Dia 3
15 de janeiro. Início do meu contrato de 6 meses. Acordei às 5h, comi umas frutas, fiz Check out, pedi o uber. Às 6h30 eu estava no local combinado pra encontrar meu agente de porto na hora que ele marcou: 6h45. Mas ele só chegou mesmo às 7h15.
A viagem de Uber foi divertidissima. O motorista me explicou que o sri lanka tem 4 principais religiões diferentes e hoje era dia de feriado para uma delas. Pessoas daquela religião não precisam sair pra trabalhar nesse feriado e as fábricas, por exemplo, respeitam isso. Não era o caso dele, que é muçulmano e, no caminho, me mostrou a casa dele, a foto do filho, os locais que fazem doces típicos, perguntou se eu queria parar na padaria e, por fim, fez uma pausa pra que eu pudesse tirar uma foto em frente à segunda maior Mesquita da cidade. Não consigo postar aqui então, vai lá no meu instagram pra ver.
Ao chegar ao hotel que era o ponto de encontro, de repente desceu um monte de gente junto. Comecei a perguntar se eram crew, pra checar que eu estava no lugar certo (afinal eu estava lá sozinha a meia hora) e eram. O mais simpático veio me dar mais moral pra que eu já pudesse sair fazendo um milhão de perguntas. Marco, o pizzaiolo italiano está no trabalho há SEIS anos. Ele me falou: relaxa que esse processo vai demorar muuuuito.
Entramos no ônibus só às 8h30. Cerca de 40 pessoas com suas malas. Todos para embarcar a trabalho. Portaria vai, portaria vem, pega passaporte, autoriza passaporte, só chegamos na porta do navio às 11h30, quando conheci Viscenzo, o enfermeiro. E aí, Viscenzo, que horas vão dar comida pra gente? Porque eu comi pela última vez às 5 da manhã.
- Pode começar a desmaiar porque ainda vai demorar muito pra liberarem a gente.
Cheguei na Itália. Estou no Costa NeoRiviera. Já chegam gritando teu nome pra te dar um crachá provisório. Leva tua mala pra lá, espera aqui, chega outro italiano gritando: vai todo mundo pro crew bar. Documentos lá. Depois treinamento, às 3, no bar do deck 6.
Às 3???? Eu preciso comer, catso! (Pensei, não falei).
Todos sentados no crew bar, esperando. O enfermeiro, docinho de pessoa, me ensinando tudo que pode, pra me acalmar. Chega um anjo e diz: Thaís? Sou seu gerente. Aqui está um litro de água pra você. Assim que acabar aqui, me encontra na loja.
Água! Um oásis! Mas sei lá que horas vai acabar aqui. Tem treinamento às 3 no bar do deck 6. (Como se eu soubesse onde é o bar do deck 6). - Ok, volto mais tarde pra gente combinar. E lá se foi meu gerente da Costa Rica, tão atencioso, o único que veio dar boas vindas ao staff . Dia de sorte!
Então vem o pessoal buscar os documentos e eu descubro que, aqui dentro, sou Silvestrini. Cagaram pro meu Pacheco. "Lady Silvestrini vene qui" gritavam. Assina documento daqui, entrega documento de lá, confere papelada, pega chave da cabine "sua cabine é provisória. Vou te mudar no dia 29 então, nem tira tudo da mala". Vá benne... tutti posto, eis que chega ele de novo: meu gerente. Dizem que o céu ou inferno do seu contrato depende do seu gerente. Pois o meu fala português e me levou pra um rolê no navio: aqui você come, aqui você dorme, aqui você lava sua roupa, aqui você pega seu uniforme
- Fulano! Viemos pegar o uniforme dela!
- Imagina, olha o tamanho dessa mulher. Não tenho. Volte daqui 2 dias.
Me levou no tal bar do deck 6 e me avisou pra estar lá 10 minutos antes.
Meu gerente, por tudo que é mais sagrado, me deixe comer! E lá fomos nós. Terminado o almoço de 20 minutos, era hora do treinamento. Segurança. Estrutura do navio, o que fazer em caso de emergência, pra onde ir, quem sou, onde estou, quem aqui está no primeiro contrato? Tá bom, vamos pegar leve com você. Curso de segurança, dessa vez não de acidente, mas de caso de polícia mesmo. Fim do curso, corre pra se trocar, corre pra loja. 17h15, hora de começar o trabalho. Puxa essa mesa pra fora, ajeita essa vitrine, é assim que usa a registradora e... Se vira nos 30.
