terça-feira, 16 de outubro de 2018

Hoje eu conheci a Cicrana

Eu sei lá porque as coisas acontecem.
Eu cresci vendo minha mãe rezar o terço e meu pai me sugerindo ler Nietzsche aos 18.

Às vezes eu acho que é Deus, às vezes eu acho que é o universo e às vezes eu acho que a gente é poeira da estrela.

Por algum motivo - ou não - hoje eu conheci a Cicrana. Estávamos eu e chef George tomando uma cerveja e eu tentando arrancar uns conselhos dele, mas como todo sábio que eu conheço, ele mais ouve do que fala... Já passava de uma da manhã quando a Cicrana chegou, de carona num buggy. Com um filho no braço e uma garrafa de whisky no outro. Perguntou se a gente queria beber. Disse que ia botar a cria pra dormir e já voltava.

Voltou.  E o cara do buggy ainda estava tentando engatar a marcha.  Eu disse que ia tentar ajudar a empurrar. Ela logo largou a garrafa e foi, antes de mim, e começou a empurrar. Era o prenúncio das histórias que eu iria ouvir e chorar até às 4h15, quando os galos já estavam roucos de tanto cantar.

O que eu sei da Cicrana é só o que ela me contou. Mas seja verdade ou mentira (e tudo me pareceu muito sincero), é a única versão que eu tenho. E é a que eu vou te contar agora:

Nascida em 21 de julho e, pra um quarto de astrólogo, essa informação já resume tudo que vai acontecer daqui pra frente. E tudo o que aconteceu, aconteceu com ela me contando com lágrimas nos olhos.

Ela tem 30 anos. E duas irmãs. E um irmão com necessidades especiais. Um de cada  pai. Até poucos anos atrás, a mãe judiava. Nunca ouviu "eu te amo". Nunca teve uma festa de aniversário, nunca ganhou um presente. Aos 11, acordou com o padrasto em cima dela. Roçando nela. O que ela clara e sábia atesta: abuso sexual, embora sem penetração.

Contou pra mãe, que duvidou, a chamou de vagabunda e mandou pra viver na casa do avô por dois anos. Mesma época em que ela começou a trabalhar pra poder comprar umas coisinhas que queria, tipo desodorante.

O pai só foi registrá-la quando ela tinha 12, mas a sensação que ela tem quando está perto dele, é que ele é um desconhecido.

Nascida e criada em Noronha, ela não suporta o mundo lá fora. Tem coisas absurdas, que só de ver ela chora. Tipo uma criança pedindo dinheiro na rua ou uma mãe com uma criança de colo pedindo ajuda. Certa vez, antes do filho nascer, ela e o ex-marido sentaram com 4 crianças em Recife e pagaram lanche pra todas elas. Ela não conseguia se conformar com tanta injustiça.

Crente em Deus, frequentadora da igreja Batista, ela respeita qualquer credo, mas sofre muito por não entender os desígnios de Deus. Por que, afinal, uma criança sofre?

Esse ex-marido, pai do filho, batia nela. E é alcoólatra. Ficaram juntos por oito anos. Foi uma gravidez difícil. Diabética, teve 3 ameaças de aborto e fez nada menos que 28 ultrassons durante a gravidez. Coisa que não tem em Noronha e a fez ir muito pra Recife.

O filho é uma benção de Deus. Mas o médico do SUS é um babaca insensível que disse "seu filho é retardado mental. Aceite".

Cicrana é camareira. Ganha R$ 1.800,00 por mês e gasta R$ 750,00 só com o aluguel da casa. Ela não pode mais morar na casa da mãe, onde moram 14 pessoas, porque a irmã, chantagista, acusou o atual marido de ter abusado sexualmente da filha dela. Sobrinha de Cicrana. Ele teria mostrado o pingulim pra menina.

Mas Cicrana não acredita. Ela e a própria irmã ja foram abusadas. Elas sabem que uma criança abusada não se sente à vontade perto do abusador. E a sobrinha adora o marido dela. Quando ele chega, a menina deixa de brincar na rua pra ir brincar perto dele. Além do mais, a irmã não deu queixa e se recusa a levar a menina ao psicólogo.

O atual marido é sim um homem bom. Não bate nela, nunca foi grosso com ela. E ajuda a cuidar do filho dela. Ela, por desencargo de consciência, já perguntou ao filho: "ele já mexeu no seu bumbum?" O filho disse que não.

