domingo, 27 de janeiro de 2019

Que carino!

Eu conversei com 3 pessoas que trabalharam em navio. Uma, camareira, desistiu no décimo primeiro dia. Outra, da recepção, no quarto mês e outra, do entretenimento, que está nessa há anos e fez disso sua vida profissional.
Os conselhos que recebi (2x1) foi pra não ir, porque não era pra mim. Mas, sou dessas, não me conformo com conselhos, apenas com experiência própria e por isso embarquei.
Hoje faz 13 dias que estou no navio e já entendi pq elas não gostaram.  Porque qualquer posto - exceto o de vendedor - é muito cruel. As pessoas não descansam, não param, não respiram, estão sob constante pressão!
O de vendedor da loja,  que é meu caso, não.  Trata-se de duty free. Aportou, tem que fechar. E só resta dormir ou passear. Ou, no meu caso, estudar italiano e ler.

A minha pressão é pessoal porque, apesar de ser uma vendedora que vem desempenhando boas vendas, tenho certeza que se falasse italiano,  ia vender ainda mais. Estou na Costa, cia italiana,  cheia de clientes de lá. E gente... É uma delícia!

Depois da imersão na fria, quieta e saxã Austrália, viver no meio dessa latinada, esse bando de italiano que grita e faz piada e beija e senta na sua mesa, é maravilhoso.  É caloroso. É divertido.

E a maioria dos passageiros são velhos. Dizer "não falo sua língua" e não dizer nada é a mesma coisa. Eles vão continuar falando. Gente da Itália,  da França, da Polônia, da Alemanha ... Não importa.  Eles falam e você que se vire pra entender. O que eu acho ótimo pra treinar haha.
Além de ser engraçado.  Às vezes eu respondo em português mesmo.

Mas eu decidi que a primeira língua que vou aprender é o italiano  (e a segunda o francês,  porque eles curtem gastar). E, piano piano, vou tentando. A moça que divide quarto comigo é italiana, os brasileiros queridos que me acolhem falam muito bem e os meus amiguinhos do crew também são italianos.  E todos me ensinam pacientemente. Aos poucos  (embora eu quisesse que fosse mais rápido), vou aprendendo.

E eu já tenho uma palavra preferida: carino.
Significa fofo. Olha que fofo!
Repete comigo, com sotaque italiano, mexendo a mão: aaahhh  ma che carino!

Eu também estou feliz porque desci do navio. Foram 11 dias só a bordo porque não tenho o tal documento pra descer na Índia, mas agora estou bem plena passeando pelas ilhas Maldivas. Me sentindo a própria Pedro Andrade.

Sendo assim, vou parar de escrever e dar uma mergulhada pra ver os peixes carinos.

Ciao!

sábado, 19 de janeiro de 2019

Mesquitas, pizzaiolos e drills

Dia 3

15 de janeiro. Início do meu contrato de 6 meses. Acordei às 5h, comi umas frutas, fiz Check out, pedi o uber. Às 6h30 eu estava no local combinado pra encontrar meu agente de porto na hora que ele marcou: 6h45. Mas ele só chegou mesmo às 7h15.
A viagem de Uber foi divertidissima.  O motorista me explicou que o sri lanka tem 4 principais religiões diferentes e hoje era dia de feriado para uma delas. Pessoas daquela religião não precisam sair pra trabalhar nesse feriado e as fábricas,  por exemplo, respeitam isso. Não era o caso dele, que é muçulmano e, no caminho,  me mostrou a casa dele, a foto do filho, os locais que fazem doces típicos, perguntou se eu queria parar na padaria e, por fim, fez uma pausa pra que eu pudesse tirar uma foto em frente à segunda maior Mesquita da cidade. Não consigo postar aqui então,  vai lá no meu instagram pra ver.

