quarta-feira, 20 de março de 2019

Quero morar em Mumbai

Você sabe como é... Você já viajou pra uma cidade que gostou tanto, que quis morar lá.


Você sabe como é. Você já se apaixonou e lembra dos mistos sentimentos de amor e ódio, paz e medo, tudo junto misturado.


É tudo que eu sinto agora por Mumbai. Eu não quero ir embora.
Eu amo Mumbai! Eu estou perdidamente apaixonada por esse caos.


Eu lembro da primeira vez que eu desci do navio aqui, 1 de março de 2019, 16 dias atrás. Fui com meu chefe, que trabalha em navio desde 1987, logo, é o melhor guia que eu posso ter em qualquer porto. Era uma sexta-feira, pouco antes do meio-dia. Eles me disseram pra preparar o espírito porque ia ser loucura. Eu ri por dentro. Eu sou de São Paulo, oras! E acho Nova York quase uma roça...


Mas assim que o taxi saiu do Porto e chegou numa rua mais central,  eu perdi o ar. Acho que fiquei umas 3 horas sem falar.  Só tentando enteder.

É MUITA gente. Muita! Se você acha que a praça da Sé às 7h da matina é demais,  é porque você nunca esteve em Mumbai.  Toda hora, qualquer dia, todo lugar,  é mar de gente. Ja mencionei que é MUITA gente?


E muito carro. E eles buzinam muito. Sabe aquelas cenas que a gente vê nos filmes,  daquele trânsito maluco? É tudo verdade. Buzina a todo segundo, incessante, vaca no meio da rua, gente atravessando em qualquer lugar, sinais e faixas completamente ignorados... sabe quando você vai andar de buggy em Natal e o motorista pergunta "com emoção ou sem emoção?" Aqui é 100% com emoção,  sem o benefício da escolha.


Nessa área central, perto do Porto, não fosse a desorganização, eu diria que estava em Sydney, na Australia. Os mesmos prédios,  a mesma arquitetura,  a mesmíssima estação de trem. Igualzinho. Sério. Pretty british.


Vira ali na frente,  e chegou na 25 de março. Ruas e mais ruas de comércio.  Tudo super barato. E uma zona. Mar de gente outra vez. Buzina, calor, cabras dormindo na calçada, ratos passeando no meio fio. Sujo, sujo, sujo. É tudo muito sujo!

E muito quente!

Mas as pessoas,  entenda,  as pessoas na Índia! Que gente maravilhosa.

Teve ainda o almoço e outra caminhada. Um café no Starbucks e uma parada no pub pra uma Kingfisher,  a cerveja Indiana que é delícia.


Dali pra frente, não lembro a cronologia das coisas. Ficamos 3 dias em Mumbai, navegamos mais pela Índia,  Sri Lanka e Maldivas e voltamos pra Mumbai dia 14 e no dia 17, me despedi de Bombai. Infelizmente.


Lembro que foi na madrugada do segundo pro terceiro dia em Mumbai que andei pelo andar 7 e meio. (Lembra? Quem quer ser John Malkovich?) Desde os ataques terroristas do Paquistão, baladas e alcool tem que acabar 1h30am.

Mas eu não queria parar. Estamos em Mumbai! Duvido que não tenha opção. Meio a contra gosto, os amigos do navio que são daqui me levaram pra esse lugar maluquíssimo. Uma rua super movimentada, cheia de jovens sob efeito de alcool, algumas opções de comida, iluminação pública que funciona de forma intermitente, verdadeiras crateras no aslfato e uns mosquito pentelho picando nosso calcanhar. E no meio disso tudo, esse portão que dá para o que parece os fundos de um restaurante zuado. Mas é, na verdade, a entrada principal desse bar que paga taxas diárias altíssimas pelo direito de vender cerveja depois de 1h30am. Quando entrei não entendi nada. Passa pela cozinha, por um monte de saletas com mesas e cadeiras vazias e luzes apagadas. Negocia uma cerveja com o dono e pronto. Vai beber lá fora disfarçado. Pedi pra usar o banheiro. "Lá em cima. Sobe a escada". Quando subi e abri a porta, entrei num universo paralelo.
Dezenas de mesas e cadeiras lotadas de gente comendo e bebendo e rindo. Iluminação vermelha, tipo puteiro e um teto muito baixo. O lugar tinha no máximo 1,60m de distancia entre o chão e o teto. Tipo o andar 7 e meio meeeeesmo.
Foi nessa hora que eu pensei: essa cidade é das minhas.