E agora, aos 4, ele já aprendeu a falar e responde que não. O marido vive de bico então é  melhor que ela mesmo garanta a verba pra pagar o plano de saúde do filho e poder levá-lo, ao menos duas vezes por ano, pro hospital particular em Recife, onde ele não é retardado e sim, tem um problema que vai acarretar alguma dificuldade de aprendizagem. É lá, nesses exames, que ela chora e agradece a Deus pela saúde do menino, porque não existe coisa mais triste do que ver de perto uma criança com encefalia.

A vida não é justa, segundo Cicrana. E apesar do bem existir, o mal também existe. Mas por que, Deus, justo ela, que nunca fez mal a ninguém, tem que passar por tantas?

Às vezes ela pensa em se matar.  E matar o filho. Às vezes ela lembra da amiga fulana, que acabou de perder um filho da mesma idade para uma doença rara. E nesse momento, pede perdão por não ter paciência. Ela sabe que crianças na idade do filho podem fazer até 400 perguntas por dia, mas as vezes enche o saco e Deus, perdoe pela falta de paciência!

Ela não é de beber e parou de fumar quando soube que estava grávida. Mas hoje ela merecia. Foi num casamento e já estava há 20 dias sem folgar. Ela não costuma folgar que é pra não ter o salário descontado quando tira 4 dias pra ir a Recife fazer o tratamento do herdeiro.

Morre de medo de avião, mas adora assistir desastres aéreos no Discovery, nosso ponto mais em comum. Inclusive, se eu quiser puxar um ponto da antena, posso ficar à vontade. Ela vê o jornal, assiste documentários e, apesar da modéstia, sabe que é uma mulher inteligente e antenada.

E da próxima vez que for ao Recife, vai comprar o relógio do Ben10 que fala. Porque o filho quer. E não importa o que os outros falam, que vai mimar e não sei o quê... Ela vai dar sim ao filho dela tudo que não teve e tudo que puder. E vai ter presente e vai ter festa e vai sim ter eu te amo. Porque se tem uma coisa que Cicrana não quer, é que o menino a odeie tanto a ponto de desejar a morte da própria mãe como já aconteceu com ela. E que Deus perdoe!

Morre de medo também de tubarão e da própria água, já que não sabe nadar. E morre de medo que a mãe morra, porque, apesar de tudo, ela já conseguiu melhorar.  E morre de medo cada vez que o marido sai, com medo das ameaças da irmã. E ela já pediu a Deus, tantas vezes, pra mostrar um caminho, pra que essa angústia possa sair de dentro dela.

Mas não passa.
E ela chora.
E não sabe onde está o caminho. Onde está a felicidade.

Mas por fim, depois de um fraterno abraço, em que eu lembrei a ela o quanto ela é poderosa, forte, linda e tem que lembrar que ela existe e se amar e se priorizar, ela também me deu um conselho. Que eu deveria ler a Bíblia.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Meu amigo Gil

Meu amigo Gil, baiano baianíssimo é um centro de conhecimento coletivo.

São tantas pérolas por dia, todo dia, que eu comecei a anotar. Seguem algumas para vocês, mortais, aprenderem mais sobre a vida:

"Eu não sou santo não. Nem santo tem com meu nome"

"Relaxe iáiá.  Muito vento é pouca chuva. Igual muito peido é pouca merda"

"Esse povo tem um desapego pelos companheiros que nem sei. Pois eu, quando eu me apego, me apego igual não sei quê.  Xô ver... Igual mato crescendo que nem praga"

"Não chore festa não que o Natal vem aí"

"Cachorro que muito anda ou acha osso ou ganha porrada"

"Ou eu assovio ou chupo manga"

"Depois que a minha mãe morreu, toda vez que eu passava em frente ao cemitério eu chorava igual cachorro novo"

"Ôxe, e vai embora por quê? Tem que acordar cedo amanhã, é? Não, né? Então relaxe e diga a quem te mandou que não me encontrou"

"Essa menina ainda vai ter que tomar muito no c*. Ela tá pensando que todo sabido morreu e só ficou ela"


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Pessoas, natureza e claustrofobia

Eu não sou tão legal quanto eu achava que eu era.
Eu julgo as pessoas.
E está muito difícil viver em Noronha por causa disso.
Nesta ilha de algumas milhares de pessoas eu te garanto que já conversei com 10% da população.

E a galera é chata. Chatos porque só fazem falar da vida dos outros.