Ao chegar ao hotel que era o ponto de encontro, de repente desceu um monte de gente junto. Comecei a perguntar se eram crew, pra checar que eu estava no lugar certo (afinal eu estava lá sozinha a meia hora) e eram. O mais simpático veio me dar mais moral pra que eu já pudesse sair fazendo um milhão de perguntas. Marco, o pizzaiolo italiano está no trabalho há SEIS anos. Ele me falou: relaxa que esse processo vai demorar muuuuito.

Entramos no ônibus só às 8h30. Cerca de 40 pessoas com suas malas. Todos para embarcar a trabalho. Portaria vai, portaria vem, pega passaporte, autoriza passaporte, só chegamos na porta do navio às 11h30, quando conheci Viscenzo, o enfermeiro. E aí,  Viscenzo,  que horas vão dar comida pra gente? Porque eu comi pela última vez às 5 da manhã.
- Pode começar a desmaiar porque ainda vai demorar muito pra liberarem a gente.

Cheguei na Itália.  Estou no Costa NeoRiviera.  Já chegam gritando teu nome pra te dar um crachá provisório.  Leva tua mala pra lá,  espera aqui, chega outro italiano gritando: vai todo mundo pro crew bar. Documentos lá.  Depois treinamento, às 3, no bar do deck 6.

Às 3???? Eu preciso comer, catso! (Pensei,  não falei).

Todos sentados no crew bar, esperando.  O enfermeiro, docinho de pessoa, me ensinando tudo que pode, pra me acalmar. Chega um anjo e diz: Thaís?  Sou seu gerente.  Aqui está um litro de água pra você. Assim que acabar aqui, me encontra na loja.
Água!  Um oásis! Mas sei lá que horas vai acabar aqui. Tem treinamento às 3 no bar do deck 6.  (Como se eu soubesse onde é o bar do deck 6). - Ok, volto mais tarde pra gente combinar. E lá se foi meu gerente da Costa Rica, tão atencioso, o único que veio dar boas vindas ao staff . Dia de sorte!

Então vem o pessoal buscar os documentos e eu descubro que, aqui dentro, sou Silvestrini. Cagaram pro meu Pacheco.  "Lady Silvestrini vene qui" gritavam. Assina documento daqui, entrega documento de lá,  confere papelada, pega chave da cabine "sua cabine é provisória. Vou te mudar no dia 29 então,  nem tira tudo da mala". Vá benne... tutti posto, eis que chega ele de novo: meu gerente. Dizem que o céu ou inferno do seu contrato depende do seu gerente.  Pois o meu fala português e me levou pra um rolê no navio: aqui você come, aqui você dorme, aqui você lava sua roupa, aqui você pega seu uniforme
- Fulano! Viemos pegar o uniforme dela!
- Imagina,  olha o tamanho dessa mulher. Não tenho. Volte daqui 2 dias.
Me levou no tal bar do deck 6 e me avisou pra estar lá 10 minutos antes.

Meu gerente, por tudo que é mais sagrado, me deixe comer! E lá fomos nós. Terminado o almoço de 20 minutos, era hora do treinamento.  Segurança. Estrutura do navio, o que fazer em caso de emergência,  pra onde ir, quem sou, onde estou, quem aqui está no primeiro contrato? Tá bom, vamos pegar leve com você. Curso de segurança,  dessa vez não de acidente, mas de caso de polícia mesmo. Fim do curso,  corre pra se trocar, corre pra loja. 17h15, hora de começar o trabalho. Puxa essa mesa pra fora, ajeita essa vitrine, é assim que usa a registradora e... Se vira nos 30.
Aí chega o povo falando italiano.  Excusa, io no parlo italiano e a galera continua falando horrores em italiano,  em francês,  ninguém fala ingles, mas levar o produto no caixa e pagar, todo mundo sabe. Então beleeeza.

