quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Minhas louquinhas - e seus sábios conselhos

A Brigitte tá aqui no Pacifica comigo. Ela ja tinha estado duas vezes comigo no neo Riviera. Na temporada da India e na do Mediterraneo. Ela me chama pelo meu nome, me dá dois beijos todo dia na primeira vez que me vê e me tira do meu posto pra comprar comigo no ponto de venda dos outros. Ela é francesa, mas fala italiano e inglês muito bem. Deve ter uns 65, 70 anos. Não sei qual é a condição financeira dela, mas sei que ela sempre vem sozinha e não economiza. Gasta meeeesmo na loja. Se não pra ela, de presente pros outros. Outro dia ela me disse: "essa bolsa é Linda! Mas não sei se compro. Já tenho mais de 40 bolsas ". Meia hora depois ela comprou uma. O dobro do preço da que comentávamos antes.
Ela também gasta bem no spa e não tem nenhuma vergonha de andar por aí de roupão com um drink na mão. Hahaha. Adoro ela! E acho ela Linda!
Ontem perguntei como ela estava e ela disse "mal. Um primo morreu e nem sabem me dizer de que".
Hoje ela passou "Ei Brigitte, tá melhor? Conseguiu notícias do primo?"
Ela, com um sorriso gigante e uma cara de paz, com roupão do spa e batida de coco na mão: "ah sim! Ataque do coração. 50 anos. Homem de hábitos saudáveis. Uma pena. Deixa eu ir pra minha massagem porque a vida pode ser curta. Tenha um bom dia".
Acho que isso de ver os outros irem sem mais nem porque, nos faz mais carpem diem.

----/----

A carrancuda passa todo dia por nós com aquele ar grosseiro. Só fala quando interessa e tem um tom de quem tá dando ordem. Mas com cliente italiano eu nunca levo as coisas pro lado pessoal. Eles não são grosseiros. Eles são italianos. Só isso. É um jeito de ser.
Hoje eu resolvi encostar na carrancuda em vez de falar com ela de trás do balcão. Dei a volta, fui até bem pertinho dela e abaixei pra ouvir o que ela tava perguntando. Ela, metade de mim, literalmente, disse "como você ficou tão grande, menina?"
Aí eu falei que meu pai e minha mãe fizeram com vontade.
Mas ela não riu dessa minha quase infalível piada. E disse: você deve ter comido bem. Não era como eu, que cresci na guerra.
- Oi? Cresceu na guerra?
- Minha filha, eu tenho 96 anos. Quando eu era jovem, a gente lá em casa pegava um pao grande, tipo uma baguete francesa e dividia em 7. Eu comia aquilo ás 7h da manhã e ia pra universidade. Só is comer de novo quando voltasse, as 8 da noite.
- Mas você, mulher, jovem, no meio da guerra, foi pra universidade?
- Claro! Química. Tem que estudar na vida! Aliás, as duas coisas se misturam. Comer de menos é melhor que comer demais. Nosso organismo não foi feito pra comer 1 quilo de comida, misturando carne, massa, pao, frango... olha esse tanto de criança obesa... Comer menos é vida mais longa e mais saudável.
Disse a velhota enxutassa.

--//-----

A doida comprou mil euros em cigarro no primeiro dia de cruzeiro. Tivemos que pedir permissao pra realizar a venda. Na metade do cruzeiro ela devolve metade dos cigarros. Pede pra trocar em semi-jóias. O pessoal chama ela de doida. Eu chamo de traficante.
Velhinha barra pesada. Deve ter mais de 70. Anda de bengala e a mão treme.
Hoje ela me contou que foi casada por 14 anos. Separou. Seis anos solteira. Casou de novo, com outro, e está com ele há 16. Eles não se dão bem. Ele já bateu nela 4 vezes, mas ela não denunciou porque ele prometeu que não faria de novo. Hoje ele tá velho, não faz mais isso. Mas já puxou ela pelos cabelos na sala de fumantes desse mesmo navio. Ela não traz mais ele pro cruzeiro porque ele dá esses escandalos e fica reclamando como ela gasta o dinheiro. Dinheiro que, por sua vez, é dela. E sustenta ele. Talvez fosse melhor arrumar um gigolô. Jovem e bonito, diz, rindo. Mas ela não gosta de ficar sozinha. Antes mal acompanhada do que só.
Mas ela disse "casar é bobagem, viu? Homem sempre vira arrogante e egoísta depois do casamento".
Faço o que então, minha senhora?
- Arruma um bom companheiro. Companhia, não casamento. Que faça amor. Demorado. Não aquela falta de cuidado pra transar. Que te dê amor também e que tenha um pouco de dinheiro. Mas só um pouco. Dinheiro não é muito importante e muito dinheiro vira frieza. Esse é meu conselho. Agora vou jantar. Ciao.
E se foi, mancando, marcada, sabe-se lá de quais jeitos.





Nenhum comentário:

Postar um comentário