Tem exceções  claro. Tem gente muuuito legal. Teve o cara da barraquinha de praia que pediu um break pro chefe pra me levar pra ver a vista mais legal da ilha. Uma fenda numa pedra que eu aconselho veementemente visitar, a Lasca da Velha. Mas aconselho mais veementemente que seja guiado por alguém experiente porque haja pedra e haja altura pra chegar lá. Enfim, Léo me levou lá e nosso assunto ida e volta foi como a natureza é maravilhosa.  Depois ele falou mal dos colegas de trabalho.

Tem um outro que eu adoro.  Qualquer coisa que acontece na ilha, ele me avisa e a gente vai. Nosso assunto é sempre como o mundo é maravilhoso. As vezes ele celebra o fato de ser funcionário público e trabalhar menos que todo mundo mas ganhar bem.

Tem a Ane, Josiane, que está sempre embriagada e a gente senta e chora o sofrimento dela de estar longe dos filhos. Quando a gente não tá chorando, a gente tá no samba rindo e dançando porque a gente nao tem muito assunto mesmo.

Tem os meninos do reggae. É uma casa de 4 caras que fumam maconha e tocam reggae e têm um gato chamado gangja.  Eles são super do bem e nosso assunto é sempre sobre como a natureza é maravilhosa e como as energias fluem de formas incríveis. Meu preferido deles é um que me conta das incursões que ele já fez pelo sertão do Nordeste e fundões do Norte, atuando como topógrafo. Outro dia ele lembrou de quando pediu água e trouxeram uma garrafa de água misturada com barro  que era só o que tinha mesmo. Nos sentimos privilegiados de beber água dessalinizada. "Basicamente um monte de cloro na água do mar", disse ele. E rimos muito.

Tem a Edilene que tem uma filha de 11 anos muito legal que sempre fala "tia, quando eu vou poder nadar na piscina do seu hotel?" e aí a gente fica bebendo e falando o quanto a filha dela é legal e inteligente, enquanto a menina fica pedindo pra ela parar de beber.

Tem o meu amigo querido do trabalho, que fala de outras coisas além da natureza maravilhosa. Me traduz uns proibidão brega que eu não entendo muito (mentira, não entendo nada das gírias), fuma um baseado e eu falo "nossa que vento" aí ele explica "irmã, parece vento  mas é só a brisa" e a gente ri da natureza olhando pras estrelas no céu.

Tem uma menina de uns 9 anos que mora do lado do meu trabalho, que eu sou amiga dela, mas ela nem deve saber que eu existo. Ela parece o Bob, do fantástico mundo de Bob. Toda vez que eu tô lá fora fumando um cigarro ela passa numa viagem diferente. Ela tem muita energia e brinca sozinha e corre e pedala e fala muuuito sozinha e tá sempre sorrindo. Eu adoro ela. Qualquer dia vou tentar uma amizade.

Tem o motorista do caminhão de água e mergulhador. Sempre que ele vem entregar água a gente fica quase uma hora falando sobre o fundo do mar e esse imenso universo debaixo dos nossos pés.

Essas coisas geralmente acontecem a noite. Ou quando o sol tá nascendo. Geralmente depois de uma festinha com musica boa ou depois de uma coxinha ou tapioca e açaí. Não tem assalto, não tem gente passando fome. Pode voltar sozinha de madrugada pra casa. Sussa. Eu até sou feliz. Até aí, tá fácil ser feliz.

Mas nenhum deles rendeu assunto comigo sobre cinema. Ninguém quer falar de cinema comigo. A única pessoa que eu conheci que lê, lê histórias extraordinárias tipo senhor dos anéis. Não gosto. A única pessoa que eu conheci aqui que tem ambições de viajar por aí  quer ir pra Bolívia. Eu não quero ir pra Bolívia.  Aí vai ficando tenso. Natureza, Natureza, natureza, universo, mar, energia, Natureza, natureza

AI QUE SACO.

E quando chega de dia, o inferno volta. Essas pessoas legais partem pra seus deveres e lá estou eu cercada dessa chatice. Todo mundo falando mal de todo mundo, todo mundo reclamando da exploração do patrão em TODAS as empresas da ilha, todo mundo se recusando a trabalhar direito, todos os fornecedores querendo ganhar vantagens ridículas tipo um prato de comida ou um suborno de 50 reais.

Palavra aqui é coisa que não tem valor nenhum. "Vou amanhã" significa "não vou" . "Vou as 10h" significa "não me espere antes das 13h" e por aí vai. E meu estômago vai doendo de raiva e frustração.

Aí eu vou dar uma volta.
Mano.
Não tem volta.
Não tem pra onde ir.
Pode cruzar a cidade inteira. Ida e volta. 20 minutos . Que inferno!