45 minutos de break. Comida oleosa pra porra, encontrar a área de fumantes, finalmente um cigarro! Escovar os dentes, correr pra loja. Esse barco tá balançando mais que brinquedo de parque de diversões. Tá calor. Que horas são?  Quero vomitar. 23h45.  Fim do expediente.  Meu chefe me dá um remedinho pra enjoo. Minhas costas doem.  MUITO. Entro na cabine,  conheço minha colega de quarto, uma italiana mais doce que doce de batata doce. Subo na beliche difícil de subir.  Puta merda,  esqueci o carregador. Tenho q colocar o despertador no celular . Não consigo me mexer. Tudo dói.  Que horas são?  Quem eu sou? Efeito Jet leg legal. A docinho levanta da cama abre minha mochila e pega meu carregador pra mim.

Dia 4
Sea day.  A loja fica aberta o dia todo. Hoje eu vou de salto pq não sou obrigada a essa dor nas costas. Abrimos às 9,  mas eu tenho treinamento.  Como entrar no salva vidas, qual minha função em caso de emergência, curso de combate à incêndio,  curso de meio ambiente. Corre pra loja. Vende, vende, DUAS horas de break.  Dormir. Acordar. Volta pra loja.  Vai até meia noite.  Dormir.  Começo a conversar com a docinho, não consigo. Durmo no meio da conversa.

Dia 5
Aportamos em Goa, na Índia.  Vamos embora só às 17h15. Até lá,  só organizar o estoque de manhã.  Mas eu tenho treinamento.  Como fazer o drill de passageiros, vamos ter auditores no navio. Decore isso, aprenda aquilo,  prova no crew  bar, outro curso, desce pra loja, ajuda a terminar de arrumar. 13h. Almoço. Posso dormir? Não.  Preenche esse formulário, leia essas instruções,  esteja de volta às 17h. Trabalha até meia noite com 45 minutos de break.  Já decorei os nomes dos meus colegas de loja, da Rússia e das ilhas Mauritânia. Não consigo comer. Preciso dormir.

Dia 6
Acordei aportada em Mumbai, na Índia.  2 dias e meio de folga. Vai ter overnight aqui e não embarca mercadoria.  Posso dormir? Não.  Treinamento às 9h.  Palestra sobre a companhia, curso online obrigatório. Fim. Vou dormir. E dormi. Das 11h30 às 17h. Meu gerente me chama. Mais papeis pra assinar, algumas instruções de segurança que ele mesmo precisa me passar . Vamos ao teatro ver o show da noite?  Oh yes.
Assistir ao show,  voltar pra cabine as 21h. Dormir.

Dia 7
Agora sim. Dormi um dia e uma noite. Sem trabalhar,  sem curso,  sem pressa, sem pressão.  Acordei às 7h30 e fiquei 3 horas na mesa do café da manhã conversando com os colegas da loja que se revezaram perfeitamente nos horários de chegada e saída do café. A área de fumantes também é um ótimo lugar pra fazer amigos. Todo mundo que trabalha aqui é legal e tem uma palavra de apoio, de boas vindas ou um conselho. Não posso descer na Índia.  Precisa ter visto ou o seaman's book que custa 205 euros e demora de 40 a 80 dias pra chegar.  E eu crente que ia conhecer a Índia de graça...
Mas, ao menos, meu gerente anjo entende as necessidades básicas de uma pessoa e, além de água,  me deu um chip,  que só funciona na Índia. Daqui do deck 6 eu só consigo ver fumaça.  Dia e noite. Poluição mesmo. É ruim de respirar. O mar é sujo. Tem até caixa boiando. Igual a gente vê na TV.
Daqui a pouco tem drill com os novos passageiros embarcados, pra ensinar a eles as regras de segurança.  Mesmo não abrindo a loja, tem que mandar uniforme e maquiagem. Mas é só.

Amanhã,  descanso mais um pouco.  Grande chance de recuperar corpo e mente.  Trabalho a noite e no dia seguinte o dia todo. Depois chegamos às ilhas maldivas onde posso descer :-)
E onde não terei internet.  Alguns dias lá,  mais navegação,  Sri Lanka de novo, mais navegação e aí , Índia de novo, onde terei internet de novo pra contar alguma coisa pra vocês.