Aí chega o povo falando italiano. Excusa, io no parlo italiano e a galera continua falando horrores em italiano, em francês, ninguém fala ingles, mas levar o produto no caixa e pagar, todo mundo sabe. Então beleeeza.
45 minutos de break. Comida oleosa pra porra, encontrar a área de fumantes, finalmente um cigarro! Escovar os dentes, correr pra loja. Esse barco tá balançando mais que brinquedo de parque de diversões. Tá calor. Que horas são? Quero vomitar. 23h45. Fim do expediente. Meu chefe me dá um remedinho pra enjoo. Minhas costas doem. MUITO. Entro na cabine, conheço minha colega de quarto, uma italiana mais doce que doce de batata doce. Subo na beliche difícil de subir. Puta merda, esqueci o carregador. Tenho q colocar o despertador no celular . Não consigo me mexer. Tudo dói. Que horas são? Quem eu sou? Efeito Jet leg legal. A docinho levanta da cama abre minha mochila e pega meu carregador pra mim.
Dia 4
Sea day. A loja fica aberta o dia todo. Hoje eu vou de salto pq não sou obrigada a essa dor nas costas. Abrimos às 9, mas eu tenho treinamento. Como entrar no salva vidas, qual minha função em caso de emergência, curso de combate à incêndio, curso de meio ambiente. Corre pra loja. Vende, vende, DUAS horas de break. Dormir. Acordar. Volta pra loja. Vai até meia noite. Dormir. Começo a conversar com a docinho, não consigo. Durmo no meio da conversa.
Dia 5
Aportamos em Goa, na Índia. Vamos embora só às 17h15. Até lá, só organizar o estoque de manhã. Mas eu tenho treinamento. Como fazer o drill de passageiros, vamos ter auditores no navio. Decore isso, aprenda aquilo, prova no crew bar, outro curso, desce pra loja, ajuda a terminar de arrumar. 13h. Almoço. Posso dormir? Não. Preenche esse formulário, leia essas instruções, esteja de volta às 17h. Trabalha até meia noite com 45 minutos de break. Já decorei os nomes dos meus colegas de loja, da Rússia e das ilhas Mauritânia. Não consigo comer. Preciso dormir.
Dia 6
Acordei aportada em Mumbai, na Índia. 2 dias e meio de folga. Vai ter overnight aqui e não embarca mercadoria. Posso dormir? Não. Treinamento às 9h. Palestra sobre a companhia, curso online obrigatório. Fim. Vou dormir. E dormi. Das 11h30 às 17h. Meu gerente me chama. Mais papeis pra assinar, algumas instruções de segurança que ele mesmo precisa me passar . Vamos ao teatro ver o show da noite? Oh yes.
Assistir ao show, voltar pra cabine as 21h. Dormir.
Dia 7
Agora sim. Dormi um dia e uma noite. Sem trabalhar, sem curso, sem pressa, sem pressão. Acordei às 7h30 e fiquei 3 horas na mesa do café da manhã conversando com os colegas da loja que se revezaram perfeitamente nos horários de chegada e saída do café. A área de fumantes também é um ótimo lugar pra fazer amigos. Todo mundo que trabalha aqui é legal e tem uma palavra de apoio, de boas vindas ou um conselho. Não posso descer na Índia. Precisa ter visto ou o seaman's book que custa 205 euros e demora de 40 a 80 dias pra chegar. E eu crente que ia conhecer a Índia de graça...
Mas, ao menos, meu gerente anjo entende as necessidades básicas de uma pessoa e, além de água, me deu um chip, que só funciona na Índia. Daqui do deck 6 eu só consigo ver fumaça. Dia e noite. Poluição mesmo. É ruim de respirar. O mar é sujo. Tem até caixa boiando. Igual a gente vê na TV.
Daqui a pouco tem drill com os novos passageiros embarcados, pra ensinar a eles as regras de segurança. Mesmo não abrindo a loja, tem que mandar uniforme e maquiagem. Mas é só.
Amanhã, descanso mais um pouco. Grande chance de recuperar corpo e mente. Trabalho a noite e no dia seguinte o dia todo. Depois chegamos às ilhas maldivas onde posso descer :-)
E onde não terei internet. Alguns dias lá, mais navegação, Sri Lanka de novo, mais navegação e aí , Índia de novo, onde terei internet de novo pra contar alguma coisa pra vocês.
Ciao bella!
15 de janeiro. Início do meu contrato de 6 meses. Acordei às 5h, comi umas frutas, fiz Check out, pedi o uber. Às 6h30 eu estava no local combinado pra encontrar meu agente de porto na hora que ele marcou: 6h45. Mas ele só chegou mesmo às 7h15.
A viagem de Uber foi divertidissima. O motorista me explicou que o sri lanka tem 4 principais religiões diferentes e hoje era dia de feriado para uma delas. Pessoas daquela religião não precisam sair pra trabalhar nesse feriado e as fábricas, por exemplo, respeitam isso. Não era o caso dele, que é muçulmano e, no caminho, me mostrou a casa dele, a foto do filho, os locais que fazem doces típicos, perguntou se eu queria parar na padaria e, por fim, fez uma pausa pra que eu pudesse tirar uma foto em frente à segunda maior Mesquita da cidade. Não consigo postar aqui então, vai lá no meu instagram pra ver.
Ao chegar ao hotel que era o ponto de encontro, de repente desceu um monte de gente junto. Comecei a perguntar se eram crew, pra checar que eu estava no lugar certo (afinal eu estava lá sozinha a meia hora) e eram. O mais simpático veio me dar mais moral pra que eu já pudesse sair fazendo um milhão de perguntas. Marco, o pizzaiolo italiano está no trabalho há SEIS anos. Ele me falou: relaxa que esse processo vai demorar muuuuito.
Entramos no ônibus só às 8h30. Cerca de 40 pessoas com suas malas. Todos para embarcar a trabalho. Portaria vai, portaria vem, pega passaporte, autoriza passaporte, só chegamos na porta do navio às 11h30, quando conheci Viscenzo, o enfermeiro. E aí, Viscenzo, que horas vão dar comida pra gente? Porque eu comi pela última vez às 5 da manhã.
- Pode começar a desmaiar porque ainda vai demorar muito pra liberarem a gente.
Cheguei na Itália. Estou no Costa NeoRiviera. Já chegam gritando teu nome pra te dar um crachá provisório. Leva tua mala pra lá, espera aqui, chega outro italiano gritando: vai todo mundo pro crew bar. Documentos lá. Depois treinamento, às 3, no bar do deck 6.
Às 3???? Eu preciso comer, catso! (Pensei, não falei).
Todos sentados no crew bar, esperando. O enfermeiro, docinho de pessoa, me ensinando tudo que pode, pra me acalmar. Chega um anjo e diz: Thaís? Sou seu gerente. Aqui está um litro de água pra você. Assim que acabar aqui, me encontra na loja.
Água! Um oásis! Mas sei lá que horas vai acabar aqui. Tem treinamento às 3 no bar do deck 6. (Como se eu soubesse onde é o bar do deck 6). - Ok, volto mais tarde pra gente combinar. E lá se foi meu gerente da Costa Rica, tão atencioso, o único que veio dar boas vindas ao staff . Dia de sorte!
Então vem o pessoal buscar os documentos e eu descubro que, aqui dentro, sou Silvestrini. Cagaram pro meu Pacheco. "Lady Silvestrini vene qui" gritavam. Assina documento daqui, entrega documento de lá, confere papelada, pega chave da cabine "sua cabine é provisória. Vou te mudar no dia 29 então, nem tira tudo da mala". Vá benne... tutti posto, eis que chega ele de novo: meu gerente. Dizem que o céu ou inferno do seu contrato depende do seu gerente. Pois o meu fala português e me levou pra um rolê no navio: aqui você come, aqui você dorme, aqui você lava sua roupa, aqui você pega seu uniforme
- Fulano! Viemos pegar o uniforme dela!
- Imagina, olha o tamanho dessa mulher. Não tenho. Volte daqui 2 dias.
Me levou no tal bar do deck 6 e me avisou pra estar lá 10 minutos antes.
Meu gerente, por tudo que é mais sagrado, me deixe comer! E lá fomos nós. Terminado o almoço de 20 minutos, era hora do treinamento. Segurança. Estrutura do navio, o que fazer em caso de emergência, pra onde ir, quem sou, onde estou, quem aqui está no primeiro contrato? Tá bom, vamos pegar leve com você. Curso de segurança, dessa vez não de acidente, mas de caso de polícia mesmo. Fim do curso, corre pra se trocar, corre pra loja. 17h15, hora de começar o trabalho. Puxa essa mesa pra fora, ajeita essa vitrine, é assim que usa a registradora e... Se vira nos 30.
