Claro que não acreditei em ninguém. "Uns exagerados", pensei. "Não pode ser tão ruim".
Até que, no meio da viagem, entendi que já era dia onde eu estava indo, mas era noite pela janela do avião e já era ontem de onde eu tinha vindo, embora ainda fosse amanhã, para onde eu estava indo.
Como me disse alguém, que não lembro quem, "você dorme no avião e acorda no futuro".
Se existe uma forma de pagar pecado na vida, ela se chama "voo para Australia". Quando você já não aguenta mais, e decide ver quanto tempo falta, descobre que não foi nem a metade. Como disse um amigo que mora na Nova Zelândia: "Eu assisto três filmes, como, durmo e meia hora se passou".
Minha jornada foi a seguinte:
Qua 13/04 11:46 - Belo Horizonte (CNF) - São Paulo (GRU) (45 min de voo)
Qua 13/04 17:30 - São Paulo (GRU) - Santiago (SCL) (4 horas de voo)
Aqui acontece o primeiro fuso-horário. Uma hora de diferença.
Qui 14/04 00:55 - Santiago (SCL) - Sydney (SYD) (9h + 3h30 horas de voo)Aqui tem uma pegadinha. O voo não vai pra Sydney. Ele faz conexão em Auckland, na Nova Zelândia. 11 horas de diferença pro Brasil. Pra frente! Sim. É o dia seguinte. Você sabe que é dia 15, mas seu celular, setado pro Brasil, te jura que é dia 14. Pelo menos, você pode se divertir ao começar a perceber os indícios da colonização britânica ao procurar o tempo até abrir o portão do seu voo e a instrução é "relax", em vez de "faltam 3 horas".
Muita gente passa mal nesse voo. No meu foram três. Quando pousou, ninguém deveria se mexer até segunda ordem do comandante, porque os paramédicos precisavam entrar. (eu sou profissional em pegar voos que acordam passageiros no meio da noite perguntando se tem um médico à bordo).
Sex 15/04 11:35 - Sydney (SYD) - Brisbane (BNE) (1 hora de voo)
Chegando em Sydney, como é a primeira cidade que você entra em seu país de destino final, você é obrigado a retirar sua mala e fazer a alfândega. Depois despacha as malas de novo, e pega um ônibus que te leva até o terminal doméstico. É aí que a gente pira. Depois de tanto tempo em avião fechado, em salas de aeroportos, e uma noite que nunca termina (acredite, é muito tempo de noite!) você vê o sol, anda de ônibus e sente cheiro de ar, daquele tipo que circula. O que vai acontecer com você eu não sei. Comigo, deu uma puta tontura.
P.S - A essa altura, você e aquelas centenas de pessoas já estão juntas viajando ha tanto tempo, que todo mundo já conversou. Quando chega em Sydney, as pessoas começam a se despedir. Eu, discreta que sou, já tinha contado pra meio voo - aussie side (a parte australiana) - que ia estudar em Brisbane por meses. Todos eles saíram do avião falando comigo. Eu sorri para todos e, tirando "good luck", não entendi bolhufas do que esses caras estavam falando. Aliás, na Austrália, não se entende bolhufas do que ninguém fala. Não sei que língua eles falam, mas não é inglês. "Não sei", por exemplo, em inglês, se diz I Don´t Know - ái dôn nôu. Em aussie eles dizem I die nuw - ái dái ní.
"Esperar", que em inglês se diz Wait - uêiti, em aussie se diz white - uáite, igual branco. Meu tio conseguiu desenhar esse me mandando esse link:
Entre esperas, embarques, desembarques, conexões e escalas, são 36 horas. Dentro do avião, sentadinho, igual bicho enjaulado, são quase 19 horas. É um martírio! Se você é uma pessoa alta, que não cabe em bancos de avião como eu, acredite em mim: você precisa do assento conforto - a primeira fila ou a saída de emergência. Pague por isso, implore por isso, dê um jeito. Mas acredite em mim!
Conforme orientado pela minha amiga, quando eram 5h da manhã em Brisbane - meu destino final - e eu ainda estava no avião, na Nova Zelândia (puta, essa porra é longe pra caralho), parei de dormir. Estava com sono, mas tentando ficar acordada, pra já ir ajustando o fuso.
Cheguei e, finalizada a viagem, já aqui em Brisbane, me mantive acordada até às 8 p.m, quando comecei a deixar de saber quem sou. Fui dormir. Acordei às 3 a.m, sem saber quem sou e onde estou. Dormi de novo, acordei 4h30 a.m, com fome. Dormi de novo, acordei 10 a.m. e fui curtir o dia.
No segundo dia, 3 da tarde me perguntaram se eu já tinha almoçado e eu percebi que não. Nove da noite, estava capotando de novo. Foi essa noite. Acordei 4 vezes. Na primeira, pra fazer xixi. Na segunda, porque estava com fome. Na terceira, porque alguém chamou meu nome sussurrando no meu ouvido, na quarta, porque tinha alguém mexendo no meu cabelo (e não tem ninguém no andar que eu moro, muito menos no meu quarto).
Hoje, acordei às 8 a.m, pra ir à missa (um capítulo a parte, pro próximo post) e agora, 1h30 p.m, estou morrendo de vontade de dormir.
Agora, meus amigos que tentaram me alertar, eu entendo e peço desculpas por não acreditar em vocês. Até vozes estou ouvindo e quase enlouquecendo. É, definitivamente, o jet leg mais louco que existe.
Amanhã tem o primeiro dia de aula. Espero estar bem hahaha.
hahahaha sofreu né? Essa última vez que viemos teve uma parada de 9h em Portugal, a viagem inteira durou 45 horas, a gente chegou e dormiu tipo 24h direto. E agora, já tá melhor? Pelo visto deu certo com a família, isso é ótimo!
ResponderExcluirVish!!! Punk demais todo esse tempo em avião. Detesto!
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