Ciao bella!




sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Diário de bordo


Dia 1


Primeira hora do dia 13 de janeiro de 2019 e eu chego ao aeroporto de Guarulhos acompanhada de meus pais para fazer o checkin rumo ao Sri Lanka.  Tenho uma carta da companhia dizendo que sou uma trabalhadora do mar e meu visto está garantido na chegada. O moço da Qatar airways não me deixa finalizar o checkin: "Ou você tem uma passagem de volta pra entrar como turista ou você tem um seaman's book. Como não tem nenhum dos dois, não posso te embarcar".
Comecei bem!
Liguei pra agência que cuida da minha contratação no Brasil e a resposta foi "não é problema meu,  ligue pra quem comprou sua passagem"
- Mas meu celular não faz ligação internacional!
- Compra um cartão
- Muito obrigada pela ajuda.

Papaizinho querido me emprestou o celular pra eu ligar pra moça lá em Miami,  que me descolou uma passagem fake de volta. Aí o moço da Qatar airways me sugeriu mentir e dizer, ao chegar em Colombo, no Sri Lanka,  que eu estava lá a turismo.

Gente!  Pensa comigo! A gente mente pra pai e mãe,  pra namorado,  às vezes até pro terapeuta, mas pro oficial da imigração de outro país??? Acho que não...
Reunião rápida em família e concluímos que era melhor ignorar a sugestão do rapaz. Depois, durante o voo,  acessei a internet e tive a chance de conversar com um amigo que já esteve pros lados de cá,  no Líbano, e ele reforçou que não era boa ideia mentir.

Fiz o meu bom e velho drama no checkin: "moço,  você está vendo alguém mais alto que eu nessa fila de 300 pessoas? Eu também não então,  em nome de nosso senhor, me descola um assento numa saída de emergência." Ele ligou pra alguém e pediu pra desbloquear um assento na primeira fileira que depois eu entedi porque estava bloqueado. Um casal de chineses, um bebê e um menininho de uns 3 anos. Viajamos os 5 juntos, em 3 assentos, durante 15 horas. Eles sem falar inglês. A aeromoça mandava ele falar em espanhol e eu tentava traduzir em inglês e foi assim que eles conseguiram escolher a comida e lavar a mamadeira.
Eu juro que fiquei com dó e quase mudei de assento. Mas gente, 15 horas! Tem dó de mim também!

Dia 2

Ja era 14 de janeiro quando descemos em Doha, no Qatar, para fazer conexão.  Tudo escrito em árabe, eu não tava entendendo bolhufas. Já não sabia que dia era, que horas eram, já tinha visto o sol nascer e se por de dentro de um avião  (liiiindo!) e quando vi 3 filas pra conexão,  me fiz de louca e entrei na menor. Depois do raio X o guarda me parou e disse "espera aqui". Veio outro guarda e disse "me acompanhe por favor" e começou a andar comigo pro outro lado do aeroporto.  Pronto. Estou sendo presa no Qatar e nem sei porque. "Desculpa a curiosidade, seu guarda, mas pra onde o senhor está me levando?"
- Quem vem do Brasil tem que passar por outro tipo de fila e revista,  mas como seu voo já está pra sair, vou tentar facilitar as coisas pra você.
Ufa! Não estou sendo presa. Estou sendo bem tratada no Qatar.
Furamos a fila da revista de brasileiros e ele me ensinou a chegar no meu portão. Tinha umas 4 ou 5 pessoas com roupas e aparência de srilanquês no meu embarque.  O resto era um bando de italiano aos berros, rindo e gesticulando.

Cheguei em Colombo, fui pagar o visto na entrada. Parecia uma feira no Brasil. Não tem vidro, não tem segurança,  não tem fila. Centenas de pessoas se amontoam num calor dos inferno e os mais grosseiros, com coragem pra empurrar, conseguem chegar no balcão.  Hehe. Cheguei!

