quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

São Paulo, Brazil

Cheguei.
Em vez de voltar para casa, BH, voltei para o berço. São Paulo.
Não me pergunte porque. Não sei. Deu vontade.
Hoje de manhã, quando saí da casa do meu primo Renan, a minha pessoa preferida no mundo, (talvez por isso eu tenha voltado para São Paulo), eu lembrei da minha cidade.
Sete horas da manhã, o céu meio rosado, a poluição visível no céu, que dá até para cheirar, o barulho incessante de buzinas e motores e ônibus e aviões e helicópteros e motos. Isso é memória afetiva. Fala ao meu coração. É do que eu fui feita quando ainda não tinha escolha. Essa cena que acabo de descrever traz até aquela musiquinha na minha cabeça "vambora, vambora, olha a hora vambora vambora". (Caso você não entrasse no carro do seu pai logo cedo ouvindo Jovem Pan, digite Sinfonia Paulista no Youtube). Eu me lembro de uma época que tinha orgulho de ser isso, membro de uma "cidade que não desperta, apenas acerta a sua posição, porque tudo se repete, são sete e às sete explode em multidão. Portas de aço levantam, todos parecem correr". Gente! Paulistano é maluco.

Enfim. Bateu o saudosismo, mas logo passou. Mais exatamente quando a gente chegou na Avenida Washington Luiz. - Aquela que tem um aeroporto no meio da cidade, que os aviões caem na cabeça das pessoas e postos de gasolina. O asfalto! Lord Ganesha, o asfalto no Brasil!

Eu vou contar uma coisa para vocês. Por alguma benção que a vida resolveu me dar, eu já tive a oportunidade de visitar 17 países. 75% deles de primeiro mundo, onde o asfalto é lindo, onde o sinal de pedestre faz barulho e o espaço público é pensado para a acessibilidade. Mas morar dois anos em outro país e voltar para São Paulo, camaradas, é completamente diferente.

Minha gripe começou no primeiro terço do trecho Auckland - Buenos Aires. Minha garganta foi fechando, fechando, fechando, ardendo, ardendo, ardendo. Meu corpo foi doendo. Cada centímetro do meu corpo doía. Quando eu cheguei no aeroporto de Guarulhos, ainda tive que esperar o voo do Charles aterrissar com 20 minutos de atraso (pegou a fofoca em primeira mão?) e aqueles 20 minutos pareceram uma eternidade, de tanto que doía. Cheguei em casa delirando em febre. Literalmente. Derreti e pirei a noite toda. Acordei louca e sem garganta. Antes de 6h da manhã tem farmácia aberta a 800m de casa em São Paulo, claro. De lá veio o remédio que tirou minha febre. Mas ainda faltava o médico para resolver minha garganta cheia de pus (precisava desse detalhe?). Eis que eu, elite branca privilegiada, fui tirar um cartão do SUS. O posto de saúde do parque imperial, na rua Democratas, foi interditado pela prefeitura. Mais tarde, no posto provisório na alameda Ceci, conheci uma orgulhosa senhora que me contou quantas vezes ela foi pessoalmente até a prefeitura reclamar das condições desumanas daqueles prédio sem janelas, com ratos. Até que chegou a outra senhora e comentou que nunca viu um prédio com tanta escada na vida. E aí eu reparei, no posto em que estávamos e nos outros dois postos em que tive que ir, que não há elevadores. E há muitas escadas. Me vi numa cena de filme. A pessoa deslumbrando a realidade, sabe?

Enfim. Não é difícil conseguir informações nos postos de saúde de São Paulo. As pessoas tem as informações. São extremamente  pacientes inclusive com os mais malucos e os serviço funciona sim, ao menos no básico que eu precisei ( o que não tem é vacina de febre amarela. loucura quanta gente vem pedir. Revoltante ouvir cada não). No primeiro posto me registraram sem burocracia (com minha carteira de motorista vencida. na vivo que eu quis virar cliente com carteira vencida, não me deixaram. Ah! E a Tim não aceita novos clientes no plano controle, a menos que você queira um plano de controle de 189 reais por mes. Ah! e quando você está quase assinando o contrato, depois de discutir todas as questões e entregar o cartão, eles te dizem que você tem que ser fiel por 12 meses. Saudades, Brazil!.)

...Voltando...

Porém, esse primeiro posto não tinha impressora. Me dirigi ao posto lado com número de cadastro e pedi pra imprimirem. Beleza! Sou, como uma cidadã brasileira pagadora de impostos, usuária de meus direitos de saúde! Me senti muito feliz por estar em casa. Na Austrália eu não teria saúde sem dinheiro porque não é meu país. Próximo passo: onde consigo pronto atendimento? "Aqui só marcado, próxima consulta para daqui 3 dias" e eu quase desmaiando de dor. "Mas aqui está o endereço da UBS mais próxima", que a moça sabia de cabeça e me deu de coração. Lá fui eu,  caminhando da Ceci ao metrô São Judas. E aquele asfalto. E aqueles ruas sem faixa ou sinal, que não sei se vai ou se fica, e olhando pro chão pra não torcer o pé e aquele asfalto! E aquela calçada, meu bom senhor. Não é à toa que a gente é tão católico nesse país. Só rezando pra não chorar.  E enquanto eu submetia minhas preces, as gotas das obras caíam na minha cabeça e as pessoas passavam com escadas, como se nada. Brasileiro é igual criança. Só sobrevive por milagre, porque o santo é forte. Porque são demais os perigos dessa vida, (como já diria Vinicius de Morais em outro contexto).