O sujeito me disse outro dia que quem vai pra qualquer ilha é pra achar um tesouro. Acho que já achei o meu. Descobrir o fato de que eu estou em tanta expansão quanto o universo que a gente fala aqui em Noronha.

Só que não dá pra expandir quando se está ilhado.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O outro lado do Paraíso

Noronha é uma ilha paradisíaca.  Protegida. Natureza intacta.
Mas, gente, quem gosta de natureza intacta tem que entender que ela traz o pacote completo. Aqui em Neuronha isso significa muuuuuitos insetos e picadas, sapos gigantes, rãzinhas por todos os lados e mabuyas, as estrelas locais, que devem ser benvindas no seu quarto que, por sua vez, será sempre cheio de aranhas. Quem não lida bem com esses bichanos, não pode morar em Noronha.

Ilhas também não tem muito espaço. Nem fonte de água pura. Morar em Noronha significa dormir em cama de solteiro, dividir quarto e banheiro, tomar banho gelado e beber água dessalinizada em vez de mineral.

E Noronha é pra turista visitar e ir embora. Quem mora aqui vive em alojamento, que são barraquinhos. Tudo é via satélite.  Quem precisa baixar filmes e séries, não será feliz em Noronha. Quem Só vive se tiver internet rápida, desiste.

Em ilha, com o advento do wtsapp, peidou é notícia. Gente que se preocupa com a opinião dos outros não pode morar em ilha. Porque o povo fala. E o povo fala MESMO.

Em ilha não tem mc donalds, comida sem glúten, cerveja barata, variedade de opções de comidas, bebidas e atrativos. Só tem mesmo o que veio no barco. E o barco nem sempre vem.

Aqui também não tem muito asfalto e tem muito Sol.  Trabalha-se muito. Se você não está em Noronha a passeio, é porque está trabalhando para que alguém se divirta. E a diversão do outro não pode parar.

Há vagas sim. Em muitos lugares. Mas acredite: Neuronha não é pra qualquer um. Só pra quem tem certeza absoluta de desapego.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Se fosse pra ter raíz, eu tinha nascido árvore

Não sei se isso interessa a alguém, mas eu gostaria de contar como vejo a vida.
Como a natureza.

Sou viciada em astrologia. Amo mato: flores e árvores. Adoro ver a água e conto para todo mundo a história que o numerólogo chinês me contou, da pedra que fica parada lá embaixo no rio e demora séculos para ser lapidada e a outra pedra, que vai descendo a cachoeira, se chocando com as outras e rapidamente vira um diamante.
Se eu fosse desenhar minha vida, ela era uma folha de planta, que a gente joga no mar e deixa ele levar para onde quiser.
A natureza é sábia, os ciclos são inevitáveis e é preciso confiar no universo. Eu não sofro de insônia porque eu confio no universo. Também daria para desenhar essa confiança: é a moeda que a gente joga para cima e deixa cair no chão. Se der cara, segue ela. Se der coroa, vai de coroa então.
Eu não sei se eu tenho sorte e por isso é fácil viver assim; ou se, justamente por viver assim, eu crio meu campo de sorte.

Eu também acredito em esforço. Em estudos. Em rede contatos e em não pecar pelo medo de tentar. E acredito, principalmente, em curiosidade. Tudo isso somado também cria um campo energético positivo. Eu tenho absoluta convicção de que a gente colhe o que planta. Eu tento espalhar coisas boas, embora o que é bom ou não seja uma questão de ponto de vista. Mas até aí... seria muito desperdício de energia me preocupar com todos os conceitos do mundo. Por isso escolho minhas sementes, que incluem positividade, sinceridade, todo o conteúdo da oração de São Francisco e inspiração em pessoas que considero incríveis.

Com fé em Deus (pode escolher seu Deus aí, fica à vontade) e pé na tábua, a minha escolha foi me jogar nessa vida louca, vida breve, vida imensa. Eu nasci lá na Mooca, meus pais mudaram pra saúde e eu fui junto porque, aos 5 anos, eu não tinha condições de pagar meu aluguel. Depois, aos 19, meus pais foram para BH e eu resolvi ir também, para tentar ser amiga do Rogério Flausino, que me foi apresentado quatro vezes e, nas quatro, ele disse "muito prazer, Rogério", como se a gente nunca tivesse se visto antes. Do Sion fomos para o Buritis e, de lá, eu resolvi sair para casar e voltamos para o Sion, onde fui feliz enquanto duro. Depois voltei pra casa do meu pai.

Nesse meio tempo, fiz teatro, fiz jornalismo, fui assessora, redatora, editora, produtora, locutora... Entrevistei o Gilberto Gil, fiz um monte de revista freela. Viajei 17 países, 15 estados brasileiros, assisti o Chico Buarque e o Paul McCartney há 8 metros de distância, fui ao cinema de graça por 4 anos. Conversei com loucos, caretas, dormi, acordei, comi e respirei.

Cansei da porra toda. Espalhei tudo o que tinha e fiquei só com uma mala. Fui para a Austrália. Aprendi a esfregar chão de churrascaria, carregar três pratos lindos na ida e nove pesados sujos na volta, fazer café, falar Strayan, gerenciar um restaurante. Conversei com gente que tava feliz de férias viajando o mundo e gente que tava morrendo ou com o filho paralítico no hospital. Larguei a bandeija e sentei na mesa do cliente pra chorar com ele, ganhei 200 dólares de gorjeta. Conheci gente de todas as idades, cores, sabores e origens, aprendi o que é um KPI, uma análise SWAT e FIFO. Viajei, sozinha, um país inteiro, de dimensões continentais. Tenho amigos e amores de fato nos lugares onde eu chego.

Voltei pra BH, não me cabia mais. Voltei pra São Paulo, fiquei feliz e insatisfeita. Jornalismo não salva o mundo, trânsito incomoda, por que todo mundo corre tanto? Fui ver como faz cinema e não gostei.

Cheguei ao sexto setênio, desce o biológico, sobe o anímico. Por que voltar para o lugar de onde vim? Fazer as mesmas coisas? Se fosse para ter raíz, eu tinha nascido árvore. (E as arveres somos nozes).

Então, eu tô indo de novo.
Foi bom estar com vocês, brincar com vocês, mas a Lua me chama e eu tenho que ir pra rua. A nova profissão chegou, se instalou e me pediu para continuar. Eu perguntei ao universo o que fazer e ele disse: toma aqui essa vaga de emprego. Vai cuidar de hotel em Fernando de Noronha. Vai viver perto do mar, vai conhecer gente nova, vai fazer coisas diferentes, vá servir aos outros.

Eu aceito, agradeço e concordo: navegar é preciso, viver não é preciso.

Um beijo, da sua sagitariana com Lua e ascendente em aquário preferida.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O Trem para Guarulhos (ou o espetáculo do absurdo)

15:40. Saímos de casa e caminhamos sete minutos até o metrô Saúde.

Linha azul, sussa. Metrô vazio o suficiente para sentar. 26 minutos até o Brás.

Caminhamos 8 minutos até a plataforma 7 para pegar a linha 12 da CPTM, Safira. Um trilho de cada lado. Nenhuma informação. 80% das pessoas esperando no trilho da esquerda, o restante, na direita. 17 minutos em pé esperando, enquanto a simpática moça anunciava no alto falante algo que eu não conseguia entender além de "atraso". Um sacana ameaça ir pro trilho da direita, 30% correm para o outro lado com ele. Os que ficaram tomam a frente e começam a rir. Trouxas, voltamos. O trem chega.

A cena clássica e que mostra a maluquice que o paulistano se encontra: as pessoas literalmente se jogam e se empurram para sentar. Mais 20 minutos de espera até o trem sair. Não tem ar condicionado, a janela que estava bem na minha frente não abria. As pessoas sentam no chão. Não tem espaço para nem mais uma mosca. O trem começa a andar. Mais lento que uma tartaruga. Mais 19 minutos para chegar na próxima estação, onde eu perdi a paciência e comecei a organizar a coisa, em alto e bom som: "Gente, pelo amor de Deus, um passinho pra trás. Olha ali as pessoas paradas do lado de fora enquanto vocês empacam na porta. Vem aqui pro meio!"
A baixinha retruca: "mas eu desço daqui cinco estações. Se for pra lá não consigo sair".
- Consegue sim, minha senhora, vem atrás de mim que eu abro caminho para você.

Todo mundo entrou. Porta fechou, agora vai! Passa vendedora de água, pepsi e guaraná, passa vendedor de KitKat 3 por R$ 5 e a galera só "dando um licencinha" pros ambulantes trabalharem com algum espaço.

Mais 18 minutos até a próxima estação, meu destino final naquela linha, para desespero da mulher que confiou em mim e se enfiou no meio do corredor. Para sair precisa falar alto de novo "Com licença! Licença! Licença! Ei, você que está parado bem no meio da porta aberta, vai sair? Não? então dá licença, por favor!"


E eu e meu primo imaginando a cena do gringo com mala de viagem fazendo esse trajeto.

Chegamos à próxima baldeação: Linha 13, Jade. Trem novo, telas com mapas, distâncias e destino, ar condiconado e ESPAÇO. Bem diferente do trem anterior, esse era largo. Sentamos, nos acomodamos e... TRINTA MINUTOS até o trem sair da estação Engenheiro Goulart. Nessa hora já estávamos delirando que poderíamos estar na linha 4, amarela, vendo na telinha quanto tempo até o trem sair enquanto se assiste ao desfile daqueles seguranças selecionados pela Ford Models.

Lento de novo. Até a estação Guarulhos-Cecap. Googlo quem foi Engenheiro Goulart, wikipedia diz que é o sujeito responsável pela construção da estação Central Do Brasil, hoje a cargo da CPTM, mas a CPTM é paulista. Googlo quantas central do brasil tem. Só aparece Rio de Janeiro. É muito pra minha cabeça. Desisto do Engenheiro Goulart. O trem dispara em velocidade esperada até a estação Aeroporto-Guarulhos. QUE PARA NO TERMINAL 1

SÓ SAI PASSAREDO DO TERMINAL 1

QUEM VIAJA DE PASSAREDO?
(Brincadeirinha. Azul também sai de lá).

Tem um onibuzinho rapidinho bonitinho esperando você lá pra te levar até o Terminal 2. Nosso destino final, atingido às 18h08.

Tá mole ir de trem pra Guarulhos. Um pouco de suor, um pouco de sangue, quatro reais, DUAS HORAS E 28 MINUTOS e é isso aí. Chegou.

Chegamos. Para ver nossa amiga ser expelida da sala de embarque, porque o voo dela para o Rio de Janeiro atrasou e a Lufhansa avisou que não ia esperar para a conexão. Na fila da Avianca, dois atendentes e oito pessoas na frente. Após 2 horas e 20 minutos nessa fila, transferem ela para um voo da TAP depois da meia noite.
Nos despedimos.

Na volta, depois das 21h, chegamos ao trem e o aviso: a Linha Safira não está funcionando. "Mas tem ônibus de graça lá para vocês até o Brás", diz a atendente.

Obrigada. Vamos de ônibus até o Tatuapé. 22:34  - Tatuapé bombaaaaaando. 23:20, em casa, explicando para uma amiga, via wtsapp, porque eu não quero morar em São Paulo e lembrando do sujeito no aeroporto que vestia uma camisa de ET escrito "I believe in humans".

P.S - Tá na hora da revolução
P.S 2 - Ela não acontece nas urnas

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

São Paulo, Brazil

Cheguei.
Em vez de voltar para casa, BH, voltei para o berço. São Paulo.
Não me pergunte porque. Não sei. Deu vontade.
Hoje de manhã, quando saí da casa do meu primo Renan, a minha pessoa preferida no mundo, (talvez por isso eu tenha voltado para São Paulo), eu lembrei da minha cidade.
Sete horas da manhã, o céu meio rosado, a poluição visível no céu, que dá até para cheirar, o barulho incessante de buzinas e motores e ônibus e aviões e helicópteros e motos. Isso é memória afetiva. Fala ao meu coração. É do que eu fui feita quando ainda não tinha escolha. Essa cena que acabo de descrever traz até aquela musiquinha na minha cabeça "vambora, vambora, olha a hora vambora vambora". (Caso você não entrasse no carro do seu pai logo cedo ouvindo Jovem Pan, digite Sinfonia Paulista no Youtube). Eu me lembro de uma época que tinha orgulho de ser isso, membro de uma "cidade que não desperta, apenas acerta a sua posição, porque tudo se repete, são sete e às sete explode em multidão. Portas de aço levantam, todos parecem correr". Gente! Paulistano é maluco.

Enfim. Bateu o saudosismo, mas logo passou. Mais exatamente quando a gente chegou na Avenida Washington Luiz. - Aquela que tem um aeroporto no meio da cidade, que os aviões caem na cabeça das pessoas e postos de gasolina. O asfalto! Lord Ganesha, o asfalto no Brasil!

Eu vou contar uma coisa para vocês. Por alguma benção que a vida resolveu me dar, eu já tive a oportunidade de visitar 17 países. 75% deles de primeiro mundo, onde o asfalto é lindo, onde o sinal de pedestre faz barulho e o espaço público é pensado para a acessibilidade. Mas morar dois anos em outro país e voltar para São Paulo, camaradas, é completamente diferente.

Minha gripe começou no primeiro terço do trecho Auckland - Buenos Aires. Minha garganta foi fechando, fechando, fechando, ardendo, ardendo, ardendo. Meu corpo foi doendo. Cada centímetro do meu corpo doía. Quando eu cheguei no aeroporto de Guarulhos, ainda tive que esperar o voo do Charles aterrissar com 20 minutos de atraso (pegou a fofoca em primeira mão?) e aqueles 20 minutos pareceram uma eternidade, de tanto que doía. Cheguei em casa delirando em febre. Literalmente. Derreti e pirei a noite toda. Acordei louca e sem garganta. Antes de 6h da manhã tem farmácia aberta a 800m de casa em São Paulo, claro. De lá veio o remédio que tirou minha febre. Mas ainda faltava o médico para resolver minha garganta cheia de pus (precisava desse detalhe?). Eis que eu, elite branca privilegiada, fui tirar um cartão do SUS. O posto de saúde do parque imperial, na rua Democratas, foi interditado pela prefeitura. Mais tarde, no posto provisório na alameda Ceci, conheci uma orgulhosa senhora que me contou quantas vezes ela foi pessoalmente até a prefeitura reclamar das condições desumanas daqueles prédio sem janelas, com ratos. Até que chegou a outra senhora e comentou que nunca viu um prédio com tanta escada na vida. E aí eu reparei, no posto em que estávamos e nos outros dois postos em que tive que ir, que não há elevadores. E há muitas escadas. Me vi numa cena de filme. A pessoa deslumbrando a realidade, sabe?

Enfim. Não é difícil conseguir informações nos postos de saúde de São Paulo. As pessoas tem as informações. São extremamente  pacientes inclusive com os mais malucos e os serviço funciona sim, ao menos no básico que eu precisei ( o que não tem é vacina de febre amarela. loucura quanta gente vem pedir. Revoltante ouvir cada não). No primeiro posto me registraram sem burocracia (com minha carteira de motorista vencida. na vivo que eu quis virar cliente com carteira vencida, não me deixaram. Ah! E a Tim não aceita novos clientes no plano controle, a menos que você queira um plano de controle de 189 reais por mes. Ah! e quando você está quase assinando o contrato, depois de discutir todas as questões e entregar o cartão, eles te dizem que você tem que ser fiel por 12 meses. Saudades, Brazil!.)

...Voltando...

Porém, esse primeiro posto não tinha impressora. Me dirigi ao posto lado com número de cadastro e pedi pra imprimirem. Beleza! Sou, como uma cidadã brasileira pagadora de impostos, usuária de meus direitos de saúde! Me senti muito feliz por estar em casa. Na Austrália eu não teria saúde sem dinheiro porque não é meu país. Próximo passo: onde consigo pronto atendimento? "Aqui só marcado, próxima consulta para daqui 3 dias" e eu quase desmaiando de dor. "Mas aqui está o endereço da UBS mais próxima", que a moça sabia de cabeça e me deu de coração. Lá fui eu,  caminhando da Ceci ao metrô São Judas. E aquele asfalto. E aqueles ruas sem faixa ou sinal, que não sei se vai ou se fica, e olhando pro chão pra não torcer o pé e aquele asfalto! E aquela calçada, meu bom senhor. Não é à toa que a gente é tão católico nesse país. Só rezando pra não chorar.  E enquanto eu submetia minhas preces, as gotas das obras caíam na minha cabeça e as pessoas passavam com escadas, como se nada. Brasileiro é igual criança. Só sobrevive por milagre, porque o santo é forte. Porque são demais os perigos dessa vida, (como já diria Vinicius de Morais em outro contexto).

E COMO A GENTE É FEEEEIOOOOO
Cadê os loiro de olho azul, minha gente?

Comecei a procurar a beleza no olhar, no suíngue, na simpatia.
Meu cu.
Como diz a Sinfonia Paulista, "Sempre ligeiro na rua, como quem sabe o que quer, vai o paulista na sua".
Não tem suíngue e simpatia não, mate.



Fui pro posto da Santa Cruz, e o processo todo demorou duas horas, não mais. Bem sagaz. Só se perderam na hora de me entregar os remédios. A receita nunca chegou à farmácia.  Mas depois de 40 minutos esperando pacientemente (virei uma polite strayian, né?) levantei e perguntei e me deram o remédio. Gente. Cartão de saúde, médico de graça, remédio de graça. Home sweet home. Saí do posto, entrei no metrô, pelo caminho do shopping e tomei um expresso. Presta atenção no que eu vou escrever agora:
5 REAIS
UM ESPRESSO.


Mas, tudo bem. No dia anterior, apesar de toda dor, febre e jetlag e ansiedade, o Charles voltou da farmácia com uma sacola da padaria que continha PÃES DE QUEIJO DA EFM (a padaria da minha vida, minha infância, minha adolescência), pão francês coberto com queijo derretido crocante e mussarela fatiada.

E no dia seguinte eu fui pra casa do Renan. E mesmo com minha garganta doendo muito até agora (parece que quando eu como, tem um bicho arranhando minha garganta, com pimenta nas unhas, enquanto outro simultaneamente rasga minha alma), eu fui comer tudo que o Renan prometeu cozinhar pra mim: arroz, feijão preto com pedaços de porco, farofa, carne moída e...
bolo de cenoura
coberto com brigadeiro
com base de brownie
recheado de brigadeiro.

Meu maior prato desse manjar dos deuses foi sozinha, às 4h da manhã, que é o auge da minha fome. Assim como o ápice do meu sono é às 3 da tarde. E meu cocô, que era sete da manhã virou oito da noite (haha tô adorando essas informações desnecessárias).

Ai como eu queria fumar. Cigarro tão barato! Última vez que fumei foi em auckland. Por favor, garganta, sare! Quero cerveja gelada no buteco zuado com cigarro barato.

Ô MOTÔ! VAI DESCÊ MOTÔ!

Aí, vim eu de busão e eis que no meio do caminho, a mulher me grita essa frase tão clássica colocada em terceira pessoa sempre pela primeira pessoa. Num tipo de evento que é tão clássico do Brasil, o busão tão lotado que nem o cobrador vê que a pobre coitada quer descer e ela tem que se ajudar "vai descê motôooo". Nem me deu raiva. Nem dó. Deu de novo um bom saudosismo, esse jeito de viver.

E eu, fazendo aloka, andando em são paulo as 7h da manhã de havaianas, shorts curto e regata, com a blusa de frio enrolada no pescoço fazendo o cachecol. E nós, brasileiros, maravilhosos, o paulistano tão ocupado com a própria vida, só reparando na vida dos outros. TODO MUNDO me olhou. A princípio pensei que era minha provocação social baseada em style. Mas depois lembrei que tenho 1,90m.

Me lembro de reclamar quando cheguei na Australia. Ninguém olhava pra mim. Eu saía linda, ninguém olhava, saía feia, ninguém olhava, saía plantando bananeira sem calça, ninguém olhava. Justo eu, que passei minha vida sendo olhada como um extraterrestre porque no Brasil eu provavelmente sou a única mulher de 1,90 de altura.

Pronto, issue resolvido, todo mundo olhando de novo pra mim, sem exceção. Entrei no mercado. A louca da mulher paga a conta, sai e deixa o cartão na máquina, a da minha frente grita "ô moooooça, olha o cartão!". E aí, senhoras e senhores, chegou o momento mais esperado por minha pessoa. Aquele momento em que você brilha igual uma estrela, mas só pode fazê-lo porque está em casa. Eu gritei na sequência: "se vai deixar o cartão, deixa a senha". E as pessoas começaram a rir. Gente. Uma piada, em voz alta, em público, em frente a estranhos, com toda maldade que há nessa nação. Aquilo tudo que só faz sentido na sua cultura e na sua língua. Ah!  Que saudade! Se prepara Brazil! Meu repertório vai voltar fervendo!

By the way, tô aqui comendo um baton que comprei nesse mercado.


Aí!
Maaaanoooo do céu!
Eu passei na porta da Ronex. A padoca lá da esquina da Jabaquara!
Mano, sério! Precisa ver as fotos dos PFs na porta da bagaça. Tem um que é arroz, feijão e linguiça calabresa gorda oleosa. Pensei "7h40am, hora da janta, vai agora mesmo", mas aí pensei na dor que isso vai causar e optei por adiar. Hopefully, não faltarão oportunidades. Por exemplo, até agora, eu não disse Sorry nem uma vez, apesar de sempre pensar. Por alguma razão, a palavra sai certinha: "desculpa", embora eu não esteja muito certa de que eles sabem o que é isso. Mas enfim, a moral da história é que no final dá tudo certo e sooner or later eu vou comer aquela linguiça e ficar só na azia, lembrando dela por 3 dias, sendo feliz como me é de merecimento!

 E aí, meus amigos, best for last. Prepare-se porque o texto acaba assim que eu viro a esquina.
Virei a esquina, 7h42am e o que encontrei? O boteco aberto vendendo cerveja!

hahahahahahahahaha