Depois do visto, a temida imigração.  Falar a verdade e torcer pra dar certo depois de dias dentro de aviões. Sabe quantas perguntas ela me fez?
NENHUMA.
E eu quase tendo uma úlcera de ansiedade por esse momento!

Não tem wifi na rodoviária de 3 ônibus no Sri Lanka (mentira. Só parece uma rodoviária de 3 ônibus.  É um aeroporto internacional na capital) então não consegui pegar o uber que já tinha visto que ia custar 2 dólares. Perguntei quanto era o táxi: 30 dólares. Vai-te à merda teu safado, tá falando com brasileiro aqui, malandro!

Achei um quiosque do hotel que ia ficar e eles me ofereceram um transfer por 8 dólares.  Resolvido. Cheguei no hotel chiquérrimo que a companhia descolou e pagou pra mim. A maior cama que verei nos próximos 6 meses. Deitei pra dormir e o telefone tocou "alô,  Thaís,  aqui é seu agente de porto. Estou te esperando no aeroporto com seu visto e transfer".

Mais uma da minha querida agência no Brasil que me documentou,  por email,  que não teria ninguém me esperando no aeroporto...

Mas tudo bem. Marcamos um ponto de encontro no dia seguinte. Quando começa a real jornada...

A história é grande. Fica pro próximo post ;-)

domingo, 13 de janeiro de 2019

Porque mudei meu cabelo - e o título do meu blog

CAPÍTULO 1
Dizem (a Coco Chanel disse) que quando uma mulher muda seu cabelo, ela está prestes a mudar toda sua vida.
De fato, o cabelo tem tudo a ver com nossas emoções. Radicalizar o corte sempre está relacionado a radicalizar alguma coisa na vida. E, mais ainda, costuma estar ligado ao fim de um relacionamento.
Mas, como eu não tenho um relacionamento sério desde 2015, como já mudei de país, de emprego, de profissão e de cidade nos últimos 2 anos mais do que no resto da minha vida, confesso que não tem nada que me faça querer cortar o cabelo.
Mas dessa vez eu cortei (com o apoio de 130 amigos no instagram @tpacheco1912) por uma questão bem prática: eu vou entrar em um navio para trabalhar. Não quero pentear, esperar horas pra secar pra ficar com ele bonito e arrumado. Dois palmos de cabelo é bem mais fácil de organizar.

Voltando ao começo: criei esse blog quando fui pra Brisbane, para mandar notícias de lá. No fim, meus amigos que já estavam lá liam mais do que os que estavam no Brasil (há, há). Quando decidi morar em Fernando de Noronha, quis mandar novidades de lá e acabei usando o mesmo blog. Mas Noronha foi uma experiência relâmpago, (leia mais sobre isso no capítulo 2 desse post) não deu nem tempo de mudar. Agora, mudei. O que eu espero da nova experiência é poder dar notícias de lugares que verei. E, como sempre - e principalmente - de pessoas que conhecerei.
O problema é que não tem internet em alto mar. Tem, mas custa o olho do cara. E como eu vou ganhar pouco, não pretendo gastar em wifi. Até porque, minha numerologia pra 2019 sugere reclusão e aprendizado. Ler e ouvir me vai ser mais importante do que navegar no face por horas.
Aliás, convido todos a me mandarem e-mails! Saudade do tempo em que trocava e-mails gigantescos com amigos.
Me mandem e-mails! Quando você escreve bastante, se ouve, se percebe e ainda compartilha, tudo fica mais claro e mais leve: tpacheco@gmail.com
Deixar um post pronto para quando o free wifi chegar e responder um email com calma vai ser bem melhor que o frenesí do whatsapp.
Então é isso. Fui. Te vejo pelo mundo.