E COMO A GENTE É FEEEEIOOOOO
Cadê os loiro de olho azul, minha gente?

Comecei a procurar a beleza no olhar, no suíngue, na simpatia.
Meu cu.
Como diz a Sinfonia Paulista, "Sempre ligeiro na rua, como quem sabe o que quer, vai o paulista na sua".
Não tem suíngue e simpatia não, mate.



Fui pro posto da Santa Cruz, e o processo todo demorou duas horas, não mais. Bem sagaz. Só se perderam na hora de me entregar os remédios. A receita nunca chegou à farmácia.  Mas depois de 40 minutos esperando pacientemente (virei uma polite strayian, né?) levantei e perguntei e me deram o remédio. Gente. Cartão de saúde, médico de graça, remédio de graça. Home sweet home. Saí do posto, entrei no metrô, pelo caminho do shopping e tomei um expresso. Presta atenção no que eu vou escrever agora:
5 REAIS
UM ESPRESSO.


Mas, tudo bem. No dia anterior, apesar de toda dor, febre e jetlag e ansiedade, o Charles voltou da farmácia com uma sacola da padaria que continha PÃES DE QUEIJO DA EFM (a padaria da minha vida, minha infância, minha adolescência), pão francês coberto com queijo derretido crocante e mussarela fatiada.

E no dia seguinte eu fui pra casa do Renan. E mesmo com minha garganta doendo muito até agora (parece que quando eu como, tem um bicho arranhando minha garganta, com pimenta nas unhas, enquanto outro simultaneamente rasga minha alma), eu fui comer tudo que o Renan prometeu cozinhar pra mim: arroz, feijão preto com pedaços de porco, farofa, carne moída e...
bolo de cenoura
coberto com brigadeiro
com base de brownie
recheado de brigadeiro.

Meu maior prato desse manjar dos deuses foi sozinha, às 4h da manhã, que é o auge da minha fome. Assim como o ápice do meu sono é às 3 da tarde. E meu cocô, que era sete da manhã virou oito da noite (haha tô adorando essas informações desnecessárias).

Ai como eu queria fumar. Cigarro tão barato! Última vez que fumei foi em auckland. Por favor, garganta, sare! Quero cerveja gelada no buteco zuado com cigarro barato.

Ô MOTÔ! VAI DESCÊ MOTÔ!

Aí, vim eu de busão e eis que no meio do caminho, a mulher me grita essa frase tão clássica colocada em terceira pessoa sempre pela primeira pessoa. Num tipo de evento que é tão clássico do Brasil, o busão tão lotado que nem o cobrador vê que a pobre coitada quer descer e ela tem que se ajudar "vai descê motôooo". Nem me deu raiva. Nem dó. Deu de novo um bom saudosismo, esse jeito de viver.

E eu, fazendo aloka, andando em são paulo as 7h da manhã de havaianas, shorts curto e regata, com a blusa de frio enrolada no pescoço fazendo o cachecol. E nós, brasileiros, maravilhosos, o paulistano tão ocupado com a própria vida, só reparando na vida dos outros. TODO MUNDO me olhou. A princípio pensei que era minha provocação social baseada em style. Mas depois lembrei que tenho 1,90m.

Me lembro de reclamar quando cheguei na Australia. Ninguém olhava pra mim. Eu saía linda, ninguém olhava, saía feia, ninguém olhava, saía plantando bananeira sem calça, ninguém olhava. Justo eu, que passei minha vida sendo olhada como um extraterrestre porque no Brasil eu provavelmente sou a única mulher de 1,90 de altura.

Pronto, issue resolvido, todo mundo olhando de novo pra mim, sem exceção. Entrei no mercado. A louca da mulher paga a conta, sai e deixa o cartão na máquina, a da minha frente grita "ô moooooça, olha o cartão!". E aí, senhoras e senhores, chegou o momento mais esperado por minha pessoa. Aquele momento em que você brilha igual uma estrela, mas só pode fazê-lo porque está em casa. Eu gritei na sequência: "se vai deixar o cartão, deixa a senha". E as pessoas começaram a rir. Gente. Uma piada, em voz alta, em público, em frente a estranhos, com toda maldade que há nessa nação. Aquilo tudo que só faz sentido na sua cultura e na sua língua. Ah!  Que saudade! Se prepara Brazil! Meu repertório vai voltar fervendo!

By the way, tô aqui comendo um baton que comprei nesse mercado.


Aí!
Maaaanoooo do céu!
Eu passei na porta da Ronex. A padoca lá da esquina da Jabaquara!
Mano, sério! Precisa ver as fotos dos PFs na porta da bagaça. Tem um que é arroz, feijão e linguiça calabresa gorda oleosa. Pensei "7h40am, hora da janta, vai agora mesmo", mas aí pensei na dor que isso vai causar e optei por adiar. Hopefully, não faltarão oportunidades. Por exemplo, até agora, eu não disse Sorry nem uma vez, apesar de sempre pensar. Por alguma razão, a palavra sai certinha: "desculpa", embora eu não esteja muito certa de que eles sabem o que é isso. Mas enfim, a moral da história é que no final dá tudo certo e sooner or later eu vou comer aquela linguiça e ficar só na azia, lembrando dela por 3 dias, sendo feliz como me é de merecimento!

 E aí, meus amigos, best for last. Prepare-se porque o texto acaba assim que eu viro a esquina.
Virei a esquina, 7h42am e o que encontrei? O boteco aberto vendendo cerveja!

hahahahahahahahaha