três meses e nos primeiros 45 dias eu trabalhei MUITO. Cheguei a fazer 20 horas por dia de trabalho, porque o negócio tava tenso. Fui contratada para uma coisa e, quando cheguei lá, fui orientada a fazer o triplo. Até aí, tudo bem, grande chance de aprender, contando com a experiência e conhecimento dos que ali já estavam e me ajudavam. Mas a empresa que eu trabalhei havia passado por maus bocados e a gestão, em vez de resolver e passar por cima, decidiu devolver na mesma moeda. Eram métodos justificáveis porém, um tanto heterodoxos. Não compactuavam com meus ideais. Então eu pedi pra sair. Pedi pra sair antes de vivier e entender Noronha.
Nesse momento eu passei a folgar uma vez por semana e trabalhar no máximo 11 horas por dia. E aí, fui viver Noronha. Conhecer outras pessoas, ouvir outras ideias, viver outras experiências. E me apaixonei. E sugiro a todos que vivam em Noronha por algum período. Mas tem que ser um período de saúde bem estável. O hospital de lá não tem nem aparelho de ultrassom e o colega com dor de canal de dente teve de esperar 18 dias para ser atendido.

Quando chegou a hora de ir embora, eu quis ficar. Mas eu tinha ressalvas. Noronha, de fato, tem uma estrutura muito fraca, por ser uma ilha isolada e isso causa o dobro de dor de cabeça para resolver qualquer tipo de problema.

Então eu pensei: como viver numa ilha sem toda essa dor de cabeça? Uma ilha ambulante e um cargo com menos responsabilidade hehe. Mais céu, mais mar, mais vida necessariamente em comunidade! Um navio! A diferença é que não vai ter samba aos domingos. E nós vamos falar em inglês em vez de português. E não viverei só de gente chegando, mas também de eu mesma indo.

Teve uma lição que eu aprendi em Noronha: eu preciso ser mais paciente. Talvez eu devesse ter esperado mais, talvez eu devesse ter tentado resolver as coisas de outra maneira, lutar mais contra minha ansiedade. Eu fiz uma promessa a mim mesma que, nesse primeiro contrato, que tem duração de seis meses, eu vou até o fim. Custe o que custar. Haja o que houver. Doa o que doer. A menos que seja algo fora do meu controle - uma força externa que me faça sair de lá, eu vou viver tudo que há pra viver. Vou me permitir.

E vamos que vamos.

E não menos importante: obrigada a todos que me ajudaram a chegar aqui. No momento do embarque. Gente que foi buscar e imprimir documentos pra mim, que me deu orientações, informações, me emprestou dinheiro, pagou minha breja e acreditou comigo. Taí outra lição de Noronha (e de uma terapeuta que eu tive anos atrás): pessoas são importantes, são legais e o único jeito de você conseguir ajuda é pedindo. Ninguém, absolutamente ninguém me disse não. Confie no próximo. Vocês humanos são muito legais!