Eu sei lá porque as coisas acontecem.
Eu cresci vendo minha mãe rezar o terço e meu pai me sugerindo ler Nietzsche aos 18.
Às vezes eu acho que é Deus, às vezes eu acho que é o universo e às vezes eu acho que a gente é poeira da estrela.
Por algum motivo - ou não - hoje eu conheci a Cicrana. Estávamos eu e chef George tomando uma cerveja e eu tentando arrancar uns conselhos dele, mas como todo sábio que eu conheço, ele mais ouve do que fala... Já passava de uma da manhã quando a Cicrana chegou, de carona num buggy. Com um filho no braço e uma garrafa de whisky no outro. Perguntou se a gente queria beber. Disse que ia botar a cria pra dormir e já voltava.
Voltou. E o cara do buggy ainda estava tentando engatar a marcha. Eu disse que ia tentar ajudar a empurrar. Ela logo largou a garrafa e foi, antes de mim, e começou a empurrar. Era o prenúncio das histórias que eu iria ouvir e chorar até às 4h15, quando os galos já estavam roucos de tanto cantar.
O que eu sei da Cicrana é só o que ela me contou. Mas seja verdade ou mentira (e tudo me pareceu muito sincero), é a única versão que eu tenho. E é a que eu vou te contar agora:
Nascida em 21 de julho e, pra um quarto de astrólogo, essa informação já resume tudo que vai acontecer daqui pra frente. E tudo o que aconteceu, aconteceu com ela me contando com lágrimas nos olhos.
Ela tem 30 anos. E duas irmãs. E um irmão com necessidades especiais. Um de cada pai. Até poucos anos atrás, a mãe judiava. Nunca ouviu "eu te amo". Nunca teve uma festa de aniversário, nunca ganhou um presente. Aos 11, acordou com o padrasto em cima dela. Roçando nela. O que ela clara e sábia atesta: abuso sexual, embora sem penetração.
Contou pra mãe, que duvidou, a chamou de vagabunda e mandou pra viver na casa do avô por dois anos. Mesma época em que ela começou a trabalhar pra poder comprar umas coisinhas que queria, tipo desodorante.
O pai só foi registrá-la quando ela tinha 12, mas a sensação que ela tem quando está perto dele, é que ele é um desconhecido.
Nascida e criada em Noronha, ela não suporta o mundo lá fora. Tem coisas absurdas, que só de ver ela chora. Tipo uma criança pedindo dinheiro na rua ou uma mãe com uma criança de colo pedindo ajuda. Certa vez, antes do filho nascer, ela e o ex-marido sentaram com 4 crianças em Recife e pagaram lanche pra todas elas. Ela não conseguia se conformar com tanta injustiça.
Crente em Deus, frequentadora da igreja Batista, ela respeita qualquer credo, mas sofre muito por não entender os desígnios de Deus. Por que, afinal, uma criança sofre?
Esse ex-marido, pai do filho, batia nela. E é alcoólatra. Ficaram juntos por oito anos. Foi uma gravidez difícil. Diabética, teve 3 ameaças de aborto e fez nada menos que 28 ultrassons durante a gravidez. Coisa que não tem em Noronha e a fez ir muito pra Recife.
O filho é uma benção de Deus. Mas o médico do SUS é um babaca insensível que disse "seu filho é retardado mental. Aceite".
Cicrana é camareira. Ganha R$ 1.800,00 por mês e gasta R$ 750,00 só com o aluguel da casa. Ela não pode mais morar na casa da mãe, onde moram 14 pessoas, porque a irmã, chantagista, acusou o atual marido de ter abusado sexualmente da filha dela. Sobrinha de Cicrana. Ele teria mostrado o pingulim pra menina.
Mas Cicrana não acredita. Ela e a própria irmã ja foram abusadas. Elas sabem que uma criança abusada não se sente à vontade perto do abusador. E a sobrinha adora o marido dela. Quando ele chega, a menina deixa de brincar na rua pra ir brincar perto dele. Além do mais, a irmã não deu queixa e se recusa a levar a menina ao psicólogo.
O atual marido é sim um homem bom. Não bate nela, nunca foi grosso com ela. E ajuda a cuidar do filho dela. Ela, por desencargo de consciência, já perguntou ao filho: "ele já mexeu no seu bumbum?" O filho disse que não.
E agora, aos 4, ele já aprendeu a falar e responde que não. O marido vive de bico então é melhor que ela mesmo garanta a verba pra pagar o plano de saúde do filho e poder levá-lo, ao menos duas vezes por ano, pro hospital particular em Recife, onde ele não é retardado e sim, tem um problema que vai acarretar alguma dificuldade de aprendizagem. É lá, nesses exames, que ela chora e agradece a Deus pela saúde do menino, porque não existe coisa mais triste do que ver de perto uma criança com encefalia.
A vida não é justa, segundo Cicrana. E apesar do bem existir, o mal também existe. Mas por que, Deus, justo ela, que nunca fez mal a ninguém, tem que passar por tantas?
Às vezes ela pensa em se matar. E matar o filho. Às vezes ela lembra da amiga fulana, que acabou de perder um filho da mesma idade para uma doença rara. E nesse momento, pede perdão por não ter paciência. Ela sabe que crianças na idade do filho podem fazer até 400 perguntas por dia, mas as vezes enche o saco e Deus, perdoe pela falta de paciência!
Ela não é de beber e parou de fumar quando soube que estava grávida. Mas hoje ela merecia. Foi num casamento e já estava há 20 dias sem folgar. Ela não costuma folgar que é pra não ter o salário descontado quando tira 4 dias pra ir a Recife fazer o tratamento do herdeiro.
Morre de medo de avião, mas adora assistir desastres aéreos no Discovery, nosso ponto mais em comum. Inclusive, se eu quiser puxar um ponto da antena, posso ficar à vontade. Ela vê o jornal, assiste documentários e, apesar da modéstia, sabe que é uma mulher inteligente e antenada.
E da próxima vez que for ao Recife, vai comprar o relógio do Ben10 que fala. Porque o filho quer. E não importa o que os outros falam, que vai mimar e não sei o quê... Ela vai dar sim ao filho dela tudo que não teve e tudo que puder. E vai ter presente e vai ter festa e vai sim ter eu te amo. Porque se tem uma coisa que Cicrana não quer, é que o menino a odeie tanto a ponto de desejar a morte da própria mãe como já aconteceu com ela. E que Deus perdoe!
Morre de medo também de tubarão e da própria água, já que não sabe nadar. E morre de medo que a mãe morra, porque, apesar de tudo, ela já conseguiu melhorar. E morre de medo cada vez que o marido sai, com medo das ameaças da irmã. E ela já pediu a Deus, tantas vezes, pra mostrar um caminho, pra que essa angústia possa sair de dentro dela.
Mas não passa.
E ela chora.
E não sabe onde está o caminho. Onde está a felicidade.
Mas por fim, depois de um fraterno abraço, em que eu lembrei a ela o quanto ela é poderosa, forte, linda e tem que lembrar que ela existe e se amar e se priorizar, ela também me deu um conselho. Que eu deveria ler a Bíblia.