quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Esse cara...

Quando eu fui fazer um intercâmbio pela primeira vez, em 2007, em Toronto, no Canada, eu morei num asilo. A gente tinha café da manhã incluso e os velhinhos brigavam pra ver quem na Mesa de quem eu ia sentar. Eles me chamavam de "breath of fresh air".

Foi, talvez, a primeira expressão que aprendi em inglês. Significa, literalmente, um respiro de ar puro. Uma novidade, uma coisa boa, um bem estar.

Hoje eu conheci esse cara. Que foi um maravilhoso breath of fresh air.
Dentro de um navio, o ar não circula muito. Dentro desse que estou, especificamente, parece que ele é mais pesado ainda.

Mas esse cara! Ele sentou do meu lado e começou a me contar novidades, como uma criança que viu um brinquedo novo pela primeira vez.

Ele é do Paraná, de algum lugar nas imediações de Curitiba. Ele conhece Curitiba e Brasília, porque o irmão dele mora lá. Mais nada.

Ele sabe falar inglês, mas ninguém acredita nele. Nem levam a sério quando ele conta. E ele ficou pensando: de que aidanta eu falar inglês se não uso?

Durante muitos anos ele foi porteiro. Depois acabou perdendo o emprego e achou que um emprego público daria mais estabilidade. Mas ele trabalhava na secretaria de saúde, visitando casas. Ganhava R$ 1.500,00 por mês, que não dá pra nada.

O casamento dele, de mais de 15 anos, já acabou há muito tempo. Mas eles ainda moram juntos.

Ele até tentou sair. Voltou pra casa dos pais, mas os pais diziam "pense bem, melhor voltar"... ele voltou. Praquele lugar chato, com a mulher que nem deixa ele ir pro bar. Já que nem os pais o apoiam.

Ele disse: "meu casamento acabado, meus pais não me deram suporte, aí o agente me liga e diz: tem vaga pra você. eu vim na hoooooorrrraaaaa".

E veio. Com a coragem que lhe é muito peculiar e que a mim faz admirar. Gente que mal saiu de casa e encara um voo internacional numa terra que nem se conhece a língua.

Fez o voo Curitiba - Guarulhos - Roma - Marseille. Embarcou num navio. Foi mandado pra "saleta", como quase todo mundo em começo de primeiro contrato.
A saleta é onde os funcionários do navio comem. O público deles não são os passageiros, mas sim os colegas de trabalho. Atualmente, terceiro dia de trabalho, a função principal dele é limpar as bandeijas do pessoal que acabou de comer. Tem que separ o lixo: comida, embalagem e guardanapo. Tem que separa os talheres dos bowls, dos pratos, dos copos e da bandeija.

A rotina dele, ele me contou, é trabalhar das 10h às 23h. Tem um intervalo de 12h às 12h30, outro das 15h às 16h e outro das 20h as 20h30. É perfeito. Disse ele. Dá tempo pra tudo! Até pra vir no bar conversar.

Ele não fuma, mas foi comigo fumar. Thaís é do que ele me chama. Ele me perguntou meu nome uma unica vez e ficou repetindo durante a conversa. Deve ser alguma técnica que ele aprendeu nos anos de experiência em lidar com o público. Eu também aprendi o nome dele, claro. Até porque, é o mesmo do marido da minha prima então, não vou esquecer, mas melhor não expor.

Thaís, parece que eu não vivi nos últimos 42 anos o que eu vivi nos ultimos 3 dias. Disse ele como quem respira fundo, como quem pegou um breath of fresh air. Sabe o que é mais louco? Ele me perguntou.
O que?
Aqui tem gente do mundo inteiro. Só la na saleta, tem Filipino, colombiano, indiano, meu chefe que é de Honduras, e é todo mundo igual!

E esse horário de trabalho maravilhoso! Afirmou. E eu saio do trabalho e vou pro bar, e ninguem me liga pq nao tem celular - acabou esse negócio de dar satisfação- nem hora pra chegar. Se eu quiser acordar as 9h pra ir trabalhar eu posso. E sabe do que eles me chamam lá? De papi.

Pode ir se acostumando. Avisamos, eu e minha amiga, e começamos o glossário de um navio da Costa:
- se for colombiano, vai chamar homem de papi e mulher de mami. Mas é carinhoso.
- mamagayar é enrolar o trabalho. Se te chamam de mamagayo, tão te chamando de preguiçoso
- break the balls é te ferrar, te sacanear
- capo é chefe
- e brata é quando o trabalho tá pesado

"Aé?" Disse ele depois de ouvir atentamente pra aprender. "Achei que brata era prato. Ouço o pessoal falando isso o tempo todo".

Esse cara não deve satisfação a ninguém. Está livre pela primeira vez na vida. Está conhecendo - e trabalhando - com gente do mundo todo pela primeira vez. Está usando o inglês que ninguém acreditou que ele era capaz. E, em cinco dias, desde que saiu de casa, já esteve em 3 países. Ele está tão feliz! Ele está rindo a toa, o tempo todo. Ele está contando as novidades com tanta empolgação que nem percebeu que é novidade só pra ele. Mas, pra mim, o ponto de vista dele é novidade. Tão lindo! Que eu fiquei exatas duas horas ouvindo.

"Imagina se eu não tivesse vindo? Sete meses passam passam voando. Se eu tivesse repensado e desistido de vir, ia olhar e falar: olha, já foram sete meses. Eu deveria ter ido".

E tem mesmo só a filha dele, de onze anos. Mas ela tem tanto orgulho dele! Se ele fosse catador de lixo ela ia dizer "meu pai limpa o mundo". Precisa ver como ela descrevia ele quando ele era porteiro: meu pai cuida de um prédio inteiro.

Quando eles foram juntos fazer muai thai, ele perguntou pra ela no caminho: mas será que o pessoal é legal? E ela disse: "imagina, pai. Você se dá bem com todo mundo, em qualquer lugar".

Então ela vai ficar feliz de esperar ele voltar com tanta histórias.