Tem uma pessoa que está acompanhado o meu contrato diferente de vocês. É porque ele não tem Facebook, nem Instagram, então o que eu faço é mandar postais pra ele. Trata-se do meu sobrinho de seis anos.
Mandar cartões de cada porto foi, a propósito, ideia do meu tio. No começo não botei muita fé, até o dia que minha irmã me mandou um audio dizendo "eu disse que se ele estava gostando de receber, ele deveria te dizer, assim você mandaria mais, mas ele alegou que não precisava fazer isso porque ele sabia que você ia mandar".
Gente, depois desse áudio, a viagem deixou de ser "se eu passar por um correio, pode ser que eu compre um cartão" para "vamos andar 3 km a pé embaixo desse sol escaldante até achar uma merda duma caixa de correio".
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São 2h30 da manhã. Estamos navegando de Savona, na Itália para Toulon, na França. Eu e minha cabinmate começamos a falar sobre signos e ela começou a me contar como o sobrinho sagitariano dela é engraçado.
Ela disse que ele aprendeu a ler sozinho, aos 6 anos de idade. Um dia, nessa mesma idade, foi viajar com o bisavô, pra visitar as duas irmãs dele. Chegando lá, alguém ofereceu pra ele comprar o que quisesse. A escolha do moleque foi um livro de piadas. Assim, ele podia sentar no meio dos velhos e ficar lendo piadas pra eles se matarem de rir.
Só que ela começou essa história por volta de uma da manhã e depois contou várias facanhas dele, até as atuais. Ele já tem 16 anos. Por isso a conversa durou tanto hahaha.
Outro dia, uns cruzeiros atrás, numa mesa de brasileiras, sentadas em Funchal, começamos a falar sobre nossos sobrinhos. Foi uma choradeira linda. É tanto amor que transborda pelos olhos.
Existe uma comunidade maravilhosa, onde imperam a paz e o amor. Onde não existe ego ou disputa. Ela se chama o clube das tias.
Desde 3 de março de 2013 eu sou tia e desde então tenho me cercado de tias. (consequência de me cercar de amigas solteiras e sem filhos, como eu, assim as agenda batem).
Fato é que a gente não tem outro assunto pra tratar na vida que não sejam nossos sobrinhos.
E enquanto eu pensava nesses fatos pra escrever aqui, me ocorreu uma coisa: eu nunca vi uma tia falar nas costas da outra "mas o sobrinho dela nem é tão bonito assim", como algumas mães fazem.
Eu nunca vi uma tia dizer "meu sobrinho foi o melhor da sala" e outra rebater "ah, mas o meu foi duas vezes melhor", como já vi mãe fazer. Ou então, o clássico das mães: dar opinião nas escolhas alheias. Lembro de ter acompanhado, certa vez, no Facebook, um longo debate sobre colocar ou não fitinha na cabeça da bebê. Gente! Uma tia JAMAIS vai dizer pra outra: "pense duas vezes antes de fazer isso com seu sobrinho".
Tias tem coisas mais importantes pra se preocupar. Pergunta pra minha amiga Fê Dupin. As vezes a gente nem tem assunto, mas troca mensagens no WhatsApp sem dizer uma palavra. São apenas trocas de fotos fofas dos sobrinhos. Outro dia ela fez figurinhas com as fotos deles e eu morri de rir e me derreti também.
E é também um elo. Um jeito de fazer amigas. Quando a gente era criança, chegava perto da nova amiguinha e dizia: quer trocar papel de carta?
Agora, você senta do lado da recém conhecida e diz: olha essa foto no papel de parede do meu celular. É a nova do meu sobrinho. E ela fala "aaaaaahhhh que lindoooo" e depois diz: "olha essa do meu" e você responde "aaaaaahhhh que lindoooo". Aí, se tem uma outra tia por perto, ela logo sente o cheiro e se aproxima: "É foto nova do sobrinho? Deixa eu ver!"
Só tem uma coisa que as tias não sabem uma da outra: o nome do respectivo sobrinho. Porque, aí sim, entra um sentimento menos sublime, que é o egoísmo. Porque o que estamos dividindo não é exatamente o que aquele ser é, mas sim, o sentimento que nós temos por ele.
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Eu falei pra minha irmã que não vou mandar cartão da França: não gosto da França, não gosto de francês, esses fdp se recusam a falar ingles em loja de souvenir em ponto turístico, como é que eu vou comprar uma merda dum selo? E aí vou dizer o que pro menino no cartão? "Tia Thaís tem só um conselho: nunca na vida perca tempo e dinheiro nesse lugar".
Não dá, né?
Aí ele cisma que quer cartão da França. Ela me manda um vídeo em que diz docemente pra ele que eu não falo francês e por isso talvez não consiga mandar. Ao que ele responde: "mas, né? vamos ver..."
Moral da história: eu andando em Toulon caçando os correios e usando um dicionário francês lá dentro.
Mas eu já sei o que vai ser. Vou escolher um cartão sem graça, pra não ficar entre os preferidos dele e escrever assim:
Tem um escritor brasileiro, que tem casa na França e é muito lido por aqui, que se chama Paulo Coelho. Ele escreveu que quando a gente deseja uma coisa com toda nossa força, o universo inteiro conspira a nosso favor. Aqui está um cartão francês, como você desejou.
