Eu divido cabine no navio. Eu vim decidida a gostar da pessoa que morasse comigo e me adaptar às loucuras dessa pessoa, afinal, vamos dividir um cubículo por Deus sabe quantos meses. É uma pessoa que caga, ronca e se troca na sua frente como se fosse sua melhor amiga desde sempre. No meu caso, é ainda a pessoa que te faz ficar acordada quando você quer dormir, porque tem muita história pra contar. Quando cheguei, tinha a italiana. Agora, a serva. Eu gosto muito das duas e as considero pessoas deveras interessantes. Vamos aos fatos:
A italiana, que morou comigo por 15 dias, saiu do navio após um ataque de nervos (literalmente). Mas nos 15 dias que vivemos juntas, nós nos divertimos muito e até choramos. Quando ela tinha 6 anos, os pais dela decidiram mudar para os estados unidos e por lá ela viveu mais de 15 anos, ilegalmente, nos guetos da Califórnia. Ela brinca que é por isso que fala inglês com sotaque de mano. Também fala espanhol fluente e, obviamente, italiano. Ela é linda! Toda gostosona, cabelo pintado de ruivo, adora ficar torrando no sol nas horas vagas e usa cílios postiços e salto alto pra ficar ainda mais poderosa.
Tem um dom. Cantar. Diz que a galera vai a loucura quando ela canta Amy Winehouse - eu não tive a chance de ver, só ouvi falar mesmo.
Ela é de peixes. E sem querer seguir estereótipos astrais, devo contar que ela adora beber. E bebe mesmo. Uns bons vinho. E gosta de dançar e estava sofrendo por amor, porque teve um envolvimento com um homem safado dentro da navio que, por sua vez, era casado. Mas ela já carrega uma outra dor, de um cara com quem ela namorou sete anos, mas acabou porque, definitivamente, eles não tinham os mesmos objetivos de vida. Uma pena, segundo ela. Ela também já foi aeromoça e, se voltar pro navio, talvez seja cantando.
Ela guarda umas mágoas, desconfia da bondade de todo mundo, tem umas invejas e uma boa dose de maldade no coração, mas ela também já fez Yoga e leu Osho e anda pra cima e pra baixo com a oração de São Francisco.
Na parede dela tinha um email que a mãe dela mandou, dizendo pra ela ser forte. E o pai dela joga cartas de tarot. Eu não lembro se ela tem irmãos. Foi o primeiro contrato dela. Acabou antes do combinado e ela se foi, aos 25 anos, com essa experiência maravilhosa. Eu dei um abraço bem forte nela e mesmo sabendo que ela não ia acreditar, falei a verdade pra ela - que ela vai estar pra sempre na minha memória, porque me ajudou, me ensinou e foi a primeira impressão dessa nova e querida experiência da minha vida.
Cinco minutos depois da italiana sair, chegou a serva. Ela é quase da minha altura, a voz dela é mais grossa que a minha, ela é loira, magra, tem um cabelo muito louco, curto, raspado atrás, despenteado de forma organizada na frente e dos lados, ela usa um óculos preto e fala rápido. Muito rápido. E muito. Às vezes, enquanto ela fala, eu fecho os olhos e respiro fundo, pra ver se a minha respiração alivia ela também, porque a sensação que eu tenho é que qualquer hora ela vai ela explodir.
Ela tem 31 anos, está no quinto contrato, mas não tem idéia de quantos países ela já foi trabalhando embarcada. Na verdade, ela veio trabalhar em navio porque quando está em casa, só faz pensar no ex-namorado.
Eles namoraram 4 anos. Ele é o cara mais perfeito que ela já conheceu. Ser humano evoluído, sabe? Nunca falou mal de ninguém em 4 anos! Ela traiu ele. Duas vezes. E ela lembra de ter tido essa vontade de machucar ele de propósito, embora não saiba bem porque. Ele ficou sabendo e disse "tudo bem. Se vc me ama e quer ficar comigo, tá perdoada". Mas o problema é que ele teve câncer. E morreu. Jovem. E agora ela não tem como resolver essa culpa. Ela cuidou dele até o fim e embora quase quatro anos já tenham se passado, é difícil se relacionar com outros homens. E se eles morrerem? E se ela fizer algo errado de novo?
Antes de vir pra esse navio, a mãe dela disse "filha, por favor, transe". A mãe dela é viúva. O pai dela morreu dois anos antes do namorado. Mas são dores diferentes. Segundo ela, o pai é de se esperar. É da natureza. Mas o namorado não podia.
Ela nasceu na Iugoslavia. Agora a mãe dela é croata e ela é os dois irmãos mais velhos, sérvios. Os sobrinhos também. Ela tem dois. São uma família unida e querida.
Ela é especialista na nossa empresa. Sabe tudo de produtos de beleza e ganha muito bem por isso.
Ela tem uma curiosidade real pelas pessoas. Ela encosta nos clientes e nos colegas, faz perguntas olhando no olho e está sempre rindo. É uma presença agradável. Eu durmo, acordo e trabalho com ela. Mas na nossa hora de break, a gente vai junto comer pra poder conversar mais. Eu gosto das piadas dela e sugo a experiência dela, que ela não tem problema nenhum em compartilhar.