Aí chega o povo falando italiano. Excusa, io no parlo italiano e a galera continua falando horrores em italiano, em francês, ninguém fala ingles, mas levar o produto no caixa e pagar, todo mundo sabe. Então beleeeza.
45 minutos de break. Comida oleosa pra porra, encontrar a área de fumantes, finalmente um cigarro! Escovar os dentes, correr pra loja. Esse barco tá balançando mais que brinquedo de parque de diversões. Tá calor. Que horas são? Quero vomitar. 23h45. Fim do expediente. Meu chefe me dá um remedinho pra enjoo. Minhas costas doem. MUITO. Entro na cabine, conheço minha colega de quarto, uma italiana mais doce que doce de batata doce. Subo na beliche difícil de subir. Puta merda, esqueci o carregador. Tenho q colocar o despertador no celular . Não consigo me mexer. Tudo dói. Que horas são? Quem eu sou? Efeito Jet leg legal. A docinho levanta da cama abre minha mochila e pega meu carregador pra mim.
Dia 4
Sea day. A loja fica aberta o dia todo. Hoje eu vou de salto pq não sou obrigada a essa dor nas costas. Abrimos às 9, mas eu tenho treinamento. Como entrar no salva vidas, qual minha função em caso de emergência, curso de combate à incêndio, curso de meio ambiente. Corre pra loja. Vende, vende, DUAS horas de break. Dormir. Acordar. Volta pra loja. Vai até meia noite. Dormir. Começo a conversar com a docinho, não consigo. Durmo no meio da conversa.
Dia 5
Aportamos em Goa, na Índia. Vamos embora só às 17h15. Até lá, só organizar o estoque de manhã. Mas eu tenho treinamento. Como fazer o drill de passageiros, vamos ter auditores no navio. Decore isso, aprenda aquilo, prova no crew bar, outro curso, desce pra loja, ajuda a terminar de arrumar. 13h. Almoço. Posso dormir? Não. Preenche esse formulário, leia essas instruções, esteja de volta às 17h. Trabalha até meia noite com 45 minutos de break. Já decorei os nomes dos meus colegas de loja, da Rússia e das ilhas Mauritânia. Não consigo comer. Preciso dormir.
Dia 6
Acordei aportada em Mumbai, na Índia. 2 dias e meio de folga. Vai ter overnight aqui e não embarca mercadoria. Posso dormir? Não. Treinamento às 9h. Palestra sobre a companhia, curso online obrigatório. Fim. Vou dormir. E dormi. Das 11h30 às 17h. Meu gerente me chama. Mais papeis pra assinar, algumas instruções de segurança que ele mesmo precisa me passar . Vamos ao teatro ver o show da noite? Oh yes.
Assistir ao show, voltar pra cabine as 21h. Dormir.
Dia 7
Agora sim. Dormi um dia e uma noite. Sem trabalhar, sem curso, sem pressa, sem pressão. Acordei às 7h30 e fiquei 3 horas na mesa do café da manhã conversando com os colegas da loja que se revezaram perfeitamente nos horários de chegada e saída do café. A área de fumantes também é um ótimo lugar pra fazer amigos. Todo mundo que trabalha aqui é legal e tem uma palavra de apoio, de boas vindas ou um conselho. Não posso descer na Índia. Precisa ter visto ou o seaman's book que custa 205 euros e demora de 40 a 80 dias pra chegar. E eu crente que ia conhecer a Índia de graça...
Mas, ao menos, meu gerente anjo entende as necessidades básicas de uma pessoa e, além de água, me deu um chip, que só funciona na Índia. Daqui do deck 6 eu só consigo ver fumaça. Dia e noite. Poluição mesmo. É ruim de respirar. O mar é sujo. Tem até caixa boiando. Igual a gente vê na TV.
Daqui a pouco tem drill com os novos passageiros embarcados, pra ensinar a eles as regras de segurança. Mesmo não abrindo a loja, tem que mandar uniforme e maquiagem. Mas é só.
Amanhã, descanso mais um pouco. Grande chance de recuperar corpo e mente. Trabalho a noite e no dia seguinte o dia todo. Depois chegamos às ilhas maldivas onde posso descer :-)
E onde não terei internet. Alguns dias lá, mais navegação, Sri Lanka de novo, mais navegação e aí , Índia de novo, onde terei internet de novo pra contar alguma coisa pra vocês.
Ciao bella!
De tudo, achei bom que vc pode dormir - às vezes Haha
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