Mandar cartões de cada porto foi, a propósito, ideia do meu tio. No começo não botei muita fé, até o dia que minha irmã me mandou um audio dizendo "eu disse que se ele estava gostando de receber, ele deveria te dizer, assim você mandaria mais, mas ele alegou que não precisava fazer isso porque ele sabia que você ia mandar".
Gente, depois desse áudio, a viagem deixou de ser "se eu passar por um correio, pode ser que eu compre um cartão" para "vamos andar 3 km a pé embaixo desse sol escaldante até achar uma merda duma caixa de correio".
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São 2h30 da manhã. Estamos navegando de Savona, na Itália para Toulon, na França. Eu e minha cabinmate começamos a falar sobre signos e ela começou a me contar como o sobrinho sagitariano dela é engraçado.
Ela disse que ele aprendeu a ler sozinho, aos 6 anos de idade. Um dia, nessa mesma idade, foi viajar com o bisavô, pra visitar as duas irmãs dele. Chegando lá, alguém ofereceu pra ele comprar o que quisesse. A escolha do moleque foi um livro de piadas. Assim, ele podia sentar no meio dos velhos e ficar lendo piadas pra eles se matarem de rir.
Só que ela começou essa história por volta de uma da manhã e depois contou várias facanhas dele, até as atuais. Ele já tem 16 anos. Por isso a conversa durou tanto hahaha.
Outro dia, uns cruzeiros atrás, numa mesa de brasileiras, sentadas em Funchal, começamos a falar sobre nossos sobrinhos. Foi uma choradeira linda. É tanto amor que transborda pelos olhos.
Existe uma comunidade maravilhosa, onde imperam a paz e o amor. Onde não existe ego ou disputa. Ela se chama o clube das tias.
Desde 3 de março de 2013 eu sou tia e desde então tenho me cercado de tias. (consequência de me cercar de amigas solteiras e sem filhos, como eu, assim as agenda batem).
Fato é que a gente não tem outro assunto pra tratar na vida que não sejam nossos sobrinhos.
E enquanto eu pensava nesses fatos pra escrever aqui, me ocorreu uma coisa: eu nunca vi uma tia falar nas costas da outra "mas o sobrinho dela nem é tão bonito assim", como algumas mães fazem.
Eu nunca vi uma tia dizer "meu sobrinho foi o melhor da sala" e outra rebater "ah, mas o meu foi duas vezes melhor", como já vi mãe fazer. Ou então, o clássico das mães: dar opinião nas escolhas alheias. Lembro de ter acompanhado, certa vez, no Facebook, um longo debate sobre colocar ou não fitinha na cabeça da bebê. Gente! Uma tia JAMAIS vai dizer pra outra: "pense duas vezes antes de fazer isso com seu sobrinho".
Tias tem coisas mais importantes pra se preocupar. Pergunta pra minha amiga Fê Dupin. As vezes a gente nem tem assunto, mas troca mensagens no WhatsApp sem dizer uma palavra. São apenas trocas de fotos fofas dos sobrinhos. Outro dia ela fez figurinhas com as fotos deles e eu morri de rir e me derreti também.
E é também um elo. Um jeito de fazer amigas. Quando a gente era criança, chegava perto da nova amiguinha e dizia: quer trocar papel de carta?
Agora, você senta do lado da recém conhecida e diz: olha essa foto no papel de parede do meu celular. É a nova do meu sobrinho. E ela fala "aaaaaahhhh que lindoooo" e depois diz: "olha essa do meu" e você responde "aaaaaahhhh que lindoooo". Aí, se tem uma outra tia por perto, ela logo sente o cheiro e se aproxima: "É foto nova do sobrinho? Deixa eu ver!"
Só tem uma coisa que as tias não sabem uma da outra: o nome do respectivo sobrinho. Porque, aí sim, entra um sentimento menos sublime, que é o egoísmo. Porque o que estamos dividindo não é exatamente o que aquele ser é, mas sim, o sentimento que nós temos por ele.
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Eu falei pra minha irmã que não vou mandar cartão da França: não gosto da França, não gosto de francês, esses fdp se recusam a falar ingles em loja de souvenir em ponto turístico, como é que eu vou comprar uma merda dum selo? E aí vou dizer o que pro menino no cartão? "Tia Thaís tem só um conselho: nunca na vida perca tempo e dinheiro nesse lugar".
Não dá, né?
Aí ele cisma que quer cartão da França. Ela me manda um vídeo em que diz docemente pra ele que eu não falo francês e por isso talvez não consiga mandar. Ao que ele responde: "mas, né? vamos ver..."
Moral da história: eu andando em Toulon caçando os correios e usando um dicionário francês lá dentro.
Mas eu já sei o que vai ser. Vou escolher um cartão sem graça, pra não ficar entre os preferidos dele e escrever assim:
Tem um escritor brasileiro, que tem casa na França e é muito lido por aqui, que se chama Paulo Coelho. Ele escreveu que quando a gente deseja uma coisa com toda nossa força, o universo inteiro conspira a nosso favor. Aqui está um cartão francês, como você desejou.