CAPÍTULO 2

Noronha foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, apesar de rápida. Dia sim dia não, alguém me manda uma mensagem perguntando o que tinha na água de lá que me fazia tão linda com um sorrisão tão sincero.
Eu te digo: céu e mar.
Morar em Noronha é estar a um passo de virar um hippie. Ou um índio. Pessoas de vida simples que entendem que a vida se basta. Carros, poluição, pressa, compras, coisas, trabalhar como um escravo, nada disso traz felicidade. Céu estrelado e mergulho no mar, sim. Meditação e yoga na beira da praia, gente linda e feliz que se ajuda e troca sem mais nem porquê, sim. Em Noronha, crianças batiam na porta da minha casa para pedir ingredientes pra fazer massinha e me chamavam de tia. Batiam porque queriam - não havia necessidade de trancar a porta. Amigos me chamavam pela minha janela logo cedo, me acordando, colegas de trabalho dividiam a pouca e cara cerveja que tinham sem regular. Eu nunca tinha vivido em comunidade como lá. Foi a primeira vez que eu entendi o que é viver em comunidade. E na natureza.
Não tem outra opção. O lugar é pequeno, é pouca gente, os recursos são escassos. E a natureza, meus amigos, ela inspira! Inspira, literalmente, paz e amor.

Mas não foi assim que eu vi e vivi Noronha quando cheguei. Parti para um contrato inicial de três meses e nos primeiros 45 dias eu trabalhei MUITO. Cheguei a fazer 20 horas por dia de trabalho, porque o negócio tava tenso. Fui contratada para uma coisa e, quando cheguei lá, fui orientada a fazer o triplo. Até aí, tudo bem, grande chance de aprender, contando com a experiência e conhecimento dos que ali já estavam e me ajudavam. Mas a empresa que eu trabalhei havia passado por maus bocados e a gestão, em vez de resolver e passar por cima, decidiu devolver na mesma moeda. Eram métodos justificáveis porém, um tanto heterodoxos. Não compactuavam com meus ideais. Então eu pedi pra sair. Pedi pra sair antes de vivier e entender Noronha.
Nesse momento eu passei a folgar uma vez por semana e trabalhar no máximo 11 horas por dia. E aí, fui viver Noronha. Conhecer outras pessoas, ouvir outras ideias, viver outras experiências. E me apaixonei. E sugiro a todos que vivam em Noronha por algum período. Mas tem que ser um período de saúde bem estável. O hospital de lá não tem nem aparelho de ultrassom e o colega com dor de canal de dente teve de esperar 18 dias para ser atendido.

Quando chegou a hora de ir embora, eu quis ficar. Mas eu tinha ressalvas. Noronha, de fato, tem uma estrutura muito fraca, por ser uma ilha isolada e isso causa o dobro de dor de cabeça para resolver qualquer tipo de problema.

Então eu pensei: como viver numa ilha sem toda essa dor de cabeça? Uma ilha ambulante e um cargo com menos responsabilidade hehe. Mais céu, mais mar, mais vida necessariamente em comunidade! Um navio! A diferença é que não vai ter samba aos domingos. E nós vamos falar em inglês em vez de português. E não viverei só de gente chegando, mas também de eu mesma indo.

Teve uma lição que eu aprendi em Noronha: eu preciso ser mais paciente. Talvez eu devesse ter esperado mais, talvez eu devesse ter tentado resolver as coisas de outra maneira, lutar mais contra minha ansiedade. Eu fiz uma promessa a mim mesma que, nesse primeiro contrato, que tem duração de seis meses, eu vou até o fim. Custe o que custar. Haja o que houver. Doa o que doer. A menos que seja algo fora do meu controle - uma força externa que me faça sair de lá, eu vou viver tudo que há pra viver. Vou me permitir.

E vamos que vamos.

E não menos importante: obrigada a todos que me ajudaram a chegar aqui. No momento do embarque. Gente que foi buscar e imprimir documentos pra mim, que me deu orientações, informações, me emprestou dinheiro, pagou minha breja e acreditou comigo. Taí outra lição de Noronha (e de uma terapeuta que eu tive anos atrás): pessoas são importantes, são legais e o único jeito de você conseguir ajuda é pedindo. Ninguém, absolutamente ninguém me disse não. Confie no próximo. Vocês humanos são muito legais!