Ela é inteligente, lê muito, discute política e o objetivo de vida dela é salvar o mundo. Em breve ela vai estudar psicologia e atender as pessoas de graça. Ainda não sabe como, mas vai. Amém.
A italiana, que morou comigo por 15 dias, saiu do navio após um ataque de nervos (literalmente). Mas nos 15 dias que vivemos juntas, nós nos divertimos muito e até choramos. Quando ela tinha 6 anos, os pais dela decidiram mudar para os estados unidos e por lá ela viveu mais de 15 anos, ilegalmente, nos guetos da Califórnia. Ela brinca que é por isso que fala inglês com sotaque de mano. Também fala espanhol fluente e, obviamente, italiano. Ela é linda! Toda gostosona, cabelo pintado de ruivo, adora ficar torrando no sol nas horas vagas e usa cílios postiços e salto alto pra ficar ainda mais poderosa.
Tem um dom. Cantar. Diz que a galera vai a loucura quando ela canta Amy Winehouse - eu não tive a chance de ver, só ouvi falar mesmo.
Ela é de peixes. E sem querer seguir estereótipos astrais, devo contar que ela adora beber. E bebe mesmo. Uns bons vinho. E gosta de dançar e estava sofrendo por amor, porque teve um envolvimento com um homem safado dentro da navio que, por sua vez, era casado. Mas ela já carrega uma outra dor, de um cara com quem ela namorou sete anos, mas acabou porque, definitivamente, eles não tinham os mesmos objetivos de vida. Uma pena, segundo ela. Ela também já foi aeromoça e, se voltar pro navio, talvez seja cantando.
Ela guarda umas mágoas, desconfia da bondade de todo mundo, tem umas invejas e uma boa dose de maldade no coração, mas ela também já fez Yoga e leu Osho e anda pra cima e pra baixo com a oração de São Francisco.
Na parede dela tinha um email que a mãe dela mandou, dizendo pra ela ser forte. E o pai dela joga cartas de tarot. Eu não lembro se ela tem irmãos. Foi o primeiro contrato dela. Acabou antes do combinado e ela se foi, aos 25 anos, com essa experiência maravilhosa. Eu dei um abraço bem forte nela e mesmo sabendo que ela não ia acreditar, falei a verdade pra ela - que ela vai estar pra sempre na minha memória, porque me ajudou, me ensinou e foi a primeira impressão dessa nova e querida experiência da minha vida.
Cinco minutos depois da italiana sair, chegou a serva. Ela é quase da minha altura, a voz dela é mais grossa que a minha, ela é loira, magra, tem um cabelo muito louco, curto, raspado atrás, despenteado de forma organizada na frente e dos lados, ela usa um óculos preto e fala rápido. Muito rápido. E muito. Às vezes, enquanto ela fala, eu fecho os olhos e respiro fundo, pra ver se a minha respiração alivia ela também, porque a sensação que eu tenho é que qualquer hora ela vai ela explodir.
Ela tem 31 anos, está no quinto contrato, mas não tem idéia de quantos países ela já foi trabalhando embarcada. Na verdade, ela veio trabalhar em navio porque quando está em casa, só faz pensar no ex-namorado.
Eles namoraram 4 anos. Ele é o cara mais perfeito que ela já conheceu. Ser humano evoluído, sabe? Nunca falou mal de ninguém em 4 anos! Ela traiu ele. Duas vezes. E ela lembra de ter tido essa vontade de machucar ele de propósito, embora não saiba bem porque. Ele ficou sabendo e disse "tudo bem. Se vc me ama e quer ficar comigo, tá perdoada". Mas o problema é que ele teve câncer. E morreu. Jovem. E agora ela não tem como resolver essa culpa. Ela cuidou dele até o fim e embora quase quatro anos já tenham se passado, é difícil se relacionar com outros homens. E se eles morrerem? E se ela fizer algo errado de novo?
Antes de vir pra esse navio, a mãe dela disse "filha, por favor, transe". A mãe dela é viúva. O pai dela morreu dois anos antes do namorado. Mas são dores diferentes. Segundo ela, o pai é de se esperar. É da natureza. Mas o namorado não podia.
Ela nasceu na Iugoslavia. Agora a mãe dela é croata e ela é os dois irmãos mais velhos, sérvios. Os sobrinhos também. Ela tem dois. São uma família unida e querida.
Ela é especialista na nossa empresa. Sabe tudo de produtos de beleza e ganha muito bem por isso.
Ela tem uma curiosidade real pelas pessoas. Ela encosta nos clientes e nos colegas, faz perguntas olhando no olho e está sempre rindo. É uma presença agradável. Eu durmo, acordo e trabalho com ela. Mas na nossa hora de break, a gente vai junto comer pra poder conversar mais. Eu gosto das piadas dela e sugo a experiência dela, que ela não tem problema nenhum em compartilhar.
Ela é inteligente, lê muito, discute política e o objetivo de vida dela é salvar o mundo. Em breve ela vai estudar psicologia e atender as pessoas de graça. Ainda não sabe como, mas vai. Amém.
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