Durante o dia, passando a rua do andar 7/2, um pouco a frente, depois de cruzar o gigante oval,  onde eles jogam cricket, parece que você tá andando em Copacabana. Os prédios, as árvores... Aí vem a marina,  que é como qualquer avenida a beira-mar do mundo, com a diferença que você está em Mumbai, logo, o céu é sempre cinza de poluição. Mas os ricos tem casa lá.  E os hoteis babado também são ali.

Vai seguindo e você chega na famosa lavanderia. Uma grande favelona em frente a prédios riquíssimos,  tipo Morumbi. No meio da favelona, centenas e centenas de pessoas lavando e secando roupas e lençóis daqueles hoteis da marina. 2 rupees por peça. Pra comprar um pacote com 6 meias no camelô,  você precisa de 150 rupees.

Tem Mumbai pra todo gosto. Tem área só de escritórios, só de uma religião ou de outra ou de outra - tem um monte de religião, um monte de museu, tem jardim, tem lago, tem um monte de shopping e tem o cinema mais bonito que eu já fui na vida! Todo de mármore. Nem parece Mumbai, de tão limpo e organizado. Até num escritório eu entrei, num 4 andar de um prédio, e dentro do escritório também é uma zona. Eu precisaria de mais tempo por aqui pra entender porque é tudo tão bagunçado e sujo. Talvez pra eles não seja...

Mas, saindo de Mumbai e falando do país que eu conheci, que inclui ainda New Mangalore, Goa e Cochin, fato é que a Índia não é lugar pra ver calçada limpa. A Índia é lugar pra quem quer evoluir, aprender a viver, entender o que é amor e cortesia.

Eu achava que cortesia era dar passagem, pedir por favor e dizer obrigada. Mas na Índia, cortesia é dividir absolutamente tudo o que se tem. E se o que tiver for pouco, ficar sem pra dar pro outro. Você anda por aí e ouve o tempo todo a frase "se você está feliz, eu também estou feliz". E vê as pessoas cedendo em prol do próximo.

Amor é um indiano sendo apresentado a você e, quando você diz seu nome, ele olha pra você com a mão no coração enquanto te ouve. E se tem um cachorro ou uma vaca ou uma cabra na rua, ele te lembra: - Olha onde anda, não vai pisar no bicho.

Eu queria poder compartilhar todas as fotos, montar um guia "visitando Mumbai em 6 dias", explicar porque em Goa tem uma cidade chamada Vasco da Gama e já ninguém mais fala português por lá, contar do templo hindu em New Mangalore e da moça que a gente conheceu no shopping e que passou a tarde ciceroneando a gente pela cidade ou da minha divertida experiência no post office de Cochin, onde me mandaram postar o cartão sem selo e sem pagar (e que eu não sei se um dia vai chegar pro meu sobrinho no Canadá), mas não dá. Ser tripulante de navio é muito intenso, muito rápido, a internet é um desafio, as informações e novidades e nomes e línguas... talvez o fato de eu já não ter 20 anos... tudo isso dificulta armazenar e organizar informação.

Mas as sensações, essas sim, ficam. E pra mim, o que ficou da Índia, de onde parto hoje, rumo ao mediterraneo, foi um vontade louca de morar em Mumbai por algum tempo e um coração cheio de amor e de fé no ser humano.

Se algum dia você achar que somos uma raça estragada, por favor, dê uma passada na Índia pra aliviar sua alma.








3 comentários:

  1. Q lindo, Thaís. Lindo texto. Love

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  2. Amei! Consegui me transportar para Mumbai!!!! Obrigada por compartilhar essa maravilhosa experiência! Boa viagem e até logo! ;)

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  3. Uau! Só isso, e uma vida transformada em 6 dias. É isso mesmo?

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