domingo, 22 de dezembro de 2019

Se a canoa não virar...

Estava eu, linda e plena (e estafada depois de hooooras em pé, vendendo, quando saí para o intervalo do almoço.

Fui toda feliz ver o mar e fumar meu cigarro e, como de costume, abrir o cruise map para ver em que altura estávamos navegando. Mais ou menos palhoça. Lugar de águas frias e mar agitado.

Peguei o elevador, desci e, quase chegando ao deck 0 - lugar de máquinas e de toda a estrutura do navio, reservado apenas aos tripulantes - comecei a ouvir um alarme.

Antes eu tinha medo de alarmes aqui dentro. Agora já sei que qualquer máquina desajustada soa alarme.

Quando saí do elevador, MUITA fumaça. Os sprinklers estavam acionados então, o chão estava úmido e escorregadio. A sensação física era de que eu estava numa sauna. Passou um oficial correndo e suando. Depois um segurança atordoado. O alarme vinha da area de lixo, de onde também vinha a fumaça.

Outra desavisada no caminho me perguntou o que estava acontecendo. Não sei. A porta anti-fogo na minha frente estava fechada. Pensei por alguns segundos se abria e passava por ela ou buscava uma rota alternativa. Um outro rapaz, carregando a comida dos tripulantes, agiu como se nada estivesse acontecendo e passou pela porta. Passei eu também.

Depois da porta, nem fumaça, nem sprinkler. Mas um monte de gente mega agitada e curiosa. E, talvez, assustada.

Quando temos um incêndio no navio, existe um aviso oficial, no alto falante do navio todo, com uma frase específica que só nós sabemos o que significa. Como esse aviso não foi dado, imaginei que estivesse tudo sob controle.

Mantive a calma, peguei meu prato, enchi de salada e comi. Quando a salada acabou, aí então veio o tal aviso.

Eu já estive em um princípio de incêndio no outro navio. Porém, estávamos aportados e o capitão avisou assim que a emergência acabou.

Dessa vez, em vez de avisar que acabou, ele lançou o aviso mais uma vez. Comecei a sentir um mini pânico. Decidi comer mais. Se eu tiver que evacuar o navio e ficar a deriva, prefiro que seja de barriga cheia.

Terminei de comer. Os curiosos ainda estavam lá. Ainda cheirava queimado. Ainda havia fumaça e nada de ouvir o aviso de is OVER.

Minha perna amoleceu, senti meu sangue frio. Fui pra minha cabine e separei o material necessario para uma emergencia: Colete salva vidas, boné de crew pros passageiros nos verem e uma roupa quente. Por via das dúvidas, enfiei dois maços extras de cigarro no bolso.

Meu break acabou. A area quente ainda estava bloqueada. O time de primeiros socorros ainda estava a postos. Uma hora. Foi uma hora tentando controlar o incêndio. Eu tinha certeza que era agora. Quase conectei na internet pra avisar meus pais que ia fugir de um navio em chamas em alto mar e pedir pra minha mãe rezar.

Mas a internet estava fora do ar.

Voltei pra loja e expliquei pra minha colega, que entrou há 3 dias, como evacuar a loja e chegar ao ponto de encontro em caso de ouvirmos o sinal seguinte de emergencia.

Tentei relaxar. Tava nervosa real. Mas gente nervosa em público causa pânico em massa. Vendia as coisas e pensava "acho que vc nao vai poder levar".

Depois de 1 hora de break e 40 minutos de trabalho, entendi que não haveria informacão sobre a emergência ter acabado. E concluí que já estava resolvido, ao contrário, já teríamos tomado outras atitudes.

Minha mão ainda estava gelada quando aquele primeiro segurança que vi, atordoado, passou por mim na maior calma.

Tudo resolvido lá embaixo?
Sim. Quanto custa essa carteira?

Paz.
Alívio.

UFA!

Aí que parei pra perceber que nada de errado poderia acontecer aqui. Esse cruzeiro que estamos fazendo agora tem mais de 2 mil passageiros argentinos entre 17 e 19 anos, recém-formados, prestes a entrar na faculdade. Não faria sentido queimar o futuro do mundo.

Como não pensei nisso antes?

Já encontrei o chefe dos bombeiros que me contou que o problema era uma máquina incineradora e como eles apagaram o fogo. Disse que esse foi fácil. Já passou por piores. Ainda bem, né?