quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Meu amigo Gil

Meu amigo Gil, baiano baianíssimo é um centro de conhecimento coletivo.

São tantas pérolas por dia, todo dia, que eu comecei a anotar. Seguem algumas para vocês, mortais, aprenderem mais sobre a vida:

"Eu não sou santo não. Nem santo tem com meu nome"

"Relaxe iáiá.  Muito vento é pouca chuva. Igual muito peido é pouca merda"

"Esse povo tem um desapego pelos companheiros que nem sei. Pois eu, quando eu me apego, me apego igual não sei quê.  Xô ver... Igual mato crescendo que nem praga"

"Não chore festa não que o Natal vem aí"

"Cachorro que muito anda ou acha osso ou ganha porrada"

"Ou eu assovio ou chupo manga"

"Depois que a minha mãe morreu, toda vez que eu passava em frente ao cemitério eu chorava igual cachorro novo"

"Ôxe, e vai embora por quê? Tem que acordar cedo amanhã, é? Não, né? Então relaxe e diga a quem te mandou que não me encontrou"

"Essa menina ainda vai ter que tomar muito no c*. Ela tá pensando que todo sabido morreu e só ficou ela"


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Pessoas, natureza e claustrofobia

Eu não sou tão legal quanto eu achava que eu era.
Eu julgo as pessoas.
E está muito difícil viver em Noronha por causa disso.
Nesta ilha de algumas milhares de pessoas eu te garanto que já conversei com 10% da população.

E a galera é chata. Chatos porque só fazem falar da vida dos outros.

Tem exceções  claro. Tem gente muuuito legal. Teve o cara da barraquinha de praia que pediu um break pro chefe pra me levar pra ver a vista mais legal da ilha. Uma fenda numa pedra que eu aconselho veementemente visitar, a Lasca da Velha. Mas aconselho mais veementemente que seja guiado por alguém experiente porque haja pedra e haja altura pra chegar lá. Enfim, Léo me levou lá e nosso assunto ida e volta foi como a natureza é maravilhosa.  Depois ele falou mal dos colegas de trabalho.

Tem um outro que eu adoro.  Qualquer coisa que acontece na ilha, ele me avisa e a gente vai. Nosso assunto é sempre como o mundo é maravilhoso. As vezes ele celebra o fato de ser funcionário público e trabalhar menos que todo mundo mas ganhar bem.

Tem a Ane, Josiane, que está sempre embriagada e a gente senta e chora o sofrimento dela de estar longe dos filhos. Quando a gente não tá chorando, a gente tá no samba rindo e dançando porque a gente nao tem muito assunto mesmo.

Tem os meninos do reggae. É uma casa de 4 caras que fumam maconha e tocam reggae e têm um gato chamado gangja.  Eles são super do bem e nosso assunto é sempre sobre como a natureza é maravilhosa e como as energias fluem de formas incríveis. Meu preferido deles é um que me conta das incursões que ele já fez pelo sertão do Nordeste e fundões do Norte, atuando como topógrafo. Outro dia ele lembrou de quando pediu água e trouxeram uma garrafa de água misturada com barro  que era só o que tinha mesmo. Nos sentimos privilegiados de beber água dessalinizada. "Basicamente um monte de cloro na água do mar", disse ele. E rimos muito.

Tem a Edilene que tem uma filha de 11 anos muito legal que sempre fala "tia, quando eu vou poder nadar na piscina do seu hotel?" e aí a gente fica bebendo e falando o quanto a filha dela é legal e inteligente, enquanto a menina fica pedindo pra ela parar de beber.

Tem o meu amigo querido do trabalho, que fala de outras coisas além da natureza maravilhosa. Me traduz uns proibidão brega que eu não entendo muito (mentira, não entendo nada das gírias), fuma um baseado e eu falo "nossa que vento" aí ele explica "irmã, parece vento  mas é só a brisa" e a gente ri da natureza olhando pras estrelas no céu.

Tem uma menina de uns 9 anos que mora do lado do meu trabalho, que eu sou amiga dela, mas ela nem deve saber que eu existo. Ela parece o Bob, do fantástico mundo de Bob. Toda vez que eu tô lá fora fumando um cigarro ela passa numa viagem diferente. Ela tem muita energia e brinca sozinha e corre e pedala e fala muuuito sozinha e tá sempre sorrindo. Eu adoro ela. Qualquer dia vou tentar uma amizade.

Tem o motorista do caminhão de água e mergulhador. Sempre que ele vem entregar água a gente fica quase uma hora falando sobre o fundo do mar e esse imenso universo debaixo dos nossos pés.

Essas coisas geralmente acontecem a noite. Ou quando o sol tá nascendo. Geralmente depois de uma festinha com musica boa ou depois de uma coxinha ou tapioca e açaí. Não tem assalto, não tem gente passando fome. Pode voltar sozinha de madrugada pra casa. Sussa. Eu até sou feliz. Até aí, tá fácil ser feliz.

Mas nenhum deles rendeu assunto comigo sobre cinema. Ninguém quer falar de cinema comigo. A única pessoa que eu conheci que lê, lê histórias extraordinárias tipo senhor dos anéis. Não gosto. A única pessoa que eu conheci aqui que tem ambições de viajar por aí  quer ir pra Bolívia. Eu não quero ir pra Bolívia.  Aí vai ficando tenso. Natureza, Natureza, natureza, universo, mar, energia, Natureza, natureza

AI QUE SACO.

E quando chega de dia, o inferno volta. Essas pessoas legais partem pra seus deveres e lá estou eu cercada dessa chatice. Todo mundo falando mal de todo mundo, todo mundo reclamando da exploração do patrão em TODAS as empresas da ilha, todo mundo se recusando a trabalhar direito, todos os fornecedores querendo ganhar vantagens ridículas tipo um prato de comida ou um suborno de 50 reais.

Palavra aqui é coisa que não tem valor nenhum. "Vou amanhã" significa "não vou" . "Vou as 10h" significa "não me espere antes das 13h" e por aí vai. E meu estômago vai doendo de raiva e frustração.

Aí eu vou dar uma volta.
Mano.
Não tem volta.
Não tem pra onde ir.
Pode cruzar a cidade inteira. Ida e volta. 20 minutos . Que inferno!

O sujeito me disse outro dia que quem vai pra qualquer ilha é pra achar um tesouro. Acho que já achei o meu. Descobrir o fato de que eu estou em tanta expansão quanto o universo que a gente fala aqui em Noronha.

Só que não dá pra expandir quando